Amor tecno 

O novo filme do sul-coreano Kogonada pinta o futuro como uma visão suave e intimista. A Vida Depois de Yang mergulha-nos nessa visão através de uma família e do seu androide avariado.

O cineasta que se deu a conhecer com o belo "drama arquitetónico" Columbus (2017) está de volta com uma ficção científica que segue espiritualmente o rasto dessa primeira longa-metragem: algo entre a consciência do espaço e o modo como ele comunica a interioridade humana. Coreano radicado nos Estados Unidos, autor de preciosos vídeo-ensaios, Kogonada reforça assim a perceção de que os seus filmes funcionam como o prolongamento de uma pesquisa visual, resultando numa "atitude estética" - roubamos a expressão a Donald Richie, aplicada ao cinema de Yasujiro Ozu, realizador japonês cuja influência se reconhece instintivamente na linguagem serena de alguns planos de Kogonada.

Dito isto, A Vida Depois de Yang é um objeto de modernismo zen, acolhedor, que contrasta com as referências mais frias da ficção científica. Estamos situados num futuro indefinido, multicultural e onde uma certa ancestralidade (por exemplo, o ritual do chá) convive com uma tecnologia imiscuída no quotidiano. Tanto assim que, na sequência inicial em que várias famílias fazem uma dança sincronizada, demoramos alguns segundos a perceber que se trata de uma competição vigiada por uma voz-máquina. Este é o primeiro indício de que o mundo apresentado por Kogonada tem um travo ditatorial, embora a sua abordagem nunca enverede propriamente por aí. No centro do filme está uma dessas famílias e o seu androide, Yang, que no final da dita dança acusa uma falha técnica: o equivalente à sua morte. A perda será sentida de modo particular pela filha adotiva do casal, para quem este technosapien era como uma ama ou um irmão mais velho. Na verdade, o pai (Colin Farrell) adquiriu-o em segunda mão, com o objetivo de complementar a educação da menina de origem chinesa com conhecimentos da sua herança cultural: Yang era uma espécie de repositório de curiosidades desse país natal. Mas não só.

O que se segue é uma tentativa de reparação deste modelo antigo. Não sendo possível, a personagem de Farrell arranja maneira de, pelo menos, extrair o seu banco de memórias. E é aqui que começa o "filme dentro do filme", com a descoberta dos fragmentos de memória de Yang, que compõem o quadro de uma narrativa emocional oculta - essa que também permite a este pai distanciado ganhar uma nova perspetiva sobre a sua família, e a sensibilidade de uma máquina.

Com pouco a dar em termos de enredo, poder-se-ia dizer que After Yang peca por ser vago no seu retrato do futuro, enquanto crónica ampla. Mas assumindo que Kogonada se interessa menos pelas linhas bem definidas de uma história do que pelo design que conta essa história, não há motivos de queixa. Poucos filmes bafejados pelas questões da inteligência artificial conseguem, como este, resistir a um programa temático e manter o foco na quietude da intimidade, como uma fortaleza elegante, orgânica, que põe os elementos do espaço ao serviço de uma leitura interior. Não há exibicionismo no gesto do realizador, apenas uma profunda consciência de que o cinema é feito de texturas visuais e emoções discretas que ressoam no corpo depois do filme acabar.

dnot@dn.pt

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