À descoberta da vida e dos outros, em Granada

Com uma portuguesa num elenco muito internacional, o realizador britânico de origem paquistanesa Abid Khan mergulha na vida multicultural dos estudantes de Erasmus. Fá-lo no filme Granada Nights, com estreia marcada para fevereiro.

Assume que se apaixonou pela terra de Lorca mal a conheceu. Abid Khan, britânico de origem paquistanesa, mal saíra da adolescência quando fez uma viagem pelo Sul da Europa e se rendeu ao apelo dum mundo muito diferente do que até aí fora o seu. Nos 15 anos que se seguiram acarinhou a ideia de transformar essa experiência quase iniciática num filme, o que acabou por conseguir, como demonstra Granada Nights, que tem a estreia no nosso país marcada para fevereiro.

Pelo caminho, foi levando atores de várias nacionalidades, entre os quais a portuguesa Laura Frederico, que interpreta o papel de Sílvia, uma das estudantes de Erasmus de passagem por Granada: "Foi uma experiência valiosa trabalhar com atores e com uma equipa completamente multicultural. É uma realidade que me diz muito, já que eu própria beneficiei muito de ter tido experiências formativas e profissionais fora de Portugal." Laura, que começou por se licenciar em Direito "para sossegar os pais", diz-nos, optou depois por prosseguir estudos nas áreas do Teatro e Cinema. "Participei em algumas curtas-metragens em Portugal, estive em Berlim durante três anos, onde fiz muita coisa, mas sobretudo Teatro, com a Blauhauch Company, uma companhia internacional e multidisciplinar inteiramente formada por mulheres". Mas do que mais gosta, admite, é "do trabalho de câmara", que o cinema e a televisão lhe proporcionam. Vimo-la recentemente num pequeno papel em Glória, a série de Tiago Guedes na Netflix, e em breve vê-la-emos no telefilme da RTP, Serpentina, para além, claro está, deste Granada Nights.

Este elenco internacional (para além de Laura Frederico, há que referir, entre outros, Antonio Aekeel, Oscar Casas, Quintessa Swindley e Alice Sanders) foi uma prioridade para Abid Khan, já que a história do seu filme é a de um rapaz britânico que tenta superar um desgosto amoroso numa viagem pelo Sul de Espanha e acaba por se sentir transportado para uma outra dimensão de convivialidade e partilha entre os estudantes de Erasmus, que se reúnem em Granada. "É uma mistura de comédia, de documentário - diz-nos o realizador - mas sobretudo é o relato de uma viagem de autodescoberta." Provavelmente não muito distante da que ele fez há 15 anos: "Apaixonei-me por Granada no princípio da minha vida adulta. Sentia-me um pouco sozinho na minha comunidade de origem em Londres, uma comunidade um pouco fechada sobre si mesmo, e aquela cidade conquistou-me. Em primeiro lugar porque a sua paisagem é muito bonita e o seu património histórico é muito importante, mas sobretudo porque aquele ambiente multicultural, aquela alegria, eram e são irresistíveis." Uma viagem que levaria Abid de regresso aos estudos e a não abdicar da ideia de fazer um filme sobre "a facilidade com que, neste ambiente, se estabelecem laços entre as pessoas, tão diferente do que eu conhecera."

Na verdade, admite o cineasta, a cidade andaluza, o maior destino de Erasmus do mundo... pelo menos até à pandemia nos trocar as voltas, é o verdadeiro protagonista do filme, no mesmo sentido em que Barcelona foi o tema do filme de Cédric Klapisch, O Albergue Espanhol. Mas ao contrário do fez o cineasta francês, Abid Khan não se foca apenas nas peripécias amorosas e existenciais dos universitários, põem-nos também em contacto com os outros estrangeiros de Granada, muitos deles imigrantes ou mesmo refugiados, gente em situação de extrema fragilidade. E o resultado dessa interação pode ser surpreendente.

Granada Nights estreou no Reino Unido em junho e rapidamente se tornou um sucesso de público, o que, segundo o jornal The Guardian, também se ficaria a dever "a uma certa nostalgia pós-Brexit pelos melhores anos do programa Erasmus." Satisfeito com a carreira nas salas, Abid não esquece também as sessões que tem vindo a promover em universidades, primeiro no seu país, e mais recentemente em Espanha, sobretudo na comunidade autónoma da Andaluzia: "Tem corrido muito bem. Acho que as pessoas estão muito saudosas daquilo que mostramos no filme e que é a liberdade do convívio e de celebrar a vida em conjunto." Depois desta sua primeira longa-metragem, Abid Khan, a quem os grandes movimentos humanos fascinam, está a trabalhar numa série sobre estudantes que vivem fora dos seus países de origem, mas também num filme sobre um tema que lhe é muito próximo, a vida dos imigrantes paquistaneses no Reino Unido.

dnot@dn.pt

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