90 anos de O Anjo Azul: o pecado nas coxas nuas de Miss Dietrich

Assinalam-se os 90 anos da estreia de O Anjo Azul, filme que revelou Marlene Dietrich e lhe deu passagem para Hollywood, onde formou com o realizador Josef von Sternberg uma das mais célebres duplas da história do cinema.

Foi sentado numa plateia a assistir à peça Duas Gravatas, de Georg Kaiser, que Josef von Sternberg deu pelo ar de uma jovem chamada Marlene Dietrich. Nessa peça alemã ela interpretava uma personagem norte-americana apenas com uma deixa, que se limitava a repetir: "Vamos, venha jantar comigo!" Curiosamente, tudo poderia ter começado em algo com a formalidade de um jantar, mas Sternberg, que nessa altura estava em vias de realizar o primeiro grande filme sonoro alemão, foi mais direto ao assunto; limitou-se a chamá-la para um screen test que ficaria marcado pela desenvolta performance de Marlene. A saber, uma expressão sedutora, de olhos arregalados, e uma voz que se fazia acompanhar pelas notas nervosas do pianista.

Assim foi o casting de Dietrich para O Anjo Azul(estreado em Berlim a 1 de abril de 1930), esse tal grande projeto de cinema sonoro produzido pelos estúdios da UFA, cujos executivos estavam longe de aceitar a ideia de se arriscar numa cara desconhecida do público. Porém, não tiveram outra alternativa: Sternberg ameaçou abandonar o projeto e voltar para os Estados Unidos, onde vivia, se Dietrich não ficasse com o papel da tentadora Lola-Lola. Com efeito, a presença deste austríaco na Alemanha ficou a dever-se a Emil Jannings, então uma estrela do cinema germânico que tinha passado há pouco por Hollywood e aí arrecadado um Óscar pelo filme em que fora dirigido por Sternberg - A Última Ordem (1928) - e, de regresso à sua terra natal, quis que fosse este cineasta a levar avante um projeto que tinha em mente...

Faça-se a ressalva de que Jannings não durara muito em Hollywood por causa do advento do cinema sonoro. Desta forma, quando pôs os pés na sua Alemanha, decidiu que queria fazer um filme sobre a vida de Rasputin, contando com a realização de Josef von Sternberg. Porém, como se vê, essa hipótese ficou na gaveta. Sternberg aceitou de facto o convite de trabalhar para os estúdios da UFA, mas ditou as suas próprias regras, desde logo, trocando Rasputin pelo Professor Unrath, um romance de Heinrich Mann que conta a história de um professor de literatura inglesa que, perdido de amores por uma cantora de cabaret, Lola-Lola, assina o tratado da sua própria degradação no momento em que se casa com ela. Como é evidente, esse professor, Immanuel Rath, foi interpretado por Emil Jannings que, um pouco à semelhança do personagem, acabou derrotado pela "maldição" de Marlene - o próprio autor do livro terá dito que o sucesso do filme iria assentar "nas coxas nuas de Miss Dietrich".

E a verdade é que Jannings, rebaixado na figura de um velho libidinoso caído em desgraça, não apreciou mesmo o facto de essa atriz anónima, à época, lhe ter roubado o protagonismo. Na sua autobiografia, Dietrich conta como ele não tinha problemas em mostrar que a odiava "do fundo do coração".

Animosidades à parte, O Anjo Azul revelou-se, definitivamente, o título do nascimento de Marlene Dietrich. Na memória coletiva ficou célebre a imagem dela sentada em cima de uma pipa, com as ligas à mostra e um chapéu alto, na sua performance musical de Ich bin von Kopf bis Fuß auf Liebe eingestellt ("Da cabeça aos pés, sou feita para o amor"). E foi também este o filme que lhe deu o passaporte para Hollywood, desde logo, porque tinha sido rodada, em simultâneo, uma versão falada em inglês. Não estava nos planos desta alemã deixar o país, é certo, mas acabou por seguir viagem e, ao contrário de Jannings, ter uma longa carreira americana.

Na lendária colaboração que se seguiu com Josef von Sternberg (um total de sete filmes juntos), carregada de fantasmas e obsessões, é o reflexo do próprio cineasta que vemos em praticamente todas as personagens masculinas que se cruzam com uma irresistível Dietrich no grande ecrã. Ou seja, não será preciso muito para se perceber que já estaria tudo na metáfora da perdição desse professor obcecado pela cantora de cabaret. E quando lhe perguntavam sobre a descoberta de Marlene Dietrich, ele, refugiando-se na pele do artista apenas interessado no valor da sua musa, respondia assim: "Eu não descobri Dietrich. Eu sou um professor e esta belíssima mulher chamou a atenção do professor. Ele moldou a sua aparência, destacou o seu charme, minimizou os seus defeitos, e deu-lhe a forma de um fenómeno afrodisíaco." Sem dúvida, fenómeno afrodisíaco é o termo.

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