Príncipe Aga Khan em Portugal. O que é ser ismaelita?

São 15 milhões de pessoas no mundo e quando se lhes pergunta o que é ser ismaelita o verbo "servir" é o primeiro que aparece. São 8 a 10 mil em Portugal e há quem estude em colégios católicos

Do Parque das Nações, onde se realiza o encerramento das celebrações dos 60 anos de Aga Khan à frente dos ismaelitas, a uma escola secundária onde um Ilyan, Zahur, Amin e Shenza vieram fazer voluntariado, "servir" é o que mais se ouve quando se pergunta o que é pertencer a este ramo minoritário do já minoritário xiismo dentro do Islão. São 15 milhões de pessoas, que vagas sucessivas de emigração espalharam pelo mundo.

"Todos os ismaelitas têm uma grande ética de serviço, está no nosso ADN", diz Amin Mavani, 60 anos, a viver em Portugal há quatro. Foi essa ética que o levou a passar a manhã de sexta-feira a pintar um dos edifícios da escola EB 2,3 da Alta de Lisboa, com um programa da Fundação Aga Khan. É o retrato perfeito da diáspora recente desta comunidade.

Tanto quando a história familiar lhe permite saber, as suas origens estão na Índia, de onde duas irmãs emigraram para África. A avó de Amin para o Quénia; a tia para Moçambique. Nos anos 70, voltam a emigrar. A sua família para o Canadá, os primos para Portugal. Ele viveu em Londres até se mudar para Lisboa, onde tem um alojamento local. "Eu sei, não é exatamente o negócio mais popular do momento", ri-se.

Numa escola de Lisboa

Foi através da Fundação Aga Khan Portugal que este grupo de ismaelitas chegou à EB 2,3 da Alta de Lisboa, uma escola de 1986, com 1250 alunos, 72% deles no escalão dos rendimentos mais baixos. É Nádia Sacoor que recebe o DN à porta, pedindo desculpa pelas mãos pintadas, no seu português com sotaque.

O passaporte diz que é do Reino Unido, vive em Portugal há 10 anos. Trabalha em projetos de desenvolvimento comunitário urbano. "Pluralismo" é a palavra-chave, diz esta ismaelita de 40 anos.

Como tudo começou? "No útero", responde Nádia. De uma mistura improvável de ismaelitas de origem indiana, moçambicana, siciliana. Aos 15 anos, pediu aos pais para fazer voluntariado em prisões. E fez.

Depois de 10 anos a trabalhar a tempo inteiro, mas com o voluntariado na cabeça, aos 28, uma pergunta disparou uma mudança: O que sabes fazer? "Sei falar três línguas, cozinhar, adapto-me bem a outros sítios, sei o que é ser desenraizado, porque a minha família foi desenraizada".

Recomendaram-lhe que fosse ensinar e Nádia foi estudar outra vez para ensinar inglês. A lista de locais por onde passou é longa. Uganda, Tanzânia, Espanha... Começou a fazer voluntariado em Portugal, junto da comunidade, depois com a Fundação. Até que este se tornou o seu trabalho a tempo inteiro. O seu projeto de escola intercultural passou de localizado, na Amadora, a nacional e em parceria com a Direção Geral de Educação.

Ismaelita entre católicos

Em Portugal, os números da comunidade ismaelita dizem que serão entre 8 a 10 mil. Entre eles, Ilyan Habibo, 15 anos e a caminho do 11.º ano, que também veio pintar a escola e tem participado em outras atividades da Fundação Aga Khan. O voluntariado vem pelo lado ismaelita mas também escolar, onde "conta para a nota".

Este ano, Ilyan era o único ismaelita da sua escola, mas já teve outros colegas. A surpresa é que frequenta o Planalto, um colégio católico. "Para abrir os meus horizontes, como os meus pais diriam".

Os colegas têm curiosidade em relação à religião dele, Ilyan em relação à deles. "Às vezes, vou assistir [a eventos católicos], e gosto de saber as bases da religião, relacionadas com a ética e a história". "Quando os meus colegas rezam, eu também", diz. Cada um à sua maneira. E quando não pode atender os compromissos religiosos ismaelitas procura compensar. Celebrar o jubileu de diamante de Aga Khan "é importante para desenvolver a fé".

Celebrar os 60 anos do imam

"Ética de serviço", é assim que o canadiano Zahur Karim, 45 anos, resume o que é ser ismaelita, para lá das orações, da proibição de beber álcool e comer carne de porco ou dos encontros religiosos, como aquele que acontece até dia 11 de julho no Parque das Nações, erguido também à custa do trabalho voluntário.

FIL, Altice Arena e Pavilhão de Portugal estão reservados à comunidade - são esperadas cerca de 45 mil pessoas - para exposições, concertos e cerimónias religiosas. A mais importante acontece no dia 11, com a presença do chefe dos chefes, Aga Khan, que chegou na sexta-feira a Lisboa e foi recebido por centenas de pessoas no Parque Eduardo VII.

Dar tempo e conhecimento a Aga Khan

Nas comemorações do jubileu de diamante, os 60 anos como líder, como nas comemorações de há uma década, Aga Khan reforçou dois aspetos da tradição ismaelita. "Submeter ao imam do momento uma Nazrana (oferenda), como um gesto de amor e homenagem, e oferecer a capacidade intelectual para ajudar os esforços do Imamat para o progresso do Jamat e das comunidades onde o Jamat vive." A ideia tem nome (e um site): Time & Knowledge Nazrana.

"É um aspeto religioso", diz Zahur Karim, enfatizando o "religioso". "A pessoa leva os seus conhecimentos específicos para um lugar onde é necessário". Quem quiser pode inscrever-se, e desta vez o conceito abriu-se a todos os membros da comunidade. Crianças de 10 anos podem ensinar os outros a tocar piano, diz, em jeito de exemplo. Depois, cada pessoa pode ser recrutada para prestar serviços em determinados lugares. Foi assim que Zahur,foi viver para os EUA, pondo à disposição os seus conhecimentos na área dos recursos humanos.

"Pode ser treinar professores e ensinar outros, como fez uma professora canadiana em Moçambique". Quem o diz é Shenaz Hadak, 58 anos, que também aceitou pintar as paredes da escola numa pausa das celebrações. "Existe [dentro da comunidade ismaelita] um departamento inteiramente dedicado a este assunto", diz. "E pode ser à distância ou por um período longe de casa".

Para o jubileu, Aga Khan pediu que cada um contribuísse com o melhor sabe num gesto de amor e homenagem ao líder

Só está aberto a membros da comunidade e trabalha em coordenação com as agências da Rede Aga Khan espalhadas pelo mundo. Vera Barracho que trabalha na Fundação portuguesa explica: "Nós pedimos ajuda na comunicação, montamos modelos de negócio, finanças pessoais e recursos humanos", diz.

Zahur explica: "É fácil dar dinheiro, mas não é disso que se trata". "Assim todos podem dar, independentemente das suas posses", acrescenta Shenaz, ciosa das suas tradições ismaelitas.

No intervalo das pinturas, escreveu, num pedaço de cartão, por pontos, o que considera ser as bases do ismaelismo. "Ser bom, ter compaixão, ser generoso, cuidar e partilhar, ser tolerante, estar constantemente a aprender e ter educação superior, deixar o mundo um lugar melhor."

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