A Netflix à caça do prestígio de San Sebastián

De um lado o sobrenatural amaneirado de Claudia Llosa, do outro a grande beleza de Sorrentino a filmar a sua cidade e adolescência.

Ao contrário de Cannes, San Sebastián, tal como Veneza, trata bem as plataformas. Anteontem a HBO esteve na sala de imprensa com talentos para apresentar as futuras séries espanholas e latinas. Ontem foi a vez de na competição oficial ter sido apresentado Distancia de Rescate, da mexicana Claudia Llosa, aposta forte da Netflix que pode chegar finalmente a uma Concha de Ouro e hoje é a vez de The Hand of God, o novo de Paolo Sorrentino, destaque grande na secção Pérolas, precisamente o filme italiano que a Netflix está apostar para dezembro e já a pensar no Óscar de filme estrangeiro.

O festival faz tudo isso de forma aberta e sem medo de críticas, acreditando que os pruridos de Cannes já não fazem sentido. E é bom lembrar que sábado está programado o tão esperado The Power of The Dog, de Jane Campion, outro dos filmes do gigante do streaming que também pode ser um ponta de lança na próxima temporada de prémios.

Quanto ao mexicano Distancia de Rescate (em estreia na plataforma já para o mês que vem) trata-se de um filme de terror espiritual no México rural quando uma jovem mãe espanhola e a sua filha são confrontadas com uma estranha possessão. Filmado com uma escala considerável e ambições psicotrópicas, parece sempre um objeto algo afetado nos seus maneirismos de luz e de narração em suposto flashback. Um daqueles exemplos de um caso de querer estar à frente do espectador de forma algo gratuita. Ainda assim, impossível ficar indiferente à sua capacidade de provocar perplexidade.

Quanto a The Hand of God (dezembro disponível globalmente), vindo de Veneza, é bem capaz de ser um dos melhores filmes de Sorrentino, aqui a filmar a sua juventude em Nápoles e a forma como Diego Armando Maradona cavou a sua pulsão para o cinema. Projeto íntimo que se torna também uma homenagem à sua cidade. É realmente qualquer coisa de muito afetuoso.

Um prazer visual que continua a conter os excessos de um cineasta sem medo de sonhar um cinema do grotesco com a curva da vénia a Fellini... Do sonho à prática vai um passo, mas o que há de melhor e grandioso em A Grande Beleza volta aqui a surgir de forma ainda mais afetuosa. E cai bem o gesto de amor explícito ao poder do futebol divino de Maradona, sobretudo agora que o génio já cá não está. Maradona é o símbolo de um sonho da grande beleza cinematográfica.

Entretanto, nessa sessão a abarrotar no Cinema Principal o festival pediu para a partir de agora ninguém sair nos créditos finais. "Há que respeitar os artistas do cinema" foi dito antes da sessão começar.

dnot@dn.pt

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