"Poderíamos não chegar àquele sentido de humor estúpido de quando tínhamos 20 anos"

Luís Louro e Tozé Simões fizeram regressar Jim del Monaco 20 anos depois. O herói de BD português regressou - quem sabe se para ficar...

Não há assim tantos heróis de banda desenhada inteiramente portugueses como é o caso de Jim del Monaco, de autoria de Luís Louro e Tozé Simões. A série teve sete álbuns muito bem recebidos, parou durante duas décadas porque os seus autores seguiram outros rumos, mas voltaram a juntar--se para comemorar os 30 anos de parceria.

Pode não ser de propósito, mas os álbuns de Jim del Monaco fazem de vós os autores assumidamente mais colonialistas em Portugal. Discordam?

Tozé Simões (T.S.) - Claro, isso até parece uma provocação. Nunca vi o Jim del Monaco com uma faceta colonialista, pelo contrário é uma paródia ao colonialismo. Aliás, alguém o definiu como um "colonialismo de pantufas". Toda esta África resulta do imaginário, pois nós não vivemos essa época e todas as referências são de literatura ou cinematográficas. É uma paródia, até porque as nossas referências já eram ficção e nós fazemos ficção em cima de ficção. Não acredito que a imagem de África nesses anos - 1950 - fosse esta, pois são mais os clichês ou pastiches o que usamos.

De qualquer modo, a nível de erotismo pode dizer-se sem errar que são assumidamente os que fazem do mais picante na banda desenhada portuguesa. Discordam?

Luís Louro (L.L.) - Foi mais juntar o útil ao agradável, parodiar sem deixar de parte o erotismo. Houve críticas a certos álbuns passados, de estarem sempre virados para o sexo e coisas assim, mas isso apenas mostra que não conhecem o personagem. Ele sempre foi assim, não é virado para o sexo, é mais virado para o erotismo e para a paródia. Nunca teve cenas de sexo, é apenas erotismo e paródia, sobretudo paródia. Ou seja, brincamos com os maiores tabus e o erotismo ou o sexo será sempre um deles. E gostamos de brincar com isso.

T.S. - Acho que o país está muito diferente do que era o país muito fechado e conservador em que se viveu até aos anos 1980. Quando quase só havia o José Vilhena, com a Gaiola Aberta, o que lhe deu o papel de pioneiro ao tratar desses assuntos de uma forma ligeira e sem ser brejeira. É isso que tentamos fazer com situações que, de facto, são uma oportunidade de proporcionar uma certa comicidade sem se tornar demasiado óbvio. É apenas para dar uma nota de humor e não tem outra finalidade.

É, portanto, intencional?

L.L. - Sim, aliás o próprio nome dela, Gina, não é à toa. Era o nome de uma célebre revista da juventude de todos nós.

T.S. - Que já acabou, hoje é só na internet enquanto naquele tempo a única coisa que havia disponível era a Gina ou a Tânia. E esta não soava como muito comercial nem muito literária.

De qualquer modo deve ser uma das mulheres mais atrevidas que existe.

T.S. - Há bem mais atrevidas do que a Gina.

Jim del Monaco acabou por se tornar o personagem mais popular da banda desenhada portuguesa. Com esta concordam?

T.S. - Do ponto de vista do maior número de publicações e de longevidade, hoje é fácil dizer isso porque passaram 30 anos. Portanto, estamos à vontade para dizer que sim. Também é aquele que tem o maior número de obras publicadas, independentemente do tempo que passou entre elas, pois houve um hiato de quase 20 e poucos anos entre o sétimo e o oitavo álbum. Quando se deu o início, olhávamos para os então clássicos, José Ruy, José Garcês, Catherine Labey, que eram referências. Não era Jim del Monaco, mesmo que hoje estejamos nessa mesma prateleira dos dinossauros.

L.L. - Fala por ti.

T.S. - As pessoas já nos olham como sendo autores de um clássico, o que não é necessariamente mau.

L.L. - Não é, garantidamente, o personagem com mais álbuns publicados, mas em termos de ficção, de banda desenhada pura, sem dúvida que Jim del Monaco é o personagem que tem mais álbuns publicados - nove.

Entre este álbum e o primeiro nota-se grande diferença gráfica. É natural?

L.L. - Mal de mim se não se notasse, era sinal de que eu já tinha morrido e não tinha dado por isso. Apesar de ter existido uma certa dificuldade em retomar o desenho porque o último Jim del Monaco data de 1993. Entretanto, passei por um estilo bastante diferente, o do Corvo, Alice, Coração de Papel, mas não queria subverter este estilo e foi um pouco difícil porque a tendência seria fazer um Jim del Monaco mais moderno, ao estilo de desenho que tenho agora. Só que não queria mudar tudo e tentei não sair da sua linha gráfica. Cheguei a um ponto da minha carreira em que desenvolvi um traço próprio, até porque deixei de ler banda desenhada e perdi as referências do que se faz.

Porquê deixar de ler banda desenhada?

L.L. - Foi um fenómeno estranhíssimo, até já fui insultado, que era um vendido pois faço banda desenhada mas não tenho paciência para a ler. Porque é que faço? A resposta é simples: gostar de fazer não quer dizer que se goste de ler. Enquanto estou dedicado à banda desenhada passo um ano a desenhar e quando tenho tempo livre dedico-o a outros prazeres da vida. Cinema, desporto, fotografia. Então, perdi a vontade de ler banda desenhada. Neste momento é a minha filha, uma ávida colecionadora - mais do americano -, que me mostra o que compra. Vejo os bonecos e passo à frente porque não tenho paciência. Em termos de conceção, continuo a gostar e dá-me prazer. É com grande gosto que quando publico uma ilustração e não está assinada que vejo a maior parte das pessoas reconhecê-la como sendo o meu traço. É a recompensa suficiente.

Foi preciso treinar para regressar ao registo de Jim del Monaco?

L.L. - Curiosamente não, saiu-me espontaneamente. Aliás, começou tudo por uma ilustração [ver nas páginas seguintes] em que resolvi juntar elementos de todas as histórias. Foi o modo como consegui perceber como estava em relação ao Jim del Monaco. Tive de me adaptar um pouco mas, a partir daí, saiu com uma facilidade enorme.

Quanto ao Tozé, também foram umas décadas sem escrever argumentos...

T.S. - Sim, é verdade. A minha vida profissional é muito mais cinzenta e o que escrevi são coisas de âmbito económico-financeiro e nada sob este ponto de vista. Daí que também tenha representado um desafio poder voltar a uma narrativa com um estilo de diálogos a que já não estava habituado. Foi um desafio enorme quando este projeto renasceu, devido a esse desenho que o Luís fez para comemorar os 25 anos do Jim del Monaco. A banda desenhada é para mim um media, um suporte como é ficção, as séries, os filmes e o resto, que não leio como leitor compulsivo. Tenho apenas o que gosto.

Então, como é que o Jim del Monaco ressuscita?

L.L. - Teve uma razão de ser, inesperada, pois em 2014 fui contactado para dar uma entrevista. Eu respondi que não me levasse a mal mas não fazia muito sentido dar uma entrevista sobre banda desenhada quando não a faço quase há dez anos. Era uma coisa que tinha deixado. Acabei por a dar, respondi a uma série de perguntas e mencionei que uma das coisas que me deixaram triste foi o Jim del Monaco ter feito 25 anos e ninguém se ter lembrado. Acrescentei que para o ano ia fazer 30 anos e também ninguém iria lembrar-se. Ele pegou nisso e deu-o como mote da entrevista, o que me deixou a pensar no assunto.

Sentiram-se na obrigação de voltar?

L.L. - Não, simplesmente resolvi fazer esse desenho em que juntava todos os elementos das histórias e pus na internet por graça. O Tozé viu e também ficou a pensar nisso: 30 anos! Então, começou a picar-me: "Vamos fazer qualquer coisa, um álbum comemorativo e se alguma editora estiver interessada até podemos fazer uma historiazita pequenina - teria graça." Começámos a fazer a primeira história e correu de uma maneira tão boa que ao fim de 15 dias estava pronta.

É este livro, O Cemitério dos Elefantes?

L.L. - Exatamente. Então, dei por mim a ligar-lhe a dizer: não há mais? E fizemos quatro histórias de seguida.

T.S. - Havia uma grande dificuldade para mim porque se o Luís ainda foi desenhando, ou fazendo coisas diferentes mas com suporte nos media, eu estava a zero, nada. Fiquei em pânico porque mudei na idade - uma coisa é ter 20 anos e outra ter 50 -, na experiência de vida e podia não ter o mesmo sentido de humor nem fazer as mesmas graçolas.

L.L. - Essa era a questão. Sabia que ele tinha talento para escrever, talvez até tivesse mais agora, mas poderíamos não chegar àquele sentido de humor estúpido de quando tínhamos 20 anos. Havia esse perigo de não o conseguirmos.

T.S. - Então, tomei uma decisão administrativa, como se abordasse um projeto na minha área profissional, e fui ver tudo o que foi feito para trás. Mas não passei do primeiro álbum, sentia que ia condicionar em vez de deixar fluir naturalmente. De facto, a primeira história correu muitíssimo bem e, depois, foi um desencadear contínuo. Fiquei satisfeito com o resultado. Olha isto não está mau de todo!

Tão satisfeito que parece que Jim del Monaco irá ter uma continuação...

T.S. - Não sei, nunca ninguém perguntou isso. Nós não somos muito fãs de sequelas, mesmo que esteja na moda.

A última frase, "acho que ainda vamos voltar a ouvir falar de si", indicia...

L.L. - É verdade, mas é mais a passagem para o Parque Jurássico e ficar por aí.

T.S. - O código implícito é ter uma inspiração no Parque Jurássico e no Regresso ao Futuro e não uma deixa para continuar.

A nave da Grande Ópera Sideral inspira-se num frasco de mostarda

Mas não fica de fora uma continuação?

T.S. - Não sabemos. Já descobri que ainda existem imensos cenários dos anos 1950 que gostaria de ter abordado a nível de Jim del Monaco. Ainda no outro dia estava a ver um filme, The Lost City of Z, que se passava no Egito, e pensei: cá está um tema que nunca explorámos...

L.L. - Nunca explorámos? Posso dar-lhe um estalo? Então não temos um álbum inteiro passado no Egito, com múmias e pirâmides?

T.S. - Mas não com aquele clássico da nascente do Nilo!

L.L. - É o Alzheimer, tem de se dar um desconto.

T.S. - Passando à frente, estas quatro histórias tiveram um propósito, o de testar se tínhamos capacidade de ficcionar nos mesmos moldes - o mesmo absurdo e as mesmas situações -, por isso é que são curtas e seguimos um formato de episódios para completar as 40 e muitas páginas de uma história inteira, porque é uma única narrativa.

Há apetência editorial para publicar este herói?

T.S. - Têm-nos dito que sim, mesmo que o mercado seja cada vez mais exíguo. Antigamente, faziam-se grandes tiragens de arranque e segundas edições, hoje o mercado é quase de nicho, como o do vinil, mas não vai desaparecer. Terá um público restrito que, pelas reações, nos deixou espantados.

De qualquer modo, Jim del Monaco também já cavalga as redes sociais.

L.L. - Sim, embora apenas mais por brincadeira. Uma ilustraçãozinha aqui outra ali, deixar escapar uma coisita aqui outra ali, mas nada de especial. Este álbum ficou-me sempre atravessado porque nunca fizemos uma história com dinossauros. Correu bem, seja no entusiasmo no desenho como no argumento. Pela parte que me toca, gostava de fazer outros, quanto mais não fosse chegar aos dois dígitos no Jim del Monaco. Fazer o 10.

Mas o próximo álbum está certo?

T.S. - Não sei se está.

L.L. - Ainda não falámos sobre isso.

Na edição comemorativa, o álbum anterior, havia vários comentários. Rui Veloso falava dos "míticos" Luís e Tozé; Nuno Artur Silva dizia que era o "primeiro herói pós-moderno português". Sentem alguma pressão?

L.L. - Claro que sim. O problema é que eu era considerado um autor de vanguarda e neste momento, com o Jim del Monaco, passei a ser um clássico. E não gosto desse rótulo, portanto não sei até que ponto me interessa continuar a fazer uma coisa clássica e ficar rotulado deste modo.

Só mais uma citação, de Rui Zink, a dizer que não tinha "nem uma ruga"...

L.L. - Isso é bom, é um elogio. Enquanto acharmos que isso tudo é bom, certo; quando chegar ao rótulo do clássico, então está na altura de parar.

Têm medo de ser clássicos?

L.L. - Não, eventualmente terei de ser um clássico, mas para já esse rótulo não me assenta.

T.S. - Neste aspeto, ao contrário do Luís, não me importo porque já sou clássico em muita coisa. Na profissão e na própria vida, e não me preocupa que considerem Jim del Monaco um clássico. Sermos autores clássicos não me preocupe. Até fico muito satisfeito porque julgo que não é fácil atingir esse estatuto e, seguramente, não estava no nosso horizonte quando começámos há mais de 30 anos.

Chegou ao cinema a adaptação da banda desenhada Valerian. Imaginam Jim del Monaco no grande ecrã?

T.S. - Se alguém alguma vez quiser pegar nele faça o favor!

Nunca pensaram nisso?

T.S. - Não, mas já cedemos direitos de uma outra história: Roques & Folque.

L.L. - Sobre Jim del Monaco já me falaram de uma animação, mas sejamos realistas em termos de cinema. Até vejo um Corvo no cinema, porque é uma coisa lisboeta e simples de fazer, tal como Roques & Folque, mas o Jim del Monaco passa-se em África e necessitava de mais meios e de um orçamento maior.

T.S. - Há um fã nosso, que é um dos mais bem-sucedidos realizadores atuais, o Leonel Vieira. Se estiver a ler isto, ou outro realizador qualquer, façam favor cheguem-se à frente.

Já foram ver o Valerian?

T.S. - Não.

L.L. - Estou de férias e não vejo nada. Mas acho que é uma boa maneira de combater a invasão Marvel e DC Comics que neste momento ocupa as produções no cinema. Por um lado foi ótimo porque despertou a atenção do público mais jovem para a banda desenhada, nomeadamente os comics americanos. Estamos mais nessa fase no cinema do que da BD franco-belga, que sempre foi excelente e ainda é.

T.S. - Não me espanta essa adaptação porque há uma crise de produção em Hollywood e uma crise com a produção. O que se vê são filmes que custam muito dinheiro, daí fazerem sequelas ao infinito de séries que resultaram na Marvel e na DC Comics. Têm um público sempre fiel mas é uma indústria mais perto de Hollywood e dos americanos. Na Europa também já houve adaptações do Astérix... De qualquer forma, sempre houve uma relação promíscua entre banda desenhada e cinema, desde logo porque utiliza storyboards que não são mais do que bandas desenhadas para filmar. Assistimos atualmente a algumas séries na televisão que têm origem na banda desenhada, como Walking Dead, ou The Strain, até as mais de culto como Frank Miller e Sin City. Isto tudo para dizer que em Portugal Jim del Monaco é o único que tem uma continuidade para se pensar numa coisa dessas...

Tem-se assistido aos sucessores dos antigos autores de heróis famosos, como o caso de E.P. Jacobs, Astérix ou Michel Vaillant, que agora são recriados por outros. Seriam capazes abdicar da paternidade de Jim del Monaco?

L.L. - Um lado de mim diz que sim, o outro diz que não. Ia fazer-me confusão porque o Jim del Monaco é uma coisa nossa - deve nascer e morrer connosco. Por outro lado, acho que não faz mal perpetuar a série, desde que não se entre na industrialização, como é o caso dos comics americanos - uma das razões por que sempre lhes torci o nariz. Aliás, isso está a acontecer em Portugal, onde temos excelentes artistas que estão a trabalhar com a Marvel, com a DC Comics, mesmo que fazendo parte de uma indústria que importa partes de vários lados do mundo para um mesmo álbum.

De qualquer modo este livro já não é colorido digitalmente?

L.L. - Sim, temos de evoluir mas somos nós a fazê-lo. A partir do momento em que não o possamos ou não o queiramos fazer mais, se eventualmente alguém pegar no livro, então que seja como tem sido feito na BD europeia, em que os novos autores seguem rigorosamente o traço do criador original.

T.S. - No modelo americano de produção quem é verdadeiramente determinante é o produtor executivo, como o produtor funciona para o cinema. Estou a lembrar-me do Batman, que já tem não sei quantos filmes e todos eles têm uma visão diferente. Aliás, o filme Batman Lego até goza com isso.

Quando tudo começou foi numa subcave, onde tinha uma espécie de ateliê. É verdade ou fantasia?

L.L. - Era mesmo numa cave que havia no meu prédio. Estava abandonada, cheia de humidade, e resolvemos usá--la. O meu estirador já não cabia em casa dos meus pais, permitia mais privacidade - e estávamos na altura de começar a ter namoradas -, então criámos esse estudiozinho, com duas salas.

Já era uma coisa à profissional?

T.S. - Antes de mais devo fazer uma nota sobre essa história das namoradas, é evidente que aquilo não era uma orgia.

L.L. - Não, nada disso.

T.S. - É verdade, tentávamos gerir os tempos, um bocado para ele, um bocado para mim. Levámos a coisa a sério, começávamos de manhã, muitas vezes às 08.30, e ficávamos lá até altas horas.

L.L. - Fora do tempo escolar, até passávamos ali os fins de semana.

Também há um outro mito, o de uma gaveta número 10...

T.S. - Isso não é um mito. A gaveta número 10 continha muita da pesquisa que está patente nas páginas do Jim del Monaco, coleções inteiras...

Portanto, uma gaveta com revistas?

L.L. - Exatamente.

T.S. - Não só revistas, havia de tudo.

L.L. - Montes de coisas, estritamente para pesquisa.

T.S. - O Luís usava de tudo: modelos articulados para fazer as figuras e às vezes outros artefactos para desenhar melhor. Por exemplo, a nave da Grande Ópera Sideral inspirava-se num frasco de mostarda. Nessa altura não havia a facilidade de hoje de ter materiais virtuais.

L.L. - Também era mais por gozo, mesmo que os aviões que aparecem no Jim del Monaco fossem bem reais. Sempre fui um ávido modelista e montava e pintava todos os modelos. No caso da nave, queríamos algo disparatado mas que ao mesmo tempo fizesse lembrar o foguetão do Tintin, que começou a partir de um frasco de mostarda.

T.S. - Se olharmos para as referências, a nossa principal é o cinema e a ficção dos anos 1950. Onde a maior parte dos efeitos especiais no cinema eram feitos com modelos ridículos, por isso é que digo sempre que o Jim del Monaco tem uma identificação inicial com a linha clara que se desenvolvia na Europa da altura e que a sua verdadeira inspiração é a cinematografia dos anos 1950 e os grandes clássicos da literatura, como Hemingway.

Como era feita a investigação para os álbuns?

L.L. - De início, era uma parvoíce. Lembro-me de no primeiro álbum nos sentarmos ao estirador e à secretária a atirar pastilhas um ao outro e fazer outros disparates iguais, mas foi assim que surgiram as primeiras histórias.

T.S. - Eu via muito cinema com a mãe dele, que era uma entusiasta da cinematografia dos anos 1950, com o Gary Cooper e aquela rapaziada toda, aqueles grandes filmes e produções fantásticas como as Neves Eternas do Kilimanjaro. É a grande referência, a que se segue um personagem de banda desenhada, que era o Jim das Selvas, ou o Tarzan do Alex Raymond, também o universo da literatura do Rudyard Kipling, do próprio Eça de Queirós com as Minas de Salomão, que acabámos por replicar num dos álbuns, ou as viagens a África dos exploradores, como as do Stanley e do Livingstone. Era um mundo muito fascinante essa África e América do Sul no princípio do século XIX.

Fica de fora a nossa descolonização?

T.S. - Somos da geração da descolonização, tivemos familiares que viveram em África e regressaram, mas nunca foi um tema nosso, porque era muito politizado e não queríamos isso. Jim del Monaco foi sempre um ser relativamente universal, contextualizá-lo demasiado em Portugal seria bastante estranho.

L.L. - O que acontece com o Jim del Monaco é que, independentemente da época em que se situa, colocamos sempre referências atualizadas. Temos esse cuidado, como neste último, O Cemitério dos Elefantes, onde aparece o Walking Dead e várias questões atuais. Mesmo assim dei por mim a rever toda a filmografia do Tarzan e houve alturas em que aquilo era de chorar a rir devido ao ridículo da tecnologia de então. O Jim del Monaco é um pouco essa África de brincar.

T.S. - Uma África imaginária que, creio, era a da maior parte dos guionistas de Hollywood. Alguns deles nunca puseram os pés em África.

L.L. - Filmes do Tarzan onde aparecem ursos, outros com elefantes e tigres asiáticos, araras da América do Sul. Limitavam-se a ir ao circo ou ao jardim zoológico buscar os animais.

T.S. - No Jim del Monaco não há um álbum em que exista algo fora dos fundamentos históricos, é tudo verídico. A receita do Jim del Monaco é sempre esta: há um caso real, comprovado cientifica, histórica ou arqueologicamente, e depois há uma descontextualização com a introdução de referências - atuais ou de ficção - para ajudar a construir um humor nonsense.

Têm muitas influências ou acabaram por influenciar?

L.L. - De influências, neste momento, tenho zero. No Jim del Monaco sai-me tudo da cabeça. Foi uma das razões que me seduziram a regressar à história, pois não tenho de me preocupar se estas quedas de água são parecidas com as que estão no Kilimanjaro - é tudo pura fantasia. Mas não esqueço o rigor, pois nesta história tinha desenhado veículos mais modernos e ao descobrir que ainda não eram assim, redesenhei-os.

Vão ou não continuar com este herói?

T.S. - O Luís está um pouco reticente. Vamos a ver...

L.L. - Não quero estar dependente. Faço o que me apetece e é isso que me dá gozo. Portanto, só posso dizer: estás mas é maluco, nem aqui nem na China.

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