4 x Hong Sang-soo: aqui há gato

À boleia do mais recente A Mulher Que Fugiu, estreiam-se em sala outros três filmes do sul-coreano Hong Sang-soo. Um programa feito à medida para saborear as subtis variações deste cinema.

Num dos momentos que tem vindo a ser muito comentado do novo filme de Hong Sang-soo - desde a apresentação no Festival de Berlim, de onde saiu com o Urso de Prata de melhor realizador -, um gato boceja como se presenteasse o súbito efeito zoom da lente do sul-coreano com um instante decisivo, acrescentando razão de ser ao "tique" autoral da câmara. Nesses breves segundos de A Mulher Que Fugiu, já dignos de figurar numa antologia, o bichano limita-se a ficar quieto e a abrir as mandíbulas ao máximo num gesto felino que condensa todo o sentido do acaso, de resto, muito característico do cinema de Sang-soo, feito de coincidências, de repetições e do que não é repetível. Ele estava ali a assistir, com um ar pachorrento e um certo desprezo, ao episódio caricato que punha a sua condição de vida em causa: um homem queixava-se à vizinha que o alimenta de que não o devia fazer por ser um gato de rua, e porque a sua esposa, na presença dos "ladrõezecos" (como lhes chama), tem medo de ir ao pátio.

É uma situação aparentemente banal, sim. Mas nas leis desta trivialidade está o cómico jogo de forças que define qualquer filme de Sang-soo, a saber, o confronto masculino/feminino, mais ou menos suave, que coloca a mulher numa postura de dominância - não arrogante - face ao homem; este, não poucas vezes desajeitado e cobarde, sobretudo no campo amoroso.

No caso de A Mulher Que Fugiu, a protagonista (Kim Min-hee, companheira e musa de Sang-soo) é alguém que aproveita a ausência do marido, em viagem de trabalho, para visitar três amigas. E a estrutura do filme, em três andamentos, ergue-se no minimalismo espantoso das conversas, sempre interrompidas a certa altura por um irritante elemento masculino - como aquele que tocou à campainha para protestar sobre os gatos vadios. Por entre os diálogos simples há uma corrente emocional quase impercetível, e é na última parte que se sente a sua subtilíssima gravidade melancólica.

Ver A Mulher Que Fugiu ao lado de mais três filmes de Hong Sang-soo agora distribuídos pela Midas - Mulher na Praia (2006), O Filme de Oki (2010) e O Dia em Que Ele Chega (2011) - é perceber, dentro da orgânica de rimas e nuances, um particular despojamento e um foco feminino que nestes anteriores estava disfarçado no protagonismo masculino, invariavelmente com um personagem principal que é realizador e aprecia doses pouco moderadas de licor de arroz. Na essência de Mulher na Praia encontra-se a mesma deliciosa divagação do "homem coreano" de O Dia em Que Ele Chega. Por sua vez, em O Filme de Oki a autorreflexão está nas palavras do realizador embriagado: "O meu cinema assemelha-se ao processo de conhecer pessoas, mas é menos complicado do que as pessoas. Conhecemos alguém e ficamos com uma impressão, fazendo um juízo baseado nessa impressão. Mas no dia seguinte, voltando a ver essa pessoa, não poderá dar-se o caso de notarmos aspetos distintos e ajuizarmos a partir deles?" Está tudo aqui. Por outras palavras: é um prazer descobrir cada filme de Sang-soo como um corte de cabelo novo na mesma cara redonda.

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