À procura do paraíso perdido em tom francês e municipal

As Maravilhas de Montfermeil apresenta-nos um pequeno e muito típico município francês em que a construção do paraíso é o principal objetivo político... Assumindo funções de intérprete, argumentista e realizadora, Jeanne Balibar procura a alegria tradicional do burlesco.

Na história temática do cinema francês, os cenários da "província" são assunto recorrente. Das comédias de Fernandel à obra de André Téchiné, passando pela referência tutelar de Jacques Tati, há toda uma tradição, mais ou menos romanesca, que mantém uma atenção regular ao que acontece para lá das histórias de Paris. Na tripla condição de atriz, argumentista e realizadora, aí está Jeanne Balibar a ilustrar a força simbólica dessa tradição: As Maravilhas de Montfermeil apresenta-se como o retrato sarcástico de um pequeno município em que a aposta na construção do paraíso se revela algo acidentada...

Em Montfermeil, as coisas não são, de facto, aquilo que parecem. Por um lado, a presidente, Emmanuelle Joly (Emmanuelle Béart), vive marcada por uma bizarra instabilidade emocional, tanto mais que uma das suas assistentes, Joëlle (Balibar, ela própria), tende a interromper os atos públicos com a promoção de exercícios de respiração e meditação para toda a assistência... Entretanto, algumas das medidas postas em prática para o bem-estar dos cidadãos nem sempre se adequam às atribulações do dia a dia. Entre tais medidas, há o ritual coletivo da sesta e ainda uma brigada de assistência sexual ao domicílio, vocacionada para ajudar os casais com alguns problemas, digamos, um pouco mais íntimos - acrescente-se que os dois membros de tal brigada não despertam muita confiança...

Enfim, estamos perante uma farsa recheada de situações burlescas que nos leva a recordar algumas referências clássicas da produção francesa, incluindo essa deliciosa comédia de Eric Rohmer que é A Árvore, o Presidente e a Videoteca (1993). Em qualquer caso, o trabalho de Balibar, por certo sugestivo pela sua "marginalidade" no atual panorama francês, possui as limitações próprias de uma narrativa que tende a funcionar como uma colagem de situações mais ou menos díspares, com desigual eficácia de encenação. Uma dessas situações, o divórcio de Joëlle e Kamel (Ramzy Bedia), apresentada logo no início como principal trunfo (melo)dramático, acaba mesmo secundarizada para apenas ser recuperada, de modo algo esquemático e previsível, nos minutos finais.

Fica a curiosa dimensão de sátira política, com Montfermeil a funcionar como microcosmo terno e paródico de uma França de muitas nacionalidades. Daí, aliás, o desenvolvimento de uma escola onde se estuda árabe, turco, alemão e todas as línguas faladas na comunidade de Montfermeil; simbolizando o seu papel universalista e a sua vocação solidária, a escola tem mesmo um nome... inglês: "Montfermeil Intensive School of Languages". Isto sem esquecer que Balibar possui esse gosto da teatralidade que a representação pode envolver, obviamente contaminando a performance de todo o seu elenco - destaque, por isso, para a presença breve de Bulle Ogier, grande senhora do cinema francês, indissociável da obra de Jacques Rivette, justamente um mestre das relações entre teatro e cinema.

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