"Pedi tréguas aos leitores para contar outras histórias"

No Folio, Dolores Redondo falou com o DN sobre o seu mais recente romance, "Tudo isto Te darei", vencedor do Prémio Planeta de 2016.

Dolores Redondo venceu a edição de 2016 do Prémio Planeta com o romance Tudo isto Te Darei, mas os últimos anos já tinham sido de grande sucesso após ter publicado uma trilogia passada no País Basco que recuperava antigos mitos assustadores da região através de uma investigação policial realizada após uma série de crimes em que perderam a vida várias adolescentes. A escritora nasceu em 1969 em Donostia-San Sebastián e está traduzida em mais de 30 países.

Qual o segredo para que a sua anterior trilogia de Baztán se tornasse um sucesso tão grande?

Nunca se sabe quais foram as causas e a sua convergência para fazer de um livro um sucesso literário, mas se existe uma que considero importante foi o produtor da série Millennium, de Stieg Larsson, ter adquirido os direitos para a versão em cinema. Isso chamou muito à atenção dos livros. No entanto, se não houvesse uma história bem sustentada, tal não teria acontecido.

O que a torna diferente?

A razão foi a mesma porque muitos editores se negaram a publicá-la: ser diferente dos demais. Sendo um policial em que uma inspetora é destacada para resolver o caso de um serial killer que aconteceu numa aldeia onde ela nasceu e abandonou jovem. Creio que o facto de regressar às origens sem o desejar criou um cenário inesperado.

Não é uma aldeia como todas as outras?

Recriei a povoação da minha própria infância no País Basco, onde existe um sistema familiar matriarcal e com uma envolvente cultural muito especial. Ela é uma mulher muito prática e enfrenta um choque com a sua família, a polícia local não vê com bons olhos alguém de fora à frente da investigação e, sobretudo, há o facto de ela ter deixado para trás um demónio enterrado no passado, algo terrível que ressuscita em toda a sua força aquando do seu regresso e a atormenta com recordações que achava ter esquecido completamente.

O medo está sempre presente nos seus livros?

Sim. Ela quase perde a razão devido ao receio desse passado e é obrigada a manter-se firme na perseguição do assassino, que deixa as suas vítimas marcadas, umas jovens adolescentes, de uma forma especial e em muito ligadas à mitologia das antigas crenças que existem na região. Aliás, o local onde decorre esta trilogia é o mesmo onde aconteceram mais julgamentos pela inquisição espanhola por bruxaria.

Foi precisa muita investigação?

Tinha algum conhecimento dessas crenças porque nasci ali, mas precisei de conhecer as razões antropológicas e de técnica forense que nunca estiveram reunidas para explicar a realidade do que as pessoas ali vivem e de como a transportar para a ficção. São lugares onde, como em certas partes de Portugal, as crenças sobre a presença do maligno têm uma força que as torna mais credíveis do que em zonas urbanas. Certas lendas podem parecer histórias da carochinha na cidade, mas quando uma pessoa está dentro daqueles bosques sente o peso de outra forma. E ela, como polícia, tinha de vestir essa pele para compreender o que o assassino que persegue faz. É obrigada a voltar à aldeia e a acreditar em coisas que não queria.

Os editores que recusaram publicar a trilogia arrependeram-se?

Não sei, mas acredito que alguns andem a bater com a cabeça nas paredes. Era exatamente o que fazia o romance diferente de outros que interessava, pois essas crenças não deixam de existir em múltiplas culturas sob o mesmo aspeto, e esse medo existe tanto em África como no Japão, onde os mitos são iguais e só mudam os nomes que lhes damos.

A intenção era desde logo fazer uma trilogia?

Soube desde cedo que o que queria contar não caberia num único livro.

O seu novo romance pouco tem de policial. Porquê?

Trata-se também de uma investigação policial, só que realizada por civis, que se assemelha mais aos crimes que Agatha Christie resolvia com as personagens que estavam nas casas onde aconteciam. A localização geográfica deixou de ser em Navarra e passou para a Galiza, onde existem as famílias nobres que precisava para montar a história que queria contar. Famílias privilegiadas que vivem ainda na nossa sociedade e que nunca são obrigadas a responder na justiça pelo que fazem. Uma ideia que me surgiu durante a crise económica espanhola, quando certas classes não eram questionadas pelos crimes económicos em que participavam.

O registo diferente não irritou os seus leitores?

Não, mesmo que tenha sido obrigada a prometer-lhes regressar ao género da trilogia, pois os leitores exigem-me o regresso à inspetora. Contudo, precisava de contar outras histórias e não o podia fazer daquela forma. Pedi uma trégua aos leitores para contar outras histórias e logo voltarei às histórias que querem. É importante para o escritor também escrever noutros registos.

O policial não acabou para si?

Todos os meus romances são postos nas livrarias na categoria policial, mas eles não encaixam totalmente nesse perfil, diria que é mais um romance misto porque o que quero contar é uma história concreta. No caso do último romance, existe uma grande história de amor e que coloca a questão de até que ponto conhecemos por inteiro o outro que vive ao nosso lado. É o caso do protagonista que é um escritor homossexual e que ao reconhecer o cadáver do seu marido, morto num acidente, descobre que tem uma vida dupla. O policial está muito ligado a um compromisso com a denúncia social e trata de momentos de desequilíbrio, e nos meus romances trato sempre do crime de uma forma que o assassino não é só o principal. Preocupa-me mais compreender a reação a uma morte violenta e como todas as pessoas que conheceram a vítima são surpreendidas de modos diferentes com aquilo que realmente era essa pessoa.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG