Amadora BD: festival em formato reduzido sob o signo da covid-19

São apenas duas as exposições que podem ser visitadas na Bedeteca da Amadora. Mas, até dia 6, o festival tem uma programação online. E há prémios para entregar.

Estão lá as séries humorísticas "Covidiotas" de Luís Louro e "Quarentuga" de Pedro Carvalho, estão lá a ilustração "Estes Mascaralhos" que Nuno Saraiva fez para O Inimigo Público aludindo aos movimentos neo-fascistas em Portugal (e que lhe valeu uma queixa da PSP) e uma ilustração cheia de esperança de André Carrilho, mostrando a solidariedade entre duas vizinhas num "Santo António em Confinamento". São, ao todo, 30 olhares diferentes de artistas nacionais de banda desenhada e ilustração sobre o período de confinamento que estão agora expostos na Bedeteca da Amadora, naquela que é a mais estranha de todas as edições do festival Amadora BD, desde que ele começou em 1989.

"Já tínhamos programação definida, com muitos contactos feitos com autores e parceiros estrangeiros, mas apercebemo-nos, logo após o confinamento, que não havia condições para ter um festival internacional", explica Catarina Valente, que este ano se estreia na direção do festival. "Os autores franceses e italianos começaram a desmarcar as viagens e havia muita incerteza em relação ao futuro. Então, projetámos uma edição só com autores portugueses. Mas depois começaram a colocar-se questões com o local e com as normas de saúde pública, com o número de pessoas que podíamos receber e com a experiência que poderíamos proporcionar aos visitantes. E decidimos delinear um novo modelo de festival, aquele que neste momento é possível: através de plataformas digitais e das redes sociais."

O festival de banda desenhada é geralmente um momento de festa, de encontro entre os autores, os editores, os leitores e toda a gente que se interessa por esta arte. Mas se não for possível fazer a festa é preciso manter as condições para que esse encontro aconteça, apesar de todas as restrições. "Este é um ano para refletir, para perceber o que podemos melhorar e pensar em novas formas de fazer", explica a diretora do Amadora BD.

Foi assim que, semana passada, o festival arrancou, apenas em versão digital, com conversas com autores e algumas oficinas criativas. "É uma experiência diferente e é um público diferente", admite Catarina Valente. Mas a adesão, até agora, tem sido positiva.

Esta sexta-feira, abriram aos público as duas únicas exposições desta edição do Amadora BD: "30+1", uma exposição coletiva com trabalhos de autores nacionais sobre a pandemia de covid-19, o confinamento e estes tempos de restrições que estamos a viver; e uma exposição dedicada a José Ruy, autor que é "um filho da terra". A cenografia é do Atelier Maxuxa.

"Queríamos celebrar o 90º aniversário do mestre José Ruy. Na década de 90, ele doou o seu acervo à Amadora e nós achamos que está na hora de lhe dar visibilidade. Aquilo que mostramos é só uma amostra do que temos", explica Catarina Valente. O mais interessante da exposição são provavelmente as páginas dos diários gráficos de José Ruy - desde aguarelas dos anos 40 aos desenhos à vista que fez nas suas muitas viagens, podem ver-se aqui alguns desenhos inéditos, que ilustram bem o modo como o autor trabalhava exaustivamente para representar as diferentes paisagens e ambientes. Dos exemplos do seu trabalho em banda desenhada, destacam-se, obviamente, as aventuras do heróis Bomvento, português viajante e aventureiro.

A exposição coletiva é uma coleção de olhares sobre a pandemia, uns mais sérios, outros mais humorísticos, de autores muitos diferentes, como João Fazenda, Joana Afonso, João Maia Pinto, Joana Estrela e outros. "Muitos dos autores já estavam a produzir peças relacionadas com este período, outro partilhavam nas redes sociais o seu estado de espírito, por isso quando os desafiámos para este projeto alguns já tinham obras produzidas e outros produziram propositadamente para a exposição", explica a curadora. "Achamos que esta é uma forma de marcar historicamente este período criativo e de mostrar que a banda desenhada não está parada, os autores continuam a produzir e estão a refletir sobre este período."

Sendo exposições em formato reduzido também não fazia sentido estarem no Fórum Luís Camões, e decidiu-se desta vez ocupar a Bedeteca da Amadora: "Percebemos que tínhamos este espaço que precisava um novo fôlego. Por isso, decidimos fazer o festival todo aqui. É um espaço bastante agradável e que tem uma excelente coleção de banda desenhada. Os vídeos são filmadas aqui. E temos duas exposições abertas ao público, embora com entradas limitadas a 3 pessoas", explica Catarina Valente. As exposições podem ser visitadas pelo menos até janeiro.

Na próxima quinta-feira (5 de novembro) estreia nas redes sociais do Amadora BD o documentário Entre-Traços: 30 anos de Banda Desenhada. "Este filme foi idealizado pela equipa do Amadora BD porque queríamos ter um objeto audiovisual que contasse a nossa história que é, também, a história da banda desenhada em Portugal. O festival tem sido uma plataforma de lançamento de novos autores mas também de consagração de outros autores, de lançamento de editoras, de captação de novos públicos. E o filme mostra isso, com o testemunho de autores, admiradores, críticos, pensadores." O filme conta com a colaboração do ator João Afonso e a banda sonora foi cedida por Filipe Melo.

Na sexta-feira (6 de novembro) o encerramento do festival acontece com a cerimónia de entrega de prémios, desta vez apenas para convidados, devido às limitações na lotação dos Recreios da Amadora. Este ano, o festival vai entregar prémios em apenas seis categorias, uma redução que já foi alvo de algumas críticas. Catarina Valente explica que o regulamento dos prémios é um documento aberto, que pode vir a ser alterado se se perceber que este formato não resulta, mas defende a redução: "Para nós é importante ver o festival não como uma entidade que distingue somente, mas que consegue dar visibilidade a estes autores. E nós temos que garantir que isso acontece. Preferimos reduzir o número de prémios para garantir que eles são de facto um marco na vida destes autores. Queremos divulgar e valorizar o trabalho dos autores e não apenas reconhecê-lo."

Estes são os nomeados deste ano:

Prémio melhor obra de BD de autor português:
- Conversas com os putos e com os professores deles, de Álvaro
- Mindex, de Fernando Dórdio, Pedro Cruz e Mário Freitas
- coletânea Raízes, do The Lisbon Studio
- Sentinel, de Luís Louro
- Toutinegra, de André Oliveira e Bernardo Majer.

Prémio revelação:
- Jacky Filipe com Relatividade
- João Gordinho com O Filho do Fuhrer
- Paulo Mendes com O Penteador
- Zé Burnay com Andrómeda ou o Longo Caminho para Casa
- Zé Nuno Fraga com A Assembleia das Mulheres

Prémio melhor fanzine:
- Apocryphus - SCI-F,
- H-alt, n.º 9
-Tequila Shots

Prémio melhor obra estrangeira de BD editada em português:
- Criminal - livro II, de Ed Brubaker e Sean Phillips
- Dois Irmãos, de Milton Hatoum, Fábio Moon e Gabriel Bá
- O Homem que matou Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme
- O Número 73304-23-4153-6-96-82, de Thomas Ott
- Undertaker, vol. 1, de Xavier Dorison e Ralph Meyer

Prémio melhor obra de ilustrador português:
- 1.º Direito, de Ricardo Henriques e Nicolau
- Fernão de Magalhães - O homem que se transformou em planeta, de Luís Almeida Martins e António Jorge Gonçalves
- O protesto, de Eduarda Lima
- Troca-Tintas, de Gonçalo Viana
- Desvio, de Ana Pessoa e Bernardo P. Carvalho

Prémio melhor obra de ilustrador estrangeiro:
- A Época das Rosas, de Chloé Wary
- Endireita-te, de Rémi Courgeon
- Histórias da Mamã Ursa, de Kitty Crowther
- Mvseum, de Javier Sáez Castán e Manuel Marsol
- NHAM, de Nuppita Pittman.

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