Ana Luísa Amaral (1956-2022). Mulher de palavra e causas

Autora de uma vasta obra poética e ensaística, muito voltado para os temas femininos, Ana Luísa Amaral há muito que era um nome reconhecido em Portugal e no estrangeiro. Morreu na sexta-feira, aos 66 anos.

Há pouco mais de um ano, Ana Luísa Amaral admitia, em entrevista ao DN (15/6/2021), a estupefação que lhe causara a atribuição do Prémio Rainha Sofia de Literatura Ibero-Americana (o que passava a incluí-la numa lista em que figuram, entre outros, Sophia de Mello Breyner Andresen, Nuno Júdice, Mário Benedetti, Nicanor Parra ou Joan Margarit): "Era final da manhã, andava na rua a passear a minha cadela, a Millie Dickinson, e recebi um telefonema de Madrid a comunicar-me a notícia de que era a escolhida desta 30.ª edição do Prémio. Fiquei tão perplexa que perguntei à senhora se tinha a certeza do que me estava a dizer. Acho que só acreditei realmente quando, logo a seguir, recebi outra chamada, do El País, a pedir-me um comentário."

Mas ao mesmo tempo que confessava a surpresa com tamanho desassombro, também prometia não descansar à sombra do sucesso e da consagração. Mulher de causas éticas e estéticas, associava o rigor da linguagem poética, a erudição e o cuidado formal (tinha uma paixão pelas Artes Plásticas, que se reflete frequentemente na sua obra) dizia nessa mesma entrevista ao DN, uma das últimas que deu: "Não acredito numa visão radical, para a qual só as mulheres podem ser feministas e só os negros podem escrever sobre o racismo. Como mulher branca, eu não posso sentir totalmente o que têm vivido os negros, mas posso (e devo) ser empática e solidária. Como tal, tenho propriedade para tratar esta questão. No meu próximo livro, que se chamará Mundo, voltarei a estes temas. Uma vez mais."

Essa vocação cívica foi, aliás, reconhecida, em nota de pesar, por António de Sousa Pereira, Reitor da Universidade do Porto (instituição onde Ana Luísa se formara e foi professora): "A sua obra literária irá certamente garantir que o nome de Ana Luísa Amaral perdurará para todo o sempre, mas quem teve o privilégio de a conhecer de perto terá a memória de uma pessoa generosa e uma ativista dedicada às causas da igualdade e da solidariedade social".

Nascida em Lisboa a 5 de abril de 1956 (mas a viver em Leça de Palmeira desde criança), a poetisa que morreu na sexta-feira, vítima de cancro, aos 66 anos, era professora aposentada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e autora de mais de três dezenas de livros de poesia, teatro, ficção, ensaio e literatura infantil (para além de tradutora de autores como Shakespeare, John Updike ou Louise Gluck), estando ainda representada em diversas antologias portuguesas e estrangeiras. Com os seus livros publicados em países como Inglaterra, Brasil, França, Espanha, Suécia, Itália, Holanda, Colômbia, Venezuela, México e Estados Unidos da América, já recebera antes deste Prémio Reina Sofia (promovido pelo Património Nacional Espanhol e pela Universidade de Salamanca) distinções como o Prémio Literário Casino da Póvoa/Correntes D"Escritas (2007), o Prémio de Poesia Giuseppe Acerbi (2007) o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (2008) e ainda o Prémio Francisco Sá de Miranda pelo seu livro Ágora, editado em 2020 pela Assírio & Alvim.

Na sua longa bibliografia, destacam-se livros na sua área de especialidade como Dicionário de Crítica Feminista (Porto: Afrontamento, 2005), em co-autoria com Ana Gabriela Macedo, e a edição anotada de Novas Cartas Portuguesas, de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa (Lisboa: Dom Quixote, 2010). Organizou, com Marinela Freitas, os livros Novas Cartas Portuguesas 40 Anos Depois (Dom Quixote, 2014) e New Portuguese Letters to the World (Peter Lang, 2015). Na poesia, estreou-se em Minha Senhora de Quê, publicado em 1990, a que se seguiram, entre outros títulos, Inversos; Poesia 1990-2010; Vozes, Escuro; E Todavia; What"s in a name; Ágora, e o que viria a tornar-se o seu derradeiro livro, Mundo, publicado pela Assírio & Alvim em outubro do ano passado. Também publicou na área da Literatura infanto-juvenil, com várias obras incluídas no Plano Nacional de Leitura: Lengalenga de Lena, a Hiena; Zero a Oito; A História da Aranha Leopoldina; Gaspar, o Dedo Diferente e Como Tu.

Com uma obra literária muito inspirada nas temáticas de género, Ana Luísa Amaral foi pioneira dos Estudos Femininos no nosso país, o que, como admitia nessa entrevista ao DN, causou alguma estupefação no meio académico na década de 1980: "Quando comecei a trabalhar nos Estudos Feministas, achava-se essa escolha um perfeito disparate. Agora é moda e ainda bem porque quanto mais pessoas falarem sobre estes temas, melhor será. Efetivamente foi através da Literatura que cheguei a esta área: eu tinha começado por estudar as obras de Sylvia Plath e Elizabeth Jennings mas, em determinada altura, a Maria Irene Ramalho Santos, minha orientadora de tese, mostrou-me a obra de Emily Dickinson e foi uma autêntica revelação. De repente, dei por mim a tratar as questões da escrita feminina, da autoria e do silenciamento."

Mulher com uma noção muito própria de transcendência, Ana Luísa Amaral dá conta dessa relação em vários dos seus poemas, mas no momento em que nos deixa, é impossível não lembrar estes versos de Testamento: "Que se lembre de mim/ A minha filha/ E mais tarde que diga à sua filha/ Que eu voei lá no céu/ E fui contentamento deslumbrado/ Ao ver na sua casa as contas de somar erradas/ E as batatas no saco esquecidas/E íntegras."

dnot@dn.pt

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