Os moradores pedem mais polícia nas ruas desertas à volta do Martim Moniz.

Lisboa

Roubos, agressões, droga. Moradores da Mouraria vivem com medo

Quem nasceu e vive na Mouraria garante que o bairro está a mudar. Os mais velhos ficam em casa com medo, os jovens têm de ser acompanhados à escola. Dizem-se desprotegidos e pedem, numa petição, mais vigilância ao governo.

Maria contrai os músculos da cara, arregala os olhos e cerra a boca. Como se o enfrentasse de novo. "Ainda na sexta-feira, estava à espera do meu neto para o levar para a escola, às 08.00, e vejo um desses que andam a roubar. Ele estava a olhar para dois miúdos no multibanco. Percebi logo. Pus-me a olhar para ele e chamei-o: anda cá. E ele fugiu. Já me conhece, sabe que eu sei quem ele é", declara prontamente Maria (de 58 anos), que mora na Mouraria desde sempre.

Fala em agressões, em ameaças, roubos, prostituição e aumento do consumo de drogas, principalmente na Rua da Mouraria e da saída do metro do Martim Moniz até à Rua dos Cavaleiros, durante a noite e a madrugada. Refere-se ainda a outras ruas, mais interiores e estreitas, que ensaiam a forma de becos, onde não passa tanta gente, mesmo de dia. A exceção ainda são os turistas, que vão descobrindo novos fascínios em frente às paredes pintadas com retratos de Amália Rodrigues. Já os moradores mais velhos deixam-se ficar por casa e os mais novos não podem andar sozinhos, explica Maria. Tal como está na petição "Pela segurança do bairro da Mouraria", que os moradores decidiram fazer para pedir ao ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, mais atenção ao que se passa no bairro lisboeta. Entregaram-na nesta quarta-feira no ministério às 12.00 com o apoio da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior.

"Vive-se, diariamente, um clima de medo, justificado tanto pela presença de elementos ameaçadores e desestabilizadores como pelo conhecimento de tantos casos de violência. A população não se sente segura para sair livremente de casa ou do trabalho e fazer as suas atividades diárias com normalidade", explicam os moradores, na petição. "Não se pode ter a roupa estendida. Roubam-me a roupa, durante o dia", acrescenta, como exemplo, Maria. Vive com uma das suas netas, de 18 anos, que leva até ao metro de manhã para garantir que a jovem chega em segurança à escola. "Vou todos os dias às 06.25, porque eles ainda estão por aqui."

André Sousa, de 28 anos, apanha o mesmo transporte, quando faz o primeiro turno como segurança noutra estação de metro e as queixas são idênticas. Dizem que estas situações são quase diárias e que foram incentivadas pelo encerramento da 6.ª Esquadra da PSP, em 2014. Sem policiamento, a prostituição também aumentou, transferiu-se do bairro do Intendente, e, em muitos casos, esta é um disfarce para um esquema de assalto, contam Maria e André, que apontam nomes, caras, etnias e o local onde para cada uma destas pessoas, que não pertencem ao bairro, garantem. Confessam que já não chamam a polícia com tanta frequência, porque "não mudava nada e demoram sempre muito tempo a chegar, quando vêm".

Numas ruas mais à frente fica a associação Renovar a Mouraria, que trabalha na reabilitação do bairro tentando manter o seu espírito vivo. Não ouviram falar na onda de assaltos, não mais do que o habitual e motivado pelo aumento do turismo, ou seja, do número de pessoas que frequentam o bairro, já na sua génese muito diverso, com uma grande mistura de etnias. No entanto, em relação às drogas, "deparamo-nos com o aumento do consumo a céu aberto", diz uma das responsáveis pela associação. Seringas no chão, compra e venda de estupefacientes, refere.

Mais polícias, pedem

O presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, Miguel Coelho, eleito pelo Partido Socialista, apoia a iniciativa, porque tem "consciência de que há um problema em parte do território da Mouraria, uma vez que se registam quase diariamente situações de assaltos violentos e as pessoas andam alarmadas", indica ao DN. Por isso, juntou-se aos proponentes e foi até à porta do Ministério da Administração Interna para dar força às palavras do seu eleitorado.

Miguel Coelho considera que o encerramento da 6.ª Esquadra "foi um erro" e diz ter "solicitado mais policiamento para esta zona", mas respondem-lhe com a falta de recursos humanos.

Na petição, os moradores concretizam as suas exigências: querem "o reforço do policiamento de proximidade a pé diurno e noturno, não só nas zonas limites mas dentro das artérias do bairro". Pedem ainda urgência na resolução deste problema "aplicando as medidas necessárias para assegurar à comunidade a tranquilidade e segurança essenciais para o bem-estar de cada cidadão". As premissas não andam muito longe daquilo que, em 2017, os moradores do bairro do Intendente pediam, também num abaixo-assinado sobre o excesso de droga e prostituição, que viram ser debatido numa reunião da Câmara Municipal de Lisboa.

Nascidos e criados na Mouraria

Trinta anos separam Maria e André. Pertencem a duas gerações diferentes e olham para o bairro com essas diferenças, mas a ideia da vida partilhada com os vizinhos não se altera com a idade. A ideia de bairro. A rua, as festas, as conversas e até o fado. Maria, que vive num rés-do-chão baixo, deixava as portas e as janelas abertas, até para ir ao café. "Podia ir de férias e deixar a casa aberta", exagera. E Mário brincava na rua e por ali andava sozinho, vigiado ora por um vizinho ora por outro.

Mas se é para falar sobre amor à Mouraria, até as reservas de António (de 72 anos), que tem estado a ouvir a conversa junto à porta da Casa-Museu Fernando Maurício, são postas de lado. Aproxima-se para dizer que também ele ali nasceu, que a mãe deu à luz 21 filhos, poucos lotes à frente, que aqui cresceu e nunca se foi embora. "Somos daqui. Como o Fernando", aponta António. Fernando é Fernando Maurício - o "rei do Fado da Mouraria". É na casa dele que nos encontramos, numa sala que homenageia uma vida dedicada ao fado a partir do bairro lisboeta, e onde todas as paredes têm declarações de amor à Mouraria, através dos poemas cantados do "rei":

"Se o destino está marcado
E só por ele vivemos,
O bairro onde nascemos,
Também lhe anda ligado;
Não me sinto malfadado,
Nem maldigo a condição,
Que desde o berço é razão,
Desta minha nostalgia,
Eu nasci na Mouraria,
Na Rua do Capelão."

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG