7 Dias 7 Propostas por Joana Barrios

1. Série
La Veneno, HBO
Domingo, 7 de março

Veneno é uma curta série sobre uma das figuras mais controversas do star system espanhol dos anos 90, Cristina Ortiz Rodríguez, mais conhecida como La Veneno, ícone supremo LGBTQI+. Veneno é uma série dramática e violenta que convoca o espectador a sair de uma determinada ideia de conforto e normatividade vigentes que pouco ou nada são questionadas. Veneno alterna a sua narrativa entre tempos e espaços, entre glória e drama, entre belo e horrível. Pode por momentos ser um exercício de fantasia que se transforma em realidade crua. É implacável e dolorosa, pungente. Veneno é um retrato (porque há muitos) da época que lançou muitas das bases da visão/ideia de reality TV com que convivemos hoje.
É uma série que em todos os aspetos desafia o statu quo e por isso é um objeto de visualização essencial.

2.Documentário
Walter Mercados
Mucho Mucho Amor
Netflix
Segunda, 8 de março

Walter Mercados é uma figura apaixonante da cultura popular do século passado: nascido na localidade de Ponce, na pérola dos mares, como diria o escritor Jose Gautier Benítez, Walter desde cedo se revelou uma criança mística e criativa. Enveredou pelo mundo das artes performativas, mas é através dos seus poderes que conquista o mundo. Num momento improvisado, Walter começa a falar de astrologia na televisão, e esse momento inesperado torna-se o seu breakthrough. Walter fez o seu caminho de décadas envolto em capas exuberantes, espalhando uma mensagem de paz e amor que cativou, ao longo de sucessivas décadas, públicos por todas as partes do mundo. Uma estrela à escala planetária que de um momento para o outro desaparece quase sem deixar rasto. Um documentário surpreendente e maravilhoso, capaz de rasar os olhos de lágrimas, que cairão na gargalhada seguinte.

3. Livro
Jason Hickel
Degrowth
Penguin Random House, 2020
Terça, 9 de março

Cruzei-me com a obra/pensamento de Jason Hickel na breve intervenção que faz em Now! de Jim Rakete. Nessa intervenção, Hickel fala da necessidade de alterar as lógicas de produção como meio para atingir as metas previstas no Acordo de Paris. Hickel propõe uma nova visão radical sobre a ideia de economia em tempos de pós-capitalismo. Degrowth revisita a história mundial com o intuito de encontrar o fio da meada da estrutura capitalista e a sua implemen- tação enquanto sistema que, ao concentrar riqueza exercendo poder sobre recursos e bens comuns, empobrece, oprime e destrói o planeta. Hickel propõe uma visão transversal de todos os seres que habitam o planeta Terra, por exemplo, e imagina uma sociedade pós-crescimento económico. Degrowth é uma das propostas de leitura mais interessantes com que me cruzei nos últimos anos precisamente porque oferece respostas possíveis para a crise ecológica que nos afeta enquanto comunidade.

4.Podcast
Dito e Feito
Teatro do Bairro Alto
Quarta, 10 de março

O podcast do Teatro do Bairro Alto (TBA), curado por Ana Bigote Vieira, que se chama Dito e Feito, é um sítio a que acedo com frequência: escutar e pensar são duas atividades essenciais à minha felicidade, e este podcast é uma ótima forma de a desencadear. Este episódio específico, com André e. Teodósio e José Maria Vieira Mendes é uma conversa - reflexão sobre a experiência do Teatro Experimental. Uma conversa holística com dois dos criadores e pensadores essenciais no meu percurso. É uma reflexão sobre o teatro enquanto ciência da experiência. "[...] Se o teatro sobreviveu a tanta coisa horrível, talvez nos possa ensinar a sobreviver e viver melhor num mundo pior [...]", diz a dada altura José Maria Vieira Mendes. Dito e Feito tem online episódios com Diana Policarpo ou Cão Solteiro & André Godinho, por exemplo. Uma proposta de escuta ativa, de portal para novas visões, e tornou-se uma das minhas escutas favoritas.


5. Livros
Ana Goês
Convida-me Só Para Jantar
Quinta, 11 de março

Quem me ofereceu este livro foi o André e. Teodósio no nosso último almoço antes deste novo confinamento. Convida-me só para Jantar é uma edição de autor datada de 1977, o ano do punk, aquele género musical aparentemente simples e tosco que moldou grande parte do meu pensamento. Pouco ou nada se sabe sobre Ana Goês. O Google não sabe muita coisa. Aquilo que aqui escrevo, então, é o que acho que sei com base na sua obra (que se tornou uma obsessão, claro): poetisa, feminista, radical, revolucionária, irónica, carregada de sentido de humor. Sem dúvida uma das grandes maravilhas da minha estante.

6.Cozinhas
Espaço e Arquitectura
de Ana Marques Pereira
Edições Inapa, 2007
Sexta, 12 de março

O meu amor por cozinhas é do domínio público, por isso nomear apenas um objeto acerca deste universo é a parte em que se torna tudo muito difícil. A cozinha é para mim, na minha casa, e desde sempre, o espaço onde se desenrolam todas as ações do quotidiano, os exercícios do pensar e do fazer, a partilha, a festa, a aprendizagem, o relaxamento e o convívio. Neste livro, Ana Marques Pereira, hematologista, propõe-se a olhar para a cozinha enquanto espaço físico e arquitetónico e não apenas como espaço de confeção de refeições ou transformação de alimentos. Um levantamento vital da evolução do espaço da cozinha desde a Idade Média até aos nossos dias, aliado ao registo da evolução das necessidades dos seus utilizadores e da evolução social e desenvolvimento da alimentação através dos séculos. No momento em que vivemos é muito interessante encetar esta leitura e pensar a cozinha para além da sua função primária; esta é a visão que este livro oferece a quem decidir lê-lo.

7.Salsa
Marc Anthony
Vivir La Vida, 2004
Sábado, 13 de março

Marc Anthony é uma das figuras mais importantes da salsa de todos os tempos, muito pela performance dos seus álbuns e singles, com versões em espanhol e inglês, que somam recordes de vendas a dois fôlegos desde o início dos anos 90, quando se separou de Little Louie Vega (Masters at Work) e iniciou a sua carreira a solo. Ainda assim, Anthony é um ilustre desconhecido nas antenas portuguesas. Quando falo dele e de como adoro a sua obra, associam-no a imagens de excessiva teatralidade, a amores de faca e alguidar e sofrimentos que caíram em desuso, a uma ideia de passado que não transitou para este estar a ser depurado do hoje. Acontece que Marc Anthony e a sua obra, naturalmente, carregam em si legados preciosos, como o de Tito Puente, Hector Lavoe ou Willie Cólon. Este álbum é uma celebração do início ao fim e merece ser escutado com atenção, mais que não seja para, em jeito de charada, encontrarem este verso belíssimo amor: "En un peso va el alma."

Escolhas de Joana Barrios, atriz, apresentadora, figurinista e blogger.

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