O fim do amor num ringue de boxe: em vez de socos, lutar com palavras

Victor d"Oliveira e Gracinda Nave são um casal na sua última discussão em "Final do Amor"

"Eu queria ver-te para dizer que acabou. Não vai continuar. Não vamos continuar. Eu não te ataco, eu falo. Chega uma altura em que as coisas têm de ser ditas." No palco estão um homem e uma mulher. Victor e Gracinda. É ele que fala primeiro. É ele que diz: "Acabou." O que dizer quando sentimos que já não temos mais nada para dizer à pessoa que antes amámos? Depois fala ela. É ela que pergunta: "Eu dizia o meu amor e olhava para ti, agora eu olho para ti e já não te reconheço." O que dizer quando já não reconhecemos a pessoa ao nosso lado. É isso mesmo que acontece em Final do Amor, o espetáculo que Victor Oliveira encena e interpreta, com Gracinda Nave, a partir do texto do francês Pascal Rambert. Vai estar em cena a partir de amanhã e até sábado, no Pequeno Auditório da Culturgest, em Lisboa.

Victor d"Oliveira nasceu em Moçambique mas foi em Lisboa que se apaixonou pelo teatro, tendo-se formado no Curso de Atores do Instituto Franco-Português. "Tive vários professores portugueses e franceses, a relação foi-se aprofundando. França era, para mim, um ponto de referência em termos de teatro e cinema. Então, fui para Paris, entrei para o Conservatório Nacional e vivo lá desde 1994."

Trabalha em França mas também na Bélgica e na Suíça, sobretudo em torno da dramaturgia contemporânea. Desde então, Victor só trabalhou duas vezes em Portugal: em 2000 apresentou no Festival de Almada Magnificat, a partir de textos de Fernando Pessoa, e em 2006, também integrado no festival, interpretou Na Solidão dos Campos de Algodão, ao lado de Diogo Dória, numa encenação de Philip Boulay.

Dizer o amor em português

Em 2011, Victor viu Clôture de l"Amour no Festival de Avignon. O texto e a encenação eram de Pascal Rambert, dramaturgo, encenador, realizador e coreógrafo até aí pouco conhecido mas que rapidamente se tornou um dos nomes incontestados do teatro europeu atual. "Fiquei bastante impressionado, quer pela escrita quer pelo trabalho dos atores", lembra Victor d"Oliveira. "Foi algo que ficou em mim e pouco a pouco foi-se desenhando a vontade de fazer aquela peça e fazê-la em português."

"É tão raro no teatro contemporâneo haver uma peça só sobre o amor, ou sobre o fim do amor. Isso é algo que me interessa. E a maneira como Pascal Rambert trata a separação amorosa é muito forte." Mas, além disso, o que seduziu o ator foi também a importância da linguagem nesta peça - "é uma língua teatral e ao mesmo tempo poética e ao mesmo tempo concreta, banal por vezes, e a articulação entre esses vários tipos de linguagem era um desafio."

Um desafio ainda maior que, no seu quotidiano só fala português com a filha pequena e, confessa, "com alguma vergonha", há até expressões de que já não se lembra. Foi Victor d"Oliveira que traduziu a peça, tendo recebido depois uma ajudinha da atriz Gracinda Nave e, ainda, do programador de teatro da Culturgest, Francisco Frazão. "Foi muito difícil, porque mais do que o final de uma relação o tema da peça é: como é que nessa situação de dor íntima, profunda e de raiva e de amor tudo junto, nesse tipo de situação extrema que todos, mais ou menos, devemos ter vivido pelo menos uma vez, como é que se encontram as palavras? Quando a dor é tão grande que já não há palavras, onde é que eles encontram palavras para falar durante 40 minutos? Que palavras são e como é que eles as fazem surgir? E é por isso que eles têm imenso cuidado com as palavras e até as repetem, sim, é isto que quero dizer, é exatamente esta a palavra."

Como um ringue de boxe

Victor d"Oliveira olha para a "última discussão" deste casal como "um combate de boxe". Uma luta em que as palavras são usadas como socos. Certeiros. Primeiro fala ele. Depois ela pergunta: "Acabaste?" E fala ela. Teoricamente são dois monólogos, mas na verdade é a um diálogo que assistimos. A duas pessoas que se agridem sem nunca se tocarem. Ele diz: "Esta vida que deveríamos viver juntos, não a vou viver contigo. Vou-me embora. Já não te amo." Ela diz: "Eu sou prisioneira. Imagina uma grande rede, eu estou lá dentro e já não aguento mais."

Teve mais dificuldade em decorar o texto, foi mais difícil encontrar o tom correto, mas talvez fosse essencial para Victor dizer este texto numa língua que não é, já, a sua língua natural: "Porque estou fora, tinha uma grande preocupação em saber o significado preciso de todas as palavras e, depois, ir para além do sentido imediato destas palavras e encontrar um segundo sentido, um terceiro sentido. Porque esta não é uma discussão qualquer. Não são o Victor e a Gracinda a discutir. É algo mais." Aquele homem e aquela mulher podíamos ser nós. A sangrar.

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