A segunda biografia de Salazar não é de um historiador português

Só existia uma biografia sobre Salazar, de Felipe Ribeiro de Meneses. Já tem 11 anos, foi publicada nos EUA primeiro, e os historiadores portugueses continuam com medo de escalpelizar o governante eterno. A nova obra é de Tom Gallagher. e intitula-se Salazar - O Ditador que se Recusava a Morrer. Inglês, não português.

A editora britânica C. Hurst acaba de pubicar a segunda biografia sobre Salazar. Também é Uma Biografia Política, como a do historiador português Filipe Ribeiro de Meneses, que lecciona em Dublim e lançou em 2009 as primeiras centenas de páginas sobre o ditador português. Antes, só Franco Nogueira fizera o mesmo, mas em vários volumes e em que a biogradia se confunde com a hagiografia, apesar de conter revelações que só a sua amizade com Salazar permitiu.

Gallhager não é um autor habitual sobre política portuguesa específica mas já tem no seu currículo o volume Portugal: A Twentieth-Century Interpretation (1983), e é um grande conhecedor da história ibérica, países que visita frequentemente, antes destacando-se na história política dos Balcãs, sobre a qual já publicou quatro livros. Desta vez, com o propósito de assinalar os 50 anos sobre a morte de Salazar, a 27 de julho de 1970, Tom Gallagher investigou o chefe de Estado português que, diz, morreu devido a um acidente doméstico: "Um anti-climax para um ditador".

A biografia intitula-se Salazar - O Ditador que se Recusava a Morrer (Salazar - The Dictator Who Refused to Die) e Tom Gallagher escreveu por se sentir atraído pela figura: "Tal como vários ditadores, Franco ou Mussolini, também Salazar atrai biógrafos." No caso português, acrescenta, "poucos", por ser "difícil retratá-lo". As razões são várias: "Era equilibrado no comportamento e assemelhava-se a uma figura fora do sistema, nunca tendo casado ou sido tocado por um escândalo na vida privada nem incidentes melodramáticos durante uma liderança de quase 40 anos, 36 deles como primeiro-ministro."

Para Tom Gallagher, 50 anos depois da morte, "Salazar mantém-se uma figura tão controversa como enigmática, cujo conservadorismo e um legado autoritário continua a dividir as opiniões. De um lado, os que consideram que o seu reacionarismo e opressão promoveram o atraso do país, do outro os que glorificam o seu patriotismo, honestidade e dedicação."

Esta biografia enumera os altos e baixos do salazarismo, desde a salvação das finanças até à resistência à descolonização, passando pelas políticas da II Guerra Mundial - com destaque para ter mantido Franco fora do conflito e da dependência de Hitler e Mussolini, dos posteriores conflitos com os EUA e a atuação durante a Guerra Fria.

Por tudo isso, Gallagher considera que a "vida complexa do governante merece ser muito mais bem estudada". É o que faz neste volume, o décimo quinto que já publicou. Tom Gallagher é professor emérito da Universidade de Bradford.

Ainda é desconhecida a editora que poderá traduzir o livro para português e quando, mas as críticas dos seus pares indiciam o interesse nesta biografia. É o caso do historiador Stanley Payne, autor de uma História de Espanha e Portugal: "A melhor introdução para a história portuguesa das décadas do meio do século XX." Ou do cientista político português, Bruno Maçães: "Salazar continua um mistério, até para os portugueses, mas este livro tenta decifrá-lo."

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