A 'fusão' de Shostakovitch e Mozart no CCB

O DSCH-Shostakovich Ensemble faz amanhã, às 21.00, no CCB concerto de lançamento de edição discográfica internacional dedicada à música de câmara para piano e cordas do compositor russo Dmitri Shostakovitch.

O DSCH-Shostakovich Ensemble regressa esta terça-feira ao local onde tudo começou. É que foi justamente no CCB onde, em dezembro de 2016, cinco músicos e uma técnica de som se reuniram para as sessões de gravação que forneceram a matéria-prima ao CD recentemente editado. Agora, três desses músicos voltam a reunir-se para um concerto oficial de lançamento em Portugal da edição discográfica com o primeiro registo mundial em formato integral da música de câmara para piano e cordas de Dmitri Shostakovitch (1906-75), autor que é, a par de Igor Stravinsky, o mais importante compositor russo do século XX.

O recital desta 3.ª feira sucede em três dias a um outro, com o mesmo propósito, ocorrido nos Invalides, em Paris (o lançamento do CD em França ocorreu no final de outubro), sobre o qual Filipe nos conta que "o concerto estava praticamente esgotado, mas as severas limitações impostas pelas autoridades no centro de Paris, devido às manifestações dos "coletes amarelos", acabaram por desmobilizar uma parcela do público. Mas mesmo assim correu muito bem." Foi o culminar de quase uma semana passada na capital francesa, durante a qual, conta-nos, "fui entrevistado pela rádio France Musique e também estive no programa "Carrefour de Lodéon", que tem bastante audiência." De resto, diz, "já tenho visto o nosso CD nos escaparates de discotecas aqui de Paris." Para muito em breve, anuncia-se já um prémio (francês), que o próprio pianista desconhece qual é: "Apenas me disseram que íamos receber um prémio e que mais não podiam divulgar!"

As ações de promoção têm lugar em França e Portugal, mas os ecos da gravação levarão o DSCH mais longe: "No 2.º semestre de 2019 iremos aos Estados Unidos e à Austrália e também há boas possibilidades de irmos à Rússia - Moscovo e São Petersburgo - e à Polónia - Varsóvia."

Sobre o "objecto" em si, Filipe Pinto Ribeiro confessa que esta "era a gravação que queria há muitos anos fazer, por todas as razões, a começar pelo próprio nome que escolhi para o agrupamento. Foi um grande esforço a tentar viabilizá-la e a contornar dificuldades". A escolha das obras prendeu-se com o facto de "formarem um todo coerente e lógico, além de serem obras de per si muito apelativas." Razão por que, continua, sempre estranhei que nunca tivesse sido feita."

À parte as dificuldades materiais, havia ainda outras, mas essas artísticas: "Sempre se me colocou a pergunta: "Que músicos juntar para este projeto?"" E esse "nó górdio" precisava de responder a várias questões para poder ser desatado: "Tinha que ser a formação mais estimulante em função das obras e que gerasse parcerias elas próprias capazes de crescer no trabalho sobre as obras. Mas também tinham de ser músicos com afinidades desenvolvidas em projetos anteriores. E era preciso que fossem músicos com personalidades solísticas (para as sonatas em duo) e ao mesmo tempo com vasta experiência de música de câmara (para os trios e quinteto), de modo a perfazer um todo coerente." A fórmula que a tudo isso respondia, crê Filipe tê-la finalmente achado. E assim nasceu este CD, que já está à venda entre nós.

Protagonistas deste "concerto de lançamento" são, além de Filipe Pinto-Ribeiro (n. 1975), o violinista canadiano Corey Cerovsek (n. 1972) e o violoncelista britânico Adrian Brendel (n. 1976), filho do grande pianista Alfred Brendel.

Do programa constam, além de três obras incluídas no CD (os dois Trios e a Sonata para violoncelo - ver abaixo), também duas peças de Mozart: uma Sonata para violino e piano (a KV304, em mi m) e o Trio com piano em dó M, KV548.

O concerto terá comentários do próprio Filipe Pinto-Ribeiro e haverá a seguir uma sessão de autógrafos.

Este duplo CD é uma edição da etiqueta francesa Paraty, com distribuição mundial assegurada pelo prestigiado "selo" harmonia mundi, e contém um total de sete obras, a saber: as três sonatas para instrumento de corda e piano, os dois trios com piano, o quinteto com piano e uma peça isolada. Intérprete fora, além dos três músicos do concerto desta 3.ª feira, também a violetista alemã Isabel Charisius e a violinista galesa Cerys Jones.

Trata-se de um conjunto de obras que abarca a totalidade da vida criativa do compositor russo, desde o muito juvenil "1.º Trio com piano", escrito na altura em que fez 17 anos como expressão da sua paixão por uma rapariga que conhecera durante uma estada na Crimeia, até à "Sonata para viola e piano, op. 147", a sua última obra, escrita em junho/julho de 1975, um mês apenas antes de falecer. Pelo meio, passamos (em ordem cronológica) pela "Sonata para violoncelo e piano" (1934), pelo "Quinteto com piano" (1940), pelo "Trio com piano n.º 2" (1943-44) e pela "Sonata para violino e piano" (1968); e, escrito algures na década de 30, o "Moderato", um andamento isolado para violoncelo e piano. Temos assim representadas a fase juvenil (coincidente com a fase inicial, mais "liberal", da Rússia soviética), a fase média (balizada pela complicada relação de Shostakovitch com o estalinismo e pela experiência avassaladora da II Guerra Mundial) e a fase tardia da sua produção, esta marcada por uma gradual depuração e "libertação" da sua escrita.

Para lá do formato físico, o duplo CD já está disponível nas plataformas digitais mais correntes, incluindo iTunes e Spotify.

DSCH-Schostakovich Ensemble

Obras de Shostakovitch e Mozart

Pequeno Auditório CCB, terça-feira, 21.00

bilhetes a 15€ e a 17,50€

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