'Animal Farm' de George Orwell

João Medina*

Nascido em 1903 na Índia com o nome de Eric Blair, regressado à Europa em 1928, falecendo na Inglaterra, em 21/1/1950, conhecido pelo seu pseudónimo de George Orwell, autor famoso como romancista, ensaísta, politólogo e memorialista. Frequentou Eton mas preferiu partir para a Birmânia em 1922 para ali servir na Polícia Imperial Indiana. Viveu algum tempo como vagabundo em Paris e Londres, experiência que evocaria mais tarde numa obra.

Nos anos 1930 definiu-se como sendo socialista, tendo partido para a Catalunha, para militar na Guerra Civil Espanhola, tomando o regime soviético como o modelo político a recusar. Orwell evocaria esse período de militância no seu livro Homenagem à Catalunha (1938).

Em 1949 publicaria um dos seus depoimentos capitais, 1984 1, relato autobiográfico da sua experiência catalã, obra de enorme impacto para a compreensão da visão do mundo que perfilhou, a do socialista antisoviético. Uma das suas obras favoritas e constantemente reeditadas entre nós foi ainda a sátira Animal Farm que teve pelo menos duas edições diferentes na nossa língua, com títulos ligeiramente distintos: O Triunfo dos Porcos 2 e O Porco triunfante 3.

Esta sátira de Orwell publicou-se em 1945 como uma fábula política baseada nos eventos da revolução na Rússia comunista e a traição aos ideais executada por Joseph Estaline, que havia de falecer em 1953. A peça conta as aventuras de animais numa quinta da qual expulsam os humanos e decretando uma completa sociedade deles. Neste grupo, contudo, depressa os porcos tomam o comando supremo do rebanho e subvertem os princípios políticos iniciais de completa igualdade entre todos os animais, fazendo vingar uma ditadura encabeçada apenas pelos porcos, ainda mais opressiva e cruel do que a antiga quinta Manor dos humanos que fora dirigida pelo Sr. Jones, homem inclinado à bebedeira 4.

George Orwell era o pseudónimo literário de Eric Blair.

Todos os animais do estábulo se reuniram numa assembleia convocada pelo gordo porco branco Major, um suíno de 12 anos que conservara, apesar de tudo, um porte majestoso. Este garante que nenhum animal da Inglaterra é feliz porque os humanos lhes roubavam a totalidade do seu trabalho, de modo que a solução estaria em os animais se revoltarem contra os seus patrões opressores, além de que estes eram as únicas criaturas que consumiam sem produzir, pelo que todas as misérias que sofriam resultavam apenas da tirania dos homens. Era por isso necessário que os animais se revoltassem todos contra esses opressores. Chegando-se à conclusão de que "todos os animais eram inimigos", de modo que "todos os animais são camaradas e iguais" 5. E pede então aos animais da quinta que votem, o que foi posto em prática. Lembra-lhes então Major uma velha cantiga que fora outrora celebrada pelos animais da Inglaterra e da Irlanda 6 e que num instante todos os animais passaram também a cantar. Acordado por este clamor, o Sr. Jones levantou-se e deu um tiro na escuridão, suscitando a debandada dos animais reunidos.

Com o passar do tempo, a revolta dos animais voltaria a ganhar fôlego, designado agora como "Animalismo" 7. Embora tentasse resistir a esta revolta dos animais, o Sr. Jones acabaria por ser expulso da quinta e o seu poder tomado pelos seus antigos escravos. Os porcos Snowball e Napoleão decidiram pintar em letras brancas os Sete Mandamentos, declarando o derradeiro que "todos os animais são iguais" 8. Todos os animais foram alfabetizados 9 e nenhum podia excluir-se dessas tarefas.

Entretanto, os homens das terras em redor tentaram aniquilar a revolta dos animais, mas acabaram derrotados. As lutas pelo poder entre os animais levariam à chefia indiscutível de Napoleão - era habitual os animais dizerem que o "Camarada Napoleão tem sempre razão" 9, uma verdadeira figura na qual Orwell se inspirara em Estaline. Na parede da quinta dos animais todos os antigos mandamentos se resumiriam num único:

"TODOS OS ANIMAIS SÃO IGUAIS MAS ALGUNS SÃO MAIS IGUAIS DO QUE OUTROS" 10.

Notas à margem

1 Veja-se a trad. portuguesa de Ana Luísa Faria, O Triunfo dos Porcos, 1984, Lisboa, 2002.

2 Veja-se a terceira edição desta tradução lusa feita por Maria Antunes, com uma excelente capa de A. Rosa e J. Brandão, Lisboa, P&R, 111p..

3 Editou-se ainda entre nós a tradução feita pelo almirante Alberto Aprá, intitulada O Porco triunfante, Lisboa, Livraria Popular de Francisco Franco, 111 p, s.d., com uma ilustração desgraciosa.

4 Citaremos sempre a tradução lusa de 1980.

5 Op. cit., p.10.

6 Op.cit., pp.12-14.

7 Op.cit., p.18.

8 Op. cit., p.31.

9 Op. it., p.99.

10 Op. cit., p.106.

*Historiador