Pedro Rolo Duarte: "Passei por cá e diverti-me"

Não Respire é uma obra de memórias e reflexões, sobre a vida, a doença e a morte, escrita durante o último ano de vida do jornalista

"Pedro, não são boas notícias, confirma-se: tem um tumor no pulmão. No estádio III. O estádio IV é o último." A frase foi-lhe dita pela médica no dia 18 de outubro de 2016. Foi esse o dia em que tudo mudou. Pedro Rolo Duarte não poderia saber que tinha apenas pouco mais de um ano de vida. Mas soube, naquele momento, que a vida não seria mais a que tinha tido até então.

Mesmo que continuasse a trabalhar, sempre que os tratamentos o permitiam, mesmo que tentasse manter as rotinas, que continuasse a comer fritos e a beber um copo de vinho - "seria forçado a revelar que vivo na fast lane e me ponho a jeito para que tudo corra mal", admite. Mesmo tentando encarar este como "mais um episódio do filme de uma vida".

Mesmo assim. Tudo mudou nesse dia em que, depois de saber da doença, abriu um documento Word no computador e começou a juntar palavras para um livro que tinha imaginado escrever muito mais tarde. Para quem tinha passado mais de 35 anos no jornalismo, entre jornais, revistas, programas de rádio e de televisão, nada parecia mais natural do que isto: escrever.

O resultado é o livro Não Respire, editado pela Manuscrito e hoje lançado no Museu da Eletricidade, numa sessão com a participação de alguns dos melhores amigos de Pedro Rolo Duarte: o escritor Miguel Esteves Cardoso, os jornalistas João Gobern e Sónia Morais Santos e o publicitário Edson Athayde.

O título refere-se aos exames que realizou quando os médicos lhe pediam: "Não respire." Dez segundos de suspensão. "Pode respirar." Não é uma autobiografia, embora contenha uma série de memórias - umas mais pessoais, outras (muitas) profissionais - tem reflexões várias, sobre a vida, a doença, a morte, tudo e mais alguma coisa; e ainda outros textos publicados na imprensa ou no blogue pessoal, e alguns até agora guardados em pastas no computador. Não há uma ordem cronológica mas tudo flui como numa conversa, um assunto puxa o outro.

Da arrogância do jovem de 18 anos que achava que sabia tudo às primeiras aventuras na rádio, do caos da redação da Capa às noites loucas do nascimento de O Independente, da fundação da revista Visão ao DNA, o suplemento que dirigiu durante dez anos no Diário de Notícias ("Dei-me conta, anos mais tarde, de que tinha pensado, concebido e produzido, do primeiro ao último dia, o produto editorial que sempre tinha querido fazer e nunca julguei possível desenvolver"), até à desilusão e ao quase afastamento dos últimos anos.

Acompanhar a carreira de Rolo Duarte é fazer um pouco o retrato de uma geração (de jornalistas e leitores) e permite refletir sobre as mudanças das últimas décadas. "O tempo é dos espertalhões, daqueles que não sabem o significado da palavra escrúpulo e dos que perceberam antes de ti que empurrar não é crime", conclui.

Quem vier à procura de segredos escondidos ficará desiludido. Não há acertos de contas, não há intimidades. Nem sequer há lamechices, nem mesmo quando o tema é a doença. Neste último texto, Rolo Duarte mantém o estilo a que nos habituou, com uma inteligência desarmante mas discreta e um sorriso maroto. O Pedro morreu em novembro do ano passado, com 53 anos. Ao imaginar o seu epitáfio, pedia uma frase apenas (e tão certeira, dirão os que o conheceram de perto): "Passei por cá e diverti-me."

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