After Truth: o vírus das notícias falsas

Chega esta sexta-feira à HBO um documentário para pensar o grande desafio atual dos media. After Truth: Disinformation and the Cost of Fake News analisa casos graves de notícias falsas nos EUA e o jogo da desinformação.

Comecemos por um caso muito recente: Alex Jones, considerado o principal teórico da conspiração norte-americano, de extrema-direita, foi há poucos dias acusado de vender falsas curas para o novo coronavírus. Entre essas curas contava-se uma pasta de dentes que, segundo as palavras do próprio no seu programa de rádio, matava o vírus "à queima-roupa". Em tempos de pânico, a vulnerabilidade do público perante estes produtos e fórmulas milagrosas é imensa. Não é preciso ir mais longe, mesmo por cá os media têm tido uma luta diária para travar as informações falsas à volta do covid-19 que proliferam nas redes sociais.

É sobre este cenário, embora apresentando casos de maior dimensão, que nos fala o documentário After Truth: Disinformation and the Cost of Fake News, em português traduzido à letra, Depois da Verdade: Desinformação e o Custo das Notícias Falsas, a estrear nesta sexta-feira na HBO Portugal.

Naturalmente, o episódio do coronavírus não entra neste documentário realizado por Andrew Rossi. Mas Alex Jones sim. Ele e mais uns quantos famosos teóricos da conspiração - Jack Burkman, Jacob Wohl, Jerome R. Corsi - surgem aqui como rostos de um sistema de desinformação instalado nos Estados Unidos. Logo a começar, é Burkman quem lança a ideia de que as fake news são uma arma. E "arma" será porventura a palavra mais repetida nos vários discursos concentrados no filme, porque estamos quase sempre no plano do combate político.

Com efeito, o verão de 2015 é apontado pelos analistas como o momento em que se identificou algo de muito preocupante a acontecer no espaço da informação. O que despertou as atenções foi o anúncio da operação Jade Helm 15, exercício de treino militar em Bastrop, no Texas, que gerou uma onda conspiratória de que (entre outras coisas) o então Presidente Obama estaria a preparar os soldados para confiscar as armas à população, capturar opositores políticos e impor lei macial... Este é o primeiro exemplo dado em After Truth sobre a escala e o impacto da desinformação.

Mas logo depois temos o devastador caso Pizzagate, boato em torno do restaurante-pizzaria Comet Ping Pong, localizado em Washington, que se dizia ser a fachada de uma rede de pedofilia, e onde os crimes teriam lugar. Um boato que afirmava o envolvimento da candidata presidencial democrata Hillary Clinton e o seu diretor de campanha, John Podesta, nessa suposta rede de tráfico e abuso sexual de crianças, partindo de e-mails de Podesta divulgados no site WikiLeaks em que se referia uma campanha de fundos associada ao dono do restaurante, James Alefantis. Escusado será dizer que este é o capítulo mais pesado do documentário, mostrando as consequências, até psicológicas, que teve não só em Alefantis mas também nos seus empregados, a receberem constantemente mensagens violentas e ameaças de morte. Mesmo depois de desmentido o rumor, e já depois das eleições presidenciais, a pizzaria seria invadida por um homem armado com uma caçadeira que decidira investigar, em nome próprio, o que se escondia nas dispensas do restaurante... É este poder malévolo das fake news.

E os exemplos continuam, uns mais trágicos do que outros, com um sublinhado no papel das redes sociais, como o Facebook, ou o sentido que a expressão "fake news" tomou na era Trump: para o candidato, e depois Presidente, tornou-se sinónimo de todas as notícias (e jornais) que o critiquem. O seu principal objetivo? Voltar o público contra os media. Consequência? Instigação do ódio e reforço da propaganda.

Diz a certa altura a jornalista do The New York Times Elizabeth Williamson que vivemos numa cultura de pós-verdade, em que as pessoas não distinguem o que é verdade do que é mentira no universo online. Esse relativismo está na base de situações, no mínimo, absurdas, como as referidas. E é contra tal relativismo que se bate um documentário como After Truth, com um variado trabalho de entrevistas que põem em confronto a realidade (ou ausência dela) dos teóricos da conspiração e os jornalistas que todos os dias combatem aguerridamente a poluição informativa espalhada por eles. Aqui está um olhar necessário sobre os perigos da sociedade tecnológica, que não se esgota numa sequência de depoimentos com montagem mais ou menos enérgica, mas que procura captar todo o jogo performativo de quem, de modo airoso, planta a mentira e lucra com ela.

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