Exclusivo Dos teares para os primórdios da computação, os cartões perfurados aceleraram o mundo

No início do século XIX, a indústria têxtil beneficiou da invenção do francês Joseph Marie Jacquard. Cartões perfurados, tratados mecanicamente, libertaram os teares de operadores humanos. Um século depois, cartões análogos aceleraram as contagens dos censos nos Estados Unidos e, mais tarde, noutros territórios.

Arthur Dune Cartwright-Chickering não apresentava qualquer traço ou comportamento que o diferenciasse da multidão de colegas na empresa onde trabalhava, a United Metal. Cumpridor, pontual, desenvolvia a sua atividade no departamento de marketing. Atenta às maravilhas que o futuro lhe entregava, a corporação mecanizou os seus processos internos. Arthur passou a ser um nome inscrito num cartão perfurado. Os dados pessoais de Cartwright-Chickering migravam dos arquivos em papel da empresa para um pedaço de cartão rígido com dados digitais representados pela presença ou ausência de furos em posições predefinidas. Se uma localização específica do furo indicasse estado civil, então um furo assinalaria casado e a ausência do furo, solteiro. Na empresa de Arthur os dados de todo o pessoal passavam a ser tratados mecanicamente. Muitos de cada vez, o que economizava tempo e esforço e muitas dores de cabeça. O mesmo não o podia dizer o laborioso funcionário. O computador Randolf Datatronic fora programado para tratar até 20 letras no campo do apelido. O hífen no apelido Cartwright-Chickering alongava-se às 21 letras. Para Arthur, protagonista da distopia futurista do livro The Man Whose Name Wouldn"t Fit, começavam os problemas.

Em 1968, Theodore Tyler, pseudónimo de Edward William Zigler, enredou a personagem da sua obra num conflito homem/máquina/corporação. Para a companhia afigurava-se mais fácil deixar de pagar a alguém cujo nome superava a capacidade de processar do novo computador, a reprogramar o mesmo. Arthur, demitido, lançou-se num rebuliço trágico-cómico, numa contenda que envolveu conspirações, sabotagens e ataques com fungos.
Embora se mova no campo da ficção, a obra de Theodore Tyler inspirou-se numa tecnologia, a dos cartões perfurados que, mais de um século antes dos anos de 1960, significou a massificação e aceleração de processos na indústria e o tratamento de enormes quantidades de dados. Dois homens, apartados pela geografia, um francês, outro norte-americano, e por mais de oito décadas, urdiram a leitura de cartões perfurados à mecanização. O francês Joseph Marie Jacquard, nascido em 1752, esteve para a mecanização da tecelagem, como o norte-americano Herman Hollerith, nado em 1860, esteve para o avanço dos censos no seu país de origem.

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