Uma ópera para estilhaçar as convenções

Albano Jerónimo encena texto de Rodrigo García transformando-o em ópera. Com muita ironia. Estreia quinta-feira no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

Uma "ópera tropical". É assim que Albano Jerónimo define o espetáculo. Tudo começou pelo texto do dramaturgo argentino Rodrigo García, Tivessem ficado em casa seus anormais. O ator Albano Jerónimo admira "a escrita urbana e provocadora" de García. "É uma escrita crua, que está dentro da cabeça das pessoas, onde se esbatem as fronteiras sociais", diz. Queria encenar este texto, que mostra quadros da vida quotidiana, e achou que a melhor maneira de o fazer seria usando a música - a ópera, no caso - como forma de "estilhaçar" as palavras e de lhes dar ainda mais força. "Estilhaçar" e "adensar" são as palavras que Albano Jerónimo mais usa para descrever o processo de trabalho e as suas intenções.

Para construir uma dramaturgia paralela, que enquadrasse a ópera, foi convidado Mickael Carreira. Albano Jerónimo propôs-lhe que utilizasse a história de Fitzcarraldo, o filme de Werner Herzog que conta a história de um homem que sonha fazer uma ópera no Amazonas. "Foi assim que surgiu esta imagem de alguém que vem de fora, um ariano, que vem colonizar, evangelizar esta massa através da música do homem branco", explica Jerónimo. "Tudo o que é cantado nesta ópera é integralmente Rodrigo García, o Werzog apareceu para ligar as várias árias, com alguém que tem um sonho completamente doido e vai para um país estrangeiro para criar uma ópera . Em prol disso, cilindra, esmaga pessoas sem qualquer pudor."

O resultado é então este "objeto operático", o espetáculo Um libreto para ficarem em casa seus anormais, onde existe um encenador alemão chamado Fitzcarraldo que vem a Lisboa, a convite do diretor artístico do teatro, para montar uma ópera a partir do texto de Rodrigo García. O que ali assistimos é ao processo de montagem dessa ópera. O encenador fala alemão (às vezes fala uma mistura de línguas) e é seguido por um tradutor para poder falar com o maestro, com os músicos, com os cantores ( o coro é composto por atores do grupo de teatro Crinabel).

Jerónimo chama-se "um shot de ópera". A mistura de géneros teatrais, de línguas, de géneros musicais, "tem tudo a ver com a cacofonia e com a ironia, a convenção é constantemente quebrada". O ímpeto revolucionário de Rodrigo García mantém-se intacto apesar da abordagem burguesa imposta pela ópera. E o lirismo da ópera acaba por ser superado pelo trash-metal-punk das guitarras e bateria tocadas em cena. A desconstrução é total: "No fim, Fitzcarraldo não consegue montar a ópera, mas consegue incitar a revolta."

Um libreto para ficarem em casa seus anormais
Criação de Albano Jerónimo
De 8 de junho a 2 de julho
Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa
Bilhetes: 12 euro

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