"Para o Marquês de Pombal, a política cultural é a política propriamente dita"

Pode a censura ser um fator de progresso? É à volta desta questão que se desenvolve O Censor Iluminado, um volume de 722 páginas que conta como os sábios do reino procuraram moldar a cultura e combater a superstição, sem espaço para diferenças de opinião

Foram doze anos de escrita e mais quatro a preparar a publicação, numa profunda investigação deste historiador que considera que o século XVIII é "tão rico e tão fascinante que uma pessoa perde-se lá dentro". Nascido em Lisboa em 1972, Rui Manuel Marcelino Tavares Pereira cresceu entre a capital e uma aldeia ribatejana, Arrifana. Formou-se em História de Arte na Universidade Nova de Lisboa. Foi em Paris, na École des Hautes Études en Sciences Sociales, que se especializou, deixando para trás a Antiguidade e a História Contemporânea. Agora, prepara-se ara "atacar" o século XVI, um tempo extraordinário em que a mudança só é comparável à dos nossos dias.

Cresceu numa aldeia do Ribatejo, Arrifana?

Cresci entre Lisboa e o Ribatejo, fiz lá uma parte da escola primária. Sempre que podíamos, íamos para lá aos fins de semana, no verão. O meu pai era uma espécie de aldeão, como um verso do Alberto Caeiro que diz "Ele era um camponês que andava preso em liberdade pela cidade". Do que ele gostava era de estar na Arrifana e quando pôde aposentar-se voltou para lá, tudo mudou. A minha mãe migrou para Lisboa aos 17 anos. Hoje mora na aldeia mas tem um lado de lisboeta, de citadina.

O Censor Iluminado é sobre o período de nove anos do Marquês do Pombal em que houve a Real Mesa Censória. Todo o livro se constrói à volta desta contradição: a censura pode ser iluminada?

Esse paradoxo é o pressuposto de base do próprio pombalismo. O Marquês de Pombal, que antes tinha sido Conde de Oeiras e antes Sebastião José de Carvalho e Melo, tinha sido embaixador em Londres e em Viena. Como ninguém naquela época mas muitos portugueses daquela época em diante, tinha integrado na forma de olhar para o país uma comparação permanente com o exterior.

Isso é uma questão nas preocupações dele?

A bitola é sempre "o que diriam os franceses, os ingleses, os austríacos se vissem Lisboa agora? O que diriam os ingleses se olhassem para inauguração da estátua do rei D. José na Praça do Comércio e vissem que não houve nenhum tumulto durante os três dias de festa? Certamente em Londres, onde ele tinha sido embaixador, teria havido um tumulto. Portanto, eles creem que são mais civilizados mas os portugueses atingiram um grau de civilização, com o rei D. José, inaudito no passado e incomparável com o estrangeiro." Há uma espécie de trauma e frustração.

No livro chama-lhe "comparação ansiosa".

É uma comparação ansiosa, obsessiva. Miguel Real, num livro sobre o Marquês de Pombal e a cultura portuguesa, identifica isso muito bem. Os países sempre se compararam, Portugal sempre se comparou dentro da escala europeia na qual sempre vivemos. Ao contrário do que algumas pessoas pensam, Portugal sempre foi um país muito integrado na cultura europeia e dependente dela para se criar como país. Mas o que há de novo no pombalismo é a tentativa de construir um estado moderno como forma de suprir essa lacuna da comparação entre Portugal e o que eles chamam "os reinos mais polidos da Europa". E isso ficou até hoje.

Mais polidos?

Mais polidos, mais civis no sentido de civilizados, aqueles em que o progresso da arte e das ciências se fez de uma forma mais apurada. Numa metáfora à volta deste aperfeiçoamento, falo da distinção entre destilação e fermentação, entre duas formas diferentes de entender a evolução da cultura. Uma forma é a típica do século XVIII, por destilação, ou seja, quanto menos mais, quanto menos melhor, e significa que chegámos ao saber puro e excluímos tudo o que é superstição, uma obsessão típica da época. No século XIX, com o romantismo e o liberalismo, há uma visão pluralista da evolução da cultura, que se prolongou até hoje - uma ideia da evolução por fermentação. Quanto mais melhor, quanto mais ideias melhor, quanto mais contradição no espaço público melhor porque entre vários erros alguns hão de acertar.

Isso continua a ser o pano de fundo das nossas conversas?

Há fases da história da cultura em que podemos ter um tipo de metáfora mais dominante do que outro, mas tenho a impressão de que estas metáforas da destilação e da fermentação correspondem quase a necessidades psicológicas, cognitivas. É o que sentimos no dia-a-dia. Às vezes antes de escrever um texto, não se percebe bem porquê, precisamos de arrumar a secretária, de tirar a folhas todas que lá temos. Há meia hora, há duas horas que devíamos estar a escrever o texto e entretanto estivemos a arrumar a casa. Isso é a destilação. Outras vezes fazemos o contrário. Precisamos de escrever um texto, estamos bloqueados e vamos buscar tudo o que temos à nossa volta, livros, recortes de jornal, músicas, coisas que nos disseram, passamos o dia na internet, vemos o mail. Essa é a ideia da fermentação. Se precisamos dessas duas abordagens à nossa história pessoal das ideias todos os dias, às vezes em sucessão, como movimentos peristálticos, a meta-metáfora é que na história da cultura também temos fases diferentes que encontramos nas artes, com o surrealismo - fermentação, com o minimalismo - destilação, por exemplo.

Temos a ideia do censor do regime de Salazar e Caetano que era pouco polido, que censurava coisas porque encontrava uma palavra que achava duvidosa. Na Real Mesa Censória os censores, que são chamados deputados, são sábios, grandes intelectuais.

A Real Mesa Censória dura nove anos com o Marquês de Pombal, depois dura mais um pouco e volta ao sistema anterior, em que os livros iam a três instituições - à Inquisição, aos bispos e ao desembargo do Paço. O Pombal tem uma visão, de quando foi embaixador em Viena, de que a esfera pública é uma arena onde se fazem os grandes debates sociais. A esfera pública é um conceito nascente no século XVIII, é aquilo que ainda hoje não é nem exatamente privado nem exatamente oficial. Pombal acredita nela, mas acredita que só pode existir se ordenada a partir de um ponto de onde emana a luz. E esse ponto, para ele, é o rei. É muito diferente do que acontecia com a Inquisição e as outras instituições de censura, porque ele pensa que é preciso mudar radicalmente o sistema e criar uma caixa negra, a Real Mesa Censória, com 20 dos homens mais sábios do reino. Segundo ele, evidentemente.

Era a opinião dele, sempre?

Sim, havia outros tão ou mais sábios no exílio, outros eram judeus, como o Ribeiro Sanches, e não podiam voltar, outros tinham-se convertido ao protestantismo, como o Cavaleiro de Oliveira. Os 20 eram os que o Pombal achava que, estando dentro do reino, sendo tementes a Deus e leais ao rei D. José, poderiam ler todos os livros. Os que eram escritos em Portugal e eram escolhidos para ser impressos, os que chegavam do estrangeiro.

E eram traduzidos?

Ou eram traduzidos ou eram vendidos em língua estrangeira, em livreiros como o Bertrand, que já existia na altura, e muitos outros. E liam as peças de teatro, umas para ser impressas e outras para ser representadas. Tomaram a decisão muito clara de, por decreto, mudar o gosto teatral dos portugueses. O teatro espanhol, o que se via mais em Lisboa até à altura, passou a ser proibido. Há 250 anos, em maio de 1768, o teatro espanhol passou a ser considerado inverosímil, com personagens incredíveis, por razões estilísticas que escondiam razões políticas. E o teatro francês, principalmente o de Molière, passa a ser o oficial. Esse momento é marcado pela representação do Tartufo de Molière, a peça Tartufo ou o Hipócrita, que põe em cena um falso devoto que engana uma família fazendo-se passar por muito religioso mas só querendo ficar com o dinheiro e - toque um bocadinho óbvio mas muito pombalino - o Tartufo aparecia vestido de jesuíta.

E é desmascarado por ordem do rei, o que não acontece no original.

Um ministro, um valido do rei, que está ali a dizer o Tartufo são os jesuítas, o ministro do rei é o Marquês de Pombal que vem abrir os olhos e deixar entrar a luz no reino contra a superstição. A propaganda de estado, e no caso a propaganda do rei, nunca se caraterizou pela grande subtileza, e aqui é muito ostensiva. Mas não eram só livros e peças de teatro, ainda liam cartazes, cardápios de restaurantes...

... os cartazes das corridas de touros, os calendários e as figuras dos santinhos...

...e livros que não servem para ser lidos, e que perduraram até ao século XX. A minha mãe lembra-se disso ali na zona de Alenquer. São livros muito pequeninos que se usam como amuleto e até as pessoas analfabetas os usam porque têm, por exemplo, uma oração a Santa Bárbara contra trovoadas. No interior de Portugal e no interior do Brasil muita gente diz a famosa novena: "Santa Bárbara se levantou, seu pezinho direito calçou...",. Havia quem imprimisse esses livros em formato muito pequenino e serviam para usar na algibeira.

Esses livros foram banidos?

Sim, mas isso causa polémica entre os censores, porque alguns acham - então se isto são só orações, qual é o mal que povo seja devoto? Outra das posições é que este livro nem sequer serve para ser lido, é para as pessoas analfabetas, portanto a questão não é o conteúdo, é a maneira como vai ser usado.

É um amuleto?

Uma maneira de usar supersticiosa que acredita que se fizermos uso de determinadas palavras, dizendo-as nas orações ou usando na algibeira, elas têm efeitos físicos, podem causar ou impedir trovoadas. Isto era muito complicado para o pombalismo.

Porque não era ciência?

Por isso e pelo Terramoto. Uns anos antes, em 1755, o Terramoto tinha devastado Lisboa e muitos outros lugares do reino. E houve gente que disse que o Terramoto era um castigo de Deus.

Nomeadamente Malagrida?

Sim, um jesuíta italianos vindo do Brasil que dizia que os lisboetas eram maus católicos porque os moços e moças iam à missa mas era para trocarem bilhetinhos namoradeiros e que por causa disso Deus tinha decidido castigá-los

Mas a solução do Marquês de Pombal para ele foi radical, não foi?

O Malagrida foi a última vítima da Inquisição. Há esta ironia trágica de uma Inquisição que passou 200 anos a perseguir hereges, principalmente judeus, ou melhor, cristãos-novos que judeizassem, e acaba a queimar um jesuíta muito devoto. A explicação oficial do reinado de D. José e do pombalismo é que o terramoto é um efeito natural, de causas naturais, naturalmente provocadas. Nem sequer as causas naturais foram provocadas por Deus, têm outras causas naturais e se olharmos para trás todas têm causas naturais. Não se sabia explicar por que acontecia um sismo, mas passa a ser oficial que ninguém acredite que é por causa de se dizer ou não determinada oração, fazer ou não muitas procissões, que há terramotos ou deixa de haver.

Só 20 anos depois de chegar ao poder Pombal cria a Real Mesa Censória. Porquê?

Simplificando, o pombalismo tem três fases. Em 1750, Pombal entra no governo como secretário de estado dos negócios estrangeiros. Havia dois outros secretários de estado mais velhos, para os negócios do interior e da guerra, se não me engano. Ele é o mais jovem, apesar de ter 50 anos, nasceu em 1699. A primeira fase tem nove anos, com o Terramoto como evento central, a seguir ao qual ele assume grande parte do poder. Em 1759 há o atentado ao rei, a expulsão dos jesuítas e começa o processo dos Távoras, é a consolidação desse poder. Em 1768, ele dá início ao que poderíamos chamar, de forma um bocadinho provocatória, a sua revolução cultural.

Não é só a Real Mesa Censória, toma outras medidas com impacto?

1768 é um ano dedicado ao que chamaríamos política cultural, só que para ele essa é a política propriamente dita. É fundada a Real Mesa Censória e também a Imprensa Nacional, é fundado o Real Colégio dos Nobres (Escola Politécnica, Faculdade de Ciências), um colégio para os nobres dirigido pela Real Mesa Censória, que geria um imposto específico criado por ele chamado Subsídio Literário, cobrado sobre as bebidas alcoólicas e que servia para financiar os estudos. São introduzidos novos manuais de aprendizagem do latim - proíbe-se os dos jesuítas e passam a ser oficiais os de António Pereira Figueiredo, um dos censores mais importantes do Pombal. Muda-se o gosto teatral dos portugueses que, a par das touradas, era o espetáculo coletivo mais importante, pelo menos para a Lisboa da época. Reforma-se os estatutos da Universidade de Coimbra, sempre com uma visão quase maniqueísta do Pombal de que é preciso rejeitar o passado a que ele chamava escolástico, aristotélico e que ele ligava ao ensino dos jesuítas. Muitos manuais da Universidade de Coimbra foram proibidos. A Universidade de Évora, que era jesuítica, é encerrada. Por outro lado, há uma opção por um tipo peculiar de Luzes. O regime cultural autoproclama-se como iluminado, como esclarecido, como sendo das Luzes, mas de uma forma diferente da que costumamos ver nos livros da Filosofia Clássica como as Luzes dos chamados Philosophes.

Dos filósofos franceses da Enciclopédia?

Dos franceses como o Rousseau, o Voltaire, o Diderot, o D"Alembert. São todos muito diferentes uns dos outros, alguns partilham com os censores portugueses a ideia de que para se ser iluminado é preciso não se ser pluralista - eles não usavam esta expressão.

O pluralismo aparece no século seguinte?

A expressão aparece depois. Eles usam de forma negativa para proibir livros, para os "suprimir", a expressão tolerantismo, que corresponde a uma visão do mundo em que a tolerância é má. Tolerar era uma palavra com uma aceção negativa. No caso britânico, com John Locke, no caso francês e europeu muito ligado ao Voltaire, tolerar quer dizer aguentar, suportar. Tolera-se uma dor de dentes. Ter de tolerar a heresia, os protestantes ou os judeus, minoritários do ponto de vista dos católicos, era ter de suportar porque não se podia exterminar.

É uma das palavras cujo significado muda com o tempo?

Muitas mudam no século XVIII. O poder político do Pombal e do rei D. José implementa-se de cima para baixo, a primeira palavra é do rei, a última é da censura. E é anti-pluralista. Admite a necessidade das Luzes para procurar a verdade mas essas luzes são determinadas pelo rei e não pode entrar uma contradição entre verdades diferentes. Mas por aqui, pela Europa, pelo mundo todo onde há uma rede de conhecimento e de informação a que chamavam a República das Letras, está a acontecer uma outra revolução cultural subterrânea, uma verdadeira revolução que muda o sentido destas palavras. Voltaire dá um sentido positivo à tolerância. Mas os censores em Portugal proíbem livros por tolerantismo, por indiferentismo, que é uma outra doutrina. Tolerar já era mau, mas há os que dizem "é indiferente, os hindus têm coisas que achamos que são superstições mas quando eles olham para as nossas rezas, santos, rituais, certamente dizem que as superstições são as nossas e que a verdade é deles, portanto está ela por ela". Isto era o indiferentismo.

Que também não é aceite?

Não é aceite de todo. E há uma outra ainda mais rejeitada e que tem uma ligação importante com Portugal porque a figura filosófica por trás é um judeu de origem portuguesa de Amesterdão, Bento Espinoza, que nasceu numa família que falava e escrevia português, que comerciava figos secos do Algarve no tempo do Rembrandt. O Espinoza e um outro judeu português do século XVI chamado Francisco Sanches, de Braga ou talvez da Galiza, eram considerados próximos do pirronismo. Era uma doutrina de dúvida radical que vinha da Grécia Antiga, do nome de um filósofo.

Pirro?

Pirro de Eleia, que respondeu à frase de Sócrates - o Sócrates da Antiguidade, claro está - "Só sei que nada sei", com: "Pois eu nem isso sei". Era tão cético que até dessa dúvida radical do Sócrates tinha dúvidas. O livro pirronista de Francisco Sanches chama-se Quod nihil scitur, nada se pode saber. Nós não podemos ter a certeza de nada. Isto para os censores, então, é o pior de tudo, é o caminho para uma dúvida que dissolve tudo.

O rei define o rumo mas quem o define na verdade é o Marquês de Pombal?

O Pombal e às vezes os censores. Isso dá controvérsias muito engraçadas de que os contemporâneos tinham pouca ideia, porque tudo aquilo é secreto.

Há pouco falou em caixa negra e é mesmo isso, é opaco.

É tudo secreto. Na censura anterior, as censuras positivas, as que aprovavam os livros, eram publicadas à laia de prefácio e por isso muitos censores exageravam na erudição. Punham muitas notas de rodapé, textos muito barrocos ou gongóricos. D. José, no decreto que funda a Real Mesa Censória, impõe aos novos censores que não se ponham a alardear falsas erudições. Não vale a pena encher as censuras de termos caros porque fora da instituição ninguém vai ler. A expressão dos poetas neoclássicos era inutilia truncat, tirar tudo o que é inútil. Mas às vezes entram em polémica e uma delas é muito interessante para quem vê as polémicas portuguesas atuais à volta do Acordo Ortográfico.

De facto os textos estão escritos de variadíssimas maneiras.

Os censores da Real Mesa tinham a obrigação de achar uma norma ortográfica para o reino. O Verney, um iluminista exilado, tinha proposto a sua norma ortográfica fonética, hoje seria um acordista. Outros eram etimológicos, seriam os anti-acordistas da época. Durante anos os censores entraram em polémicas, havia um especialmente fastidioso chamado Luís de Monte Carmelo, já ninguém o aturava. Há cartas em que eles escrevem uns aos outros a dizer "aquele tipo é fastidioso com esta coisa da ortografia". Finalmente, estão quase a chegar a uma decisão, e uma das decisões é que não precisamos da letra Y em português porque não se pronuncia de maneira diferente.

É aí que desaparece o Y?

Não, porque um censor se lembra de que o rei usa o Y na sua real firma, ou seja, na sua assinatura, escreve el-rey. Depois de um ano e tal a discutir a norma ortográfica, nem os sábios mais sábios do reino conseguem. É uma sina antiga.

Começa o livro por um momento simbólico a inauguração da estátua equestre de D. José no Terreiro do Paço. O próprio rei não está na festa, a estrela foi o Marquês de Pombal.

Essa estátua, para o pombalismo, foi o fecho da abóbada da reconstrução de Lisboa após o Terramoto. Está virada para o Tejo e não para a cidade como antes em geral. D. Sebastião quis fazer uma nova igreja no Terreiro do Paço virada para a cidade. Ali faz-se virada para o Tejo com a tal obsessão do estrangeiro: os que chegam pela barra do Tejo a primeira coisa que vão ver é o autor daquela grande obra que é a reconstrução de Lisboa, e esse autor é o rei. Mas quando o Marquês de Pombal puxa o pano de veludo que tapa a estátua no pedestal está um medalhão de bronze com ele próprio, o que entre os seus inimigos gerou grande comoção. Esse medalhão andou várias vezes para cá e para lá, no reinado de D. Maria foi retirado, voltou com o liberalismo, depois creio que voltou a sair mais uma vez.

Agora está lá?

Agora está. Essa inauguração da estátua é um momento para mostrar ao reino e lá fora como o país se encontra ilustrado, esclarecido. Há uma encenação que dura três dias, a certa altura com carros alegóricos, uma espécie de Expo da altura, se me é permitida a comparação um bocadinho selvagem. Cada um dos carros representa um continente, encontram-se no meio da praça vindo dos quatro cantos. Uma parte da praça não estava acabada, era só cenário.

A ala ocidental?

A parte que hoje é do lado da Câmara Municipal, a parte do Arsenal, que era para ser a biblioteca pública do reino.

Aí está outra contradição: os censores são encarregados de criar uma biblioteca?

Sim, até porque a censura, forçosamente, tinha uma espécie de depósito legal, recebia os livros todos. Ficava com os que eram aprovados e os suprimidos ficavam dentro dos armazéns da Real Mesa. Os outros iriam para a biblioteca pública. É essa biblioteca que depois vai para o Rio de Janeiro, em 1808, com a família real, quando as tropas francesas chegam a Lisboa. O presidente da Real Mesa, Manuel do Cenáculo, é o fundador de três ou quatro núcleos de bibliotecas importantes, como a pública de Évora e outra em Beja. A Biblioteca Nacional também tem um núcleo importante que vem deste tempo, tal como a Biblioteca Real da Ajuda.

A Biblioteca Nacional não tinha ficado destruída no Terramoto?

A Biblioteca Real que D. João V tinha enriquecido muito. Perderam-se alguns manuscritos que eram exemplares únicos, diz-se que alguns da Grécia Antiga. Como historiador, tento manter uma distância de segurança e não exprimir desejos em relação ao que deveria ter sido o passado, isso não é trabalho meu. Mas confesso que, como fã de bibliotecas, me dá muita pena que essa não tenha chegado a acontecer. Um mês antes de o rei morrer, já esperando ser exonerado, o Marquês de Pombal envia uma ordem à Real Mesa Censória para começar os trabalhos da biblioteca, mas não vai a tempo. É a ideia de que toda a cidade é um livro, que na capa desse livro está o autor, o rei D. José, com o seu ministro. Há toda uma ligação entre a ideia de autoria e a ideia de autoridade que naquela fase do despotismo esclarecido, ou paternalismo benevolente, outro paradoxo no tempo dos censores iluminados. Para eles é a mesma ideia. Para nós, a autoria, do romantismo em diante, é a ideia de fazer qualquer coisa de interessante, e para eles é algo de útil. Temos uma ideia de auto-expressão, o autor é alguém que fala, que se autodescreve, auto-escreve. E ali é uma autoridade que tem de ter autoridade sobre os autores também. Algum consenso eles sempre têm de ter. Por exemplo, se a física aristotélica não é admissível mas a física newtoniana ainda não é admissível, eles dizem: então a física do reino é a cartesiana, a física mecânica, e é essa que passa a ser a oficial. É uma ideia estranhíssima para nós. Hoje não achamos que a ciência funcione assim, mas aqui está como o pluralismo tem um parto difícil, nos países católicos mas não só, em que as luzes são luzes porque combatem a superstição.

O obscurantismo?

Combatem o obscurantismo pelo conhecimento, mas por outro lado são anti-pluralistas porque acham que conhecimento só pode haver um, não pode haver vários concorrentes.

Coloca aqui a questão das ideias que teriam nascido se a censura não existisse. A questão da censura está subjacente a qualquer regime?

Está e é irresolúvel. Muita gente diz: naquela altura havia censura, nem tudo se podia dizer. Outros dizem: havia censura mas tudo se dizia. As duas coisas podem ser verdade, tal como há muitas ideias que podiam ter nascido, ou nascido mais cedo, se não houvesse censura, também há muitas ideias que nascem, ou nascem daquela maneira, porque há censura, como formas imaginativas de escapar. Ou até como forma de dizer coisas que na superfície parecem devotas mas quando as lemos com outros olhos são radicais. O Voltaire escreve uma peça que é contra o Maomé, e os bispos católicos franceses ficam todos muito contentes porque é uma peça contra os hereges, os muçulmanos, os infiéis.

Porém, o que ele quer dizer é?

É que o fanatismo religioso é igual em todo o lado. Só tempos mais tarde eles veem que ele não está a falar dos muçulmanos.

É como ler nas entrelinhas por causa da censura, no tempo de Salazar?

Ler nas entrelinhas, ler imaginativamente aquilo que um historiador da Filosofia, Leo Strauss, chama a perseguição e a arte da escrita, ou seja, como a arte da escrita é uma reação à perseguição. Penso até, para dar um salto para a atualidade, que muitos temas prementes no século XVIII regressam hoje. Depois de uma fase em que nós somos convictamente pluralistas, chega uma fase - natural para quem conhece as várias revoluções tecnológicas que tiveram impacto sobre a cultura, como a invenção da imprensa, da rádio, da televisão, etc. - em que há uma reação de medo em relação ao excesso de informação. No século XVIII também tinham, dizem que há livros a mais, não se consegue ler tudo. Hoje temos essa reação com a internet, com as chamadas fake news. Há uma tentação por parte do estado de criar gabinetes para distinguir o certo do errado. Não nos compete, ou não me compete a mim pelo menos, misturar historiografia com política atual, são duas coisas em que tenho mexido e dois canais completamente em separado.

Como se tivesse o cérebro dividido em dois?

Tenho cuidado. Também tenho livros de política. As pessoas sabem o que eu acho, que convicções tenho, conhecem-me do percurso político, do comentário, das colunas do Público. Podem ler os livros porque a construção dos argumentos está tão à vista quanto eu desejo. Se alguns políticos lerem este livro verão que a ideia de criar gabinetes para distinguir as notícias falsas das verdadeiras é uma ilusão que se arrisca a colapsar sob o seu próprio peso. É uma missão impossível, como impossível, de certa forma, foi a tarefa da Real Mesa Censória. Sendo que dentro deste impossível há impactos das políticas que são reais. Por causa da Real Mesa Censória se calhar alguns livreiros faliram ou estiveram muito perto disso, porque havia muito mais livros proibidos do que antes, entre os livros importados.

O seu interesse pelo século XVIII, no fundo, está relacionado com o seu interesse pelo século XXI?

O meu como cheguei ao século XVIII é muito diferente do meu porquê. O como tem a ver com mestres que tive na universidade e me influenciaram, como o António Hespanha, que apresentou o livro, o Pedro Cardim, a Ângela Barreto Xavier e outros. Eu tinha pensado estudar Antiguidade ou Contemporânea, sendo um bocadinho de extremos, e acabei por me decidir pelo século XVIII. Depois percebi que há dois séculos da minha predileção, que tenho estudado muito. O outro que gostaria de vir a estudar bem no futuro é o século XVI. Nestes dois séculos vê-se a mudança a acontecer. O XVI é um século extraordinário, mais mudança do que a que eles viram talvez só nós. É a geração do Erasmus de Roterdão, do Thomas More, do Damião de Góis.

É a abertura aos novos mundos?

É uma geração que vê o mundo ser muito diferente daquele com que nasceu e começa a pensar em Europa porque a cristandade em que acreditava entra em guerra de religião. É uma geração que começa muito otimista, com A Utopia, em 1516, e acaba com o Thomas More a ser decapitado por enfrentar o rei de Inglaterra, Henrique VIII, por não querer que a cristandade se separasse. Há uma revolução cultural. No século XVIII também. A minha razão de fascínio pelo século XVIII tem a ver com isto: é impossível pensar o nosso tempo sem ir à história do século XVIII, é tão rica e tão fascinante que uma pessoa perde-se lá dentro e depois demora-se muito tempo a escrever livros.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG