Oeiras: de praias malditas à bandeira azul

As praias de Santo Amaro e da Torre serão, a partir de 1 de junho, as primeiras concessões do concelho de Oeiras a ostentarem a bandeira azul. Com qualidade de água "excelente", areais limpos, bons equipamentos e acessibilidades e uma crescente procura por portugueses e estrangeiros, são um raro exemplo de transformação do património natural para melhor.

O dia não convida propriamente a mergulhos e, na praia de Santo Amaro, em Oeiras, o movimento que existe deve-se sobretudo aos muitos trabalhadores que preparam o arranque oficial da época balnear, este sábado naquele concelho. Há bombeiros que assentam grandes postes de madeira na areia, onde ficarão os toldos de lona, técnicos do Instituto de Socorros a Náufragos que preparam todos os equipamentos e sinalizações na zona do nadador-salvador e um oficial da capitania do Porto de Lisboa que supervisiona todo o processo.

Sentadas no areal, a alguma distância da azáfama a que se assiste perto da concessão de praia, as irmãs Alexandra e Andreia Guimarães só não são as únicas utentes da praia naquele momento porque há outra mulher, sentada um pouco mais adiante, que lê um livro em frente ao mar.

"Já fui ao banho. Estava um bocadinho fria mas soube bem", dispara Alexandra, 17 anos, a mais nova das duas, assim que lhe explicamos o motivo da reportagem de praia, numa altura em que o mini Verão de maio de há uns dias já se mudou para outras paragens. Estamos ali porque, a partir de 1 de junho, aquela praia, bem como a vizinha Praia da Torre, terá direito a uma distinção inédita na história do concelho de Oeiras. E que, há uma ou duas décadas atrás pareceria uma ideia tão estapafúrdia que poucos acreditariam nela. Uma bandeira azul, símbolo máximo de qualidade.

"Parece que esta praia me chama"

Para Alexandra não faz muita diferença. Há muito tempo que se deixou conquistar por aquela baía de areia clara e águas calmas, de onde se avista todo o estuário do Tejo, de Alcochete à Costa da Caparica. "Não sei explicar muito bem porquê mas parece que esta praia me chama", conta. "A vista é boa, a localização também, mas não sei explicar porque gosto tanto dela".

"Chegar aqui é fácil, de comboio. Hoje viemos de comboio", acrescenta Andreia, 20 anos. "Depois temos tudo aqui perto. Há restaurantes perto, cafés, o que ajuda muito também". É um bom ponto de encontro? "Sem dúvida. Estamos à espera de um grupo de amigos, que vêm aqui ter connosco depois das aulas".

Lisboetas, Andreia e Alexandra habituaram-se desde pequenas a fazerem com a família a viagem de comboio até às praias da linha. Agora mantêm a tradição. Vêm o ano inteiro. E no Verão nem lhes passa pela cabeça ir para outras paragens. "O Algarve já está muito cheio", diz a mais velha.

No paredão, um grupo de rapazes e raparigas, entre os catorze e os quinze anos, todos alunos do Externato de São José, também aproveitam um furo no horário para um passeio. "Tem menos lixo agora, mais condições", conta Guilherme. "E a água do mar também. Está muito melhor", acrescenta Martim".

Sérgio Alexandre Vieira concorda. Criado com os pés na areia, "numa família que se dedica desde há muito à gestão de concessões de praia", aprendeu o negócio na Costa de Caparica, onde os pais têm vários negócios semelhantes. Agora é o gerente do restaurante de praia Yellow Beach, explorado desde há três anos pela sua família, a par de outras concessões no concelho.

"O objetivo da aposta nestas praias foi a vontade de estarmos presentes numa zona mais próxima de Lisboa e do fluxo turístico que esta tem", assume. E não estão nada arrependidos, acrescenta. Pelo contrário: o objetivo, que está em discussão com a autarquia, é aumentar a área da concessão que - apesar das melhorias estéticas promovidas nos últimos anos - , continua a ser apenas um pequeno apoio de praia. "Neste momento, para a procura que existe, já se justifica outro tipo de oferta", defende.

"Quando vêm, as pessoas ficam convencidas. E voltam"

A praia, conta, tem "movimento no ano inteiro". Mas nos dias bons, como os que tivemos no final da semana passada, "fica lotada, com milhares de pessoas". Os utentes, além dos locais, incluem "muitos turistas estrangeiros, mas também portugueses de outros concelhos". Nomeadamente lisboetas. "Há muita gente que tem acompanhado as notícias sobre as praias do concelho de Oeiras. E mesmo que ainda tenham uma memória diferente destas praias, decidem vir ver por elas mesmas. E quando vêm ficam convencidas e voltam. Porque em termos de segurança, de limpeza, de qualidade da água, foi feito um esforço que leva a que as pessoas se sintam confortáveis aqui".

O oficial da capitania não quer fazer declarações, por uma questão de respeito pelas hierarquias, mas confirma ao DN a clara evolução da qualidade da água do mar, que atribui não só ao esforço das câmaras municipais mas também ao fim da atividade de algumas indústrias que operavam junto ao Tejo. Uma das maiores provas desse facto é a cada vez mais recorrente visita de outro tipo de utentes: os golfinhos, que já se começam a tornar visitas regulares, aventurando-se até ao Alfeite.

De praias não concessionadas a "qualidade excelente"

Para a Câmara Municipal de Oeiras, as duas bandeiras azuis do concelho são a validação de um longo percurso: "vem reconhecer um trabalho de quase duas décadas, quer na orla marítima quer na sua rede hidrográfica, que influenciou fortemente a qualidade das águas balneares", defende a autarquia numa resposta escrita enviada ao DN, lembrando que " a atribuição da Bandeira Azul assenta no reconhecimento por um júri com mais de 25 entidades públicas e privadas" do esforço que foi feito.

Um processo que começou com metas bem mais modestas, como o simples reconhecimento oficial daquelas zonas balneares, condição indispensável para, por exemplo, ter concessões e vigilância. Durante muito tempo, as praias de Oeiras nem sequer eram oficialmente...praias. "No que diz respeito a Oeiras a primeira designação oficial aconteceu em 2006 com a Praia da Torre, sucedendo-se, em 2012, as praias de Santo Amaro, Paço de Arcos e Caxias", explica a câmara. "A classificação de uma água balnear necessita de um histórico mínimo de 4 anos pelo que no caso de Oeiras não seria possível obter este tipo de reconhecimento muito mais cedo".

O objetivo será não só manter o estatuto de excelência agora alcançado por Santo Amaro e pela Torre como, se possível, vê-lo alargado às restantes praias. Até porque, defende o município, a qualidade já está presente: "O galardão avalia 5 itens principais. No entanto, a qualidade da água balnear é fator eliminatório. Em 2019 orgulhamo-nos de ter todas as nossas águas balneares com qualidade excelente".

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