Pinóquio, o construtor de sonhos

É possível crescer e continuar a ser livre? Esta é a interrogação de Pinóquio, que se apresenta no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém.

Não é a primeira vez que o encenador e dramaturgo francês Jöel Pommerat encontra o público do Festival de Teatro de Almada. É conhecido como "O Mágico de Palco" mas prefere ser chamado de "escritor do espetáculo". O seu trabalho parte da literatura e da capacidade de criar imagens a partir dum palco escuro. Pinóquio não foge às regras da escrita cénica apoiada em luzes, som, espaço e corpo que se cose num cenário vazio, despojado de estrutura ou alternando entre as personagens.

No escuro da alma dos sentidos, é lá que Pommerat ausculta o seu Pinóquio, que se estreou no Teatro Odéon, em Paris, em 2008, sendo já um espetáculo de culto, por toda a França, com direito ao Prémio Molière, o principal galardão de teatro em França, para o Melhor Espetáculo para o Público Jovem.

E se a história é direcionada também para os mais jovens e crianças, os adultos sentir-se-ão, sobretudo, solicitados a refletir sobre Pinóquio, a marioneta dos sonhos de nariz grande e malícia pequena que parte à descoberta do amor, da verdade e da unicidade da vida, numa cruzada que é "tão extraordinária quanto verdadeira", segundo explica o narrador na primeira cena.

Este espetáculo, livremente reinventado por Pommerat, assenta no contraste entre a austeridade do real e os encantos da fantasia. O encenador já disse que o seu teatro não serve para apregoar lições, mas sim para partilhar experiências, numa ode à luz e ao som como elementos pulsantes de cena. "Penso que a luz e o som são construtores do espaço. O som expande-se direto ao olho do espectador", explica o próprio, cujo trabalho se rodeia de três engenheiros de som para criar uma "aproximação quase cinematográfica".

Eric Soyer, responsável pela iluminação e a cenografia, considera que este é um espetáculo de "atmosfera misteriosa, com elementos animados e inanimados, em que cabe ao espectador ter a perceção do que é verdadeiro ou falso". O jogo entre o visível e o invisível é, aliás, uma das tónicas da peça, já que remete para a psicologia infantil. "É muito importante conservar esse estado contrário à organização séria dos adultos, em oposição à noção de brincadeira", explica o encenador, advertindo que o Pinóquio nasce da imaginação de um homem, não do ventre de uma mulher, é uma criação pura. "Encaramos, nesta história, a passagem entre a artificialidade e a verdade, e até certo ponto a humanidade, o que tem de verdadeira e de falsa."

Também a atriz Myriam Assouline, há mais de 20 anos a pisar os palcos, que veste a pele do Pinóquio, acredita neste jogo de contrastes, que, no fundo, não podia ser mais atual e contemporâneo. "Do meu ponto de vista, creio que esta é uma viagem iniciática que conduz tanto crianças como adultos. É uma peça escrita para eles, crianças ou pré-adolescentes, mas pode ser objeto de reflexão a muitos níveis: psicológico, onírico ou filosófico." Para a atriz, o grande desafio da personagem, e o que mais a toca, é, sobretudo, transmitir o quão é mais importante o ser do que o ter. "Trabalho com jovens e esta peça é muito poderosa. Sinto é que a resposta da maioria deles, hoje em dia, é o desejo de fama e dinheiro, não a realização pessoal como querer ser ator ou cantor ou arquiteto", esclarece a atriz.

Talvez a realidade austera não ceda espaço à fábula. Será? Mas seguir Pinóquio rumo à liberdade é a proposta para jovens e adultos, onde o bravo boneco vence a ganância no braço de ferro com a pureza e ingenuidade, durante o seu combate colossal para escolher a verdade e negar a mentira.

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