A moderna família italiana 

Foi um dos filmes da Festa do Cinema Italiano e é exemplo de comédia inteligente. Manual de Sobrevivência para Pais, de Giuseppe Bonito, faz uma crónica geracional através do nascimento de um segundo filho.

O leitor imagine que está a ver um bebé num grande berreiro, mas em vez do som do choro o que se ouve é a Sonata n.º 8 de Beethoven, a Patética. Ou imagine os pais do recém-nascido a discutir e a mãe, sem mais nem menos, a atirar-se pela janela aberta da sala, que está mesmo ali a jeito - é algo que acontece algumas vezes; nada de trágico. O pai é mais de desatar a correr assim que sai porta fora, como quem foge à exasperação doméstica. Estes são alguns dos apontamentos criativos, com um toque bizarro, de Manual de Sobrevivência para Pais, um filme capaz de fazer sentir a pulsação da Itália de hoje contando, por vezes de forma ácida, as agruras de uns pais, na casa dos quarenta, que aceitaram a aventura do segundo filho sem imaginar que só poderiam contar com eles próprios.

O quadro desta comédia é relativamente simples. Nicola (Valerio Mastandrea) e Sara (Paola Cortellesi) são um casal comum que vive, com uma filha de seis anos, num apartamento arrendado, suportando as despesas com empregos modestos: ele serve ao balcão de um pequeno restaurante, ela é inspetora sanitária de restaurantes... A chegada do novo elemento da família vai perturbar o conforto alcançado com a primeira criança. Acontece que às noites sem dormir e aos ciúmes da mais velha se junta o egoísmo redondo dos avós, que numa cena particularmente aguda, revelam a fotografia da atual sociedade italiana, grosso modo, um país cheio de regalias para os reformados, que são a fatia maior da população e não estão para se incomodar com netos à sua beira. A sátira torna-se ainda mais feroz do que se possa imaginar quando isto é pronunciado em dois monólogos torrenciais - um de Sara/Cortellesi, o outro da mãe - que fazem explodir uma verdade demasiado incómoda para se tratar no âmbito da aparente comédia ligeira.

São momentos como este que refletem a agudeza da escrita de Mattia Torre (1972-2019), o talentoso argumentista de Manual de Sobrevivência para Pais, que se baseou no seu próprio monólogo teatral, já então recitado por Valerio Mastandrea, para levar ao grande ecrã as dores da parentalidade em modo cáustico. Torre, que morreu aos 47 anos, após uma longa batalha contra o cancro, entregou ao seu assistente de realização, Giuseppe Bonito, a responsabilidade de passar para a tela uma crónica tão crua e pessoal quanto inventiva na abordagem da tragicomédia quotidiana dos pais de quarenta anos.

E Bonito soube, de facto, captar a Itália moderna sem recorrer aos malabarismos típicos da paródia, concedendo antes espaço a uma linguagem refrescante, original, que de vez em quando deixa entrar uma tonalidade dramática. Em todo o caso, é sobretudo pela ironia fina, pela distância crítica em que o espectador acaba por ficar posicionado através dos recursos estilísticos, que Manual de Sobrevivência para Pais cresce enquanto objeto raro dentro do género, na sua expressão contemporânea. Um filme inteligente, lúdico, acutilante nas pequenas coisas (para, no fundo, dar uma imagem estrutural), e com um traço de franqueza humana que desmonta qualquer noção apressada quanto à sua apresentação leve.

dnot@dn.pt

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