Santos Silva. "Um dos meus sonhos de sociólogo era assistir a um concerto de Tony Carreira"

O ministro Augusto Santos Silva lamenta nunca ter ido ver um concerto do artista

"Se houve algum equívoco rapidamente será sanado", garante o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. A cerimónia de atribuição do grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras a Tony Carreira, em Paris, na sexta-feira, ficou marcada pelas críticas do artista ao Governo português e ao embaixador naquele país, Moraes Cabral, que não autorizou que a cerimónia se realizasse na representação diplomática portuguesa em Paris.

"Fico muito contente Tony Carreira tenha sido agraciado com esta condecoração, que não é uma condecoração menor", disse o Ministro dos Negócios Estrangeiros. O governante vai mais longe e refere: "Nunca consegui cumprir um dos meus sonhos sociológicos que foi assistir a um concerto de Tony Carreira, porque me dizem que é um dos acontecimentos que um sociólogo deve observar."

Ao DN Tony Carreira criticou a ausência do embaixador e a falta de acolhimento na embaixada em Paris (a cerimónia realizou-se num hotel): "No meu país, hão de valorizar-me quando estiver com um pé para a cova".Na página oficial no Facebook, escreveu: "Quando tomei conhecimento desta condecoração pedi se seria possível entregarem-me a medalha na embaixada de Portugal em Paris (a embaixada do meu país)". Um pedido que segundo o cantor foi "recusado pelo embaixador de Portugal em Paris". Tony Carreira lamenta: "Tive pena, fiquei triste, mas não mexe em nada com o meu orgulho em ser português". Os comentários a essa publicação não se fizeram esperar, havendo mesmo quem pedisse a demissão do embaixador de Portugal.

O diplomata português não esteve presente na cerimónia porque, como noticiou o DN, não foi convidado. Carreira garantiu que telefonou quatro vezes ao diplomata mas nunca conseguiu chegar à fala com ele. Questionado ontem pelo DN, Santos Silva referiu: "Não posso falar pelas pessoas mas o embaixador em França é um dos nosso melhores embaixadores, acredito que se tivesse sido convidado teria estado presente."

Em declarações à TSF, o embaixador Moraes Cabral explicou que, no seu entender, a condecoração deveria ser entregue "num local do país" que homenageia o artista: "Seria um bocadinho estranho que uma condecoração francesa fosse imposta na embaixada de Portugal e porventura até por mim... pois não é essa a prática corrente".

O embaixador diz contudo que lamenta se "o cantor Tony Carreira se sente melindrado com esta atitude pois não houve qualquer intenção, mas apenas atuar de uma forma consistente com a prática internacional que tem regras".

Embaixada recebeu Mísia

Seria, de facto, uma situação pouco comum, mas não inédita. Em 2004, a cantora Mísia recebeu o grau de cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras em reconhecimento pela sua popularidade em França. A cerimónia realizou-se na Embaixada Portuguesa em Paris, presidida pelo então ministro da Cultura francês, Jean-Jacques Aillagon. Presente, obviamente, estava o embaixador português António Monteiro. "Não me lembro quem é que tratou desses pormenores da cerimónia. Não fui eu mas não sei se terá sido a minha manager ou o ministério da Cultura francês ou a Embaixada Portuguesa", diz Mísia, que também não sabe explicar porque é que o prémio foi entregue em França e não em Portugal, como acontece na maioria dos casos.

"Foi uma cerimónia muito bonita e penso que até foi importante para Portugal, porque estiveram lá vários vultos da cultura portuguesa e foi um momento de reconhecimento da nossa cultura", lembra ao DN. O ex-presidente Mário Soares foi um dos convidados, assim como o encenador Patrice Chéreau, o escritor Antonio Tabucchi, o pintor Júlio Pomar ou a cantora francesa Line Renaud. "E até houve um pequeno concerto, eu interpretei alguns temas meus", conta Mísia.

A cantora não percebe, por isso, a posição do atual embaixador: "Não tem a ver com gostar-se ou não do artista. É uma condecoração importante, de que o país se deve orgulhar." Já antes, em 2001, quando Maria de Medeiros recebeu a mesma insígnia, a cerimónia realizou-se no Ministério da Cultura francês mas contou com a presença do embaixador português, António Monteiro, e do diretor do Centro Cultural de Paris da Fundação Calouste Gulbenkian, Francisco Bethencourt.

Comendador, oficial, cavaleiro

A maioria das condecorações atribuídas pela França a personalidades portugueses, seja como comendador (a mais elevada), oficial ou cavaleiro (a mais baixa), foram entregues na Embaixada de França, em Lisboa, no Palácio de Santos - por exemplo, António Victorino d"Almeida (2014), Kátia Guerreiro (2013), Dulce Maria Cardoso (2012), Carrilho da Graça e Rui Horta (2011), entre outras. Siza Vieira recebeu a distinção de comendador em 2011 numa cerimónia que se realizou na Casa de Chá da Boa Nova (2011), João Fernandes (2012) foi condecorado cavaleiro em Serralves e Paulo Cunha e Silva (2015) nos Paços do Concelho, no Porto. O encenador Joaquim Benite foi condecorado duas vezes - como cavaleiro em 2007 e como oficial em 2012 e de ambas vezes a cerimónia realizou-se no Teatro de Almada.

A Ordem das Artes e Letras (Ordre des Arts et des Lettres, em francês) é uma condecoração concedida pelo Ministério da Cultura da França para recompensar "as pessoas que se distinguem pela sua criação no domínio artístico ou literário ou pela sua contribuição ao desenvolvimento das artes e das letras na França e no mundo".

O DN tentou, sem sucesso, falar com o embaixador Moraes Cabral.

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