Mário de Carvalho: "O hábito de conversar sobre livros está a transferir-se para as redes sociais"

Estar ou não no Facebook é tema pouco abordado entre os escritores, mas Mário de Carvalho não se importa de falar sobre o assunto e analisar o seu efeito na literatura.

Onze contos reunidos sob o título Burgueses Somos Nós Todos ou ainda Menos fazem o novo livro de Mário Carvalho, com uma dedicatória em que assume que "não posso fazer dum texto o que quiser" porque tem em conta o leitor. Atitude rara nos escritores e que defende assim: "A escrita implica um ato de comunicação; escrevo para alguém, mesmo que não saiba exatamente para quem, e tenho a consciência de que este trabalho implica sempre uma parceria com o outro - que também faz o livro." Se se escolher o tópico da Lisboa de Eça de Queirós, diz, a conversa terá "sempre que ver com a vivência pessoal e cultural que o leitor transporta para dentro do texto", daí que o autor esteja limitado por convenções: "A primeira é a língua. Até poderia escrever numa língua inventada, mas seria uma gracinha e não sou muito dado a esse tipo de coisas." A invenção fica para a literatura, assegura, mesmo que em alguns destes contos utilize parte da sua vida, como na descrição pormenorizada de um cemitério. É real?, pergunta-se: "Deve assemelhar-se ao do Alto de São João e à lembrança que tenho de um choque de brancura e de silêncio que existe lá, mas o leitor verá outro cemitério." Ou os quintais de nespereiras que se veem da janela onde acontece a entrevista.

Já teve curiosidade no perfil do leitor que compra os seus livros?

Não é coisa que ande a indagar, mas ao fim destes anos todos estou convencido de que são bons leitores. Citando o Óscar Lopes, escrevo para um leitor capaz de ser autor do livro, de acompanhar uma certa cadência e tratamento da língua e aproveitar algo com isso. Creio que não chego facilmente ao leitor menos exigente e com pouco contacto com a literatura portuguesa e quem leia menos os clássicos talvez entre com mais dificuldade nos meus livros.

Principalmente quando usa palavras que exigem o dicionário?

Não as uso para exibir vocabulário! Às vezes demoro dias a descobrir a palavra que o texto pede e, como a nossa língua é muito rica, não me limito aos 22 mil vocábulos mais usados - gosto de a aproveitar. Prezo muito os escritores que têm trabalhado a língua, como o Aquilino [Ribeiro] ou a Maria Velho da Costa, que utilizam esta matéria-prima de uma maneira excecional.

No caso de Aquilino, os leitores não desconhecem a maioria das palavras que o escritor utiliza?

Pois... é necessário muito gosto pela língua e pela literatura para ler um autor como Aquilino, mas é imprescindível fazê-lo porque é, seguramente, o grande escritor do século XX devido à plasticidade, à riqueza da língua e à capacidade de construção. Tal como um músico deve conhecer Mozart e Bach, os grandes autores devem ser conhecidos.

Acha que os seus colegas da nova geração o conhecem?

Ainda vão a tempo...

Aquilino é, então, o maior escritor do nosso século XX?

Não tenho dúvidas, e o século XX é o século de ouro da literatura portuguesa. Existem autores enormes: José Cardoso Pires, Saramago, Agustina, mas o Aquilino sobreleva tudo. É um grande monumento, culto, vivido e trabalhador incansável.

Quando começou a escrever estava rodeado de grandes nomes. Agora, não restam assim tantos...

É a sua opinião...

O que refuta?

Não refuto que estava rodeado de grandes nomes e que talvez me seja difícil neste momento evocar alguém que tenha essa dimensão, mas também é preciso dar tempo ao tempo. Não teremos neste momento em relação a alguns autores a distância suficiente para os avaliar, além de que na altura eu tinha outra idade e capacidade de admiração, hoje tenho má boca e é muito provável que textos que me fascinavam hoje me sejam indiferentes.

Mas quando lança o primeiro livro estava ou não mais bem rodeado?

Eles eram mais velhos, mas dava muito prazer estar com o Cardoso Pires, que era um homem divertido e peremptório nas opiniões, mesmo que nem sempre corretas. Havia na altura uma situação que desapareceu, ou sou eu que estou alheado: uma vida literária em que as pessoas se encontravam, conversavam, liam as coisas umas das outras e com relacionamentos pessoais. Isso desapareceu com a minha geração literária, vejo-os de raro em raro, até porque acabou a época de muitas viagens que permitiam encontros no estrangeiro e ter boas memórias.

Os festivais literários não replicam esses encontros de antigamente?

Recebo muitos convites, mas já passámos da fase convivial e dissemos tudo o que havia a dizer. Não há necessidade de estar a repetir o que é consabido. E nunca fui um amante de viagens, apesar de naquela altura ter mais disponibilidade para fazer as malas e gramar a comida italiana, porque era a mais barata. Agora, gosto mais da minha rotina.

Este livro segue-se a outro de contos e tudo começou com os Contos da Sétima Esfera. É o fecho de um ciclo ou voltar ao princípio?

Ando por várias pistas e tenho feito de tudo: escrita para cinema, teatro, romances, novelas e contos. Hesitaria chamar contos ao penúltimo livro, Ronda das Mil Belas em Frol . São mais casos rápidos, como os Casos do Beco das Sardinheiras [1982], de um homem que tem contactos com umas duas dezenas de mulheres e dá o seu ponto de vista.

Um ponto de vista que está em contraciclo com o das redes sociais. Não receia uma reação contra um olhar tão masculino?

Porque duvidariam de que o meu olhar seja o masculino e com todas as implicações que isso tem? Sempre foi tão assumido que as mulheres perceberam muito bem e não houve posições contra. Ser-me-ia mais difícil escrever sob o ponto de vista feminino. Talvez lá chegue.

Neste novo livro, as mulheres têm menos papel. Porquê?

Não estou de acordo que tenham um papel menor e logo no primeiro conto há uma armadilha montada pelas mulheres. São os dois lados.

Os homens são muito enganados!

É para isso que eles lá estão. As mulheres são mais atentas e argutas.

Em ambos o sexo está muito mais presente do que nos seus trabalhos anteriores. O que se passa?

Mais no anterior do que neste, que não é tão dirigido para o sexo. Faz parte da vida e como estes são burgueses não há razão para fugir a esse relacionamento essencial e estruturante entre homens e mulheres. Escrever sobre sexo não é fácil, facilmente se cai na obscenidade ou na vulgaridade ao falar do corpo.

A única ausência de relações nestes contos é entre o mesmo sexo...

É minoritário e não me sinto obrigado a falar disso. Um dia destes.

Sendo um escritor com presença nas redes sociais não sente pressão em certos temas nos livros?

Talvez exista alguma pressão, algum fanatismo, algum excesso de militância e um abuso dos slogans. Estou -me nas tintas, porque não funciono com bandeiras na observação da vida. Tenho a noção da complexidade das coisas e do que não sei e muita dificuldade em aderir a prédicas. De forma alguma me deixo arrastar por modas nem ando a escrever o que os outros escrevem desde o primeiro livro. Nem sequer me apresso a ler os autores que são recomendados. Não é arrogância, é uma maneira de estar.

Na sua dedicatória também não esquece a inexistência da crítica...

Não estamos muito bem servidos neste momento de crítica literária, mas essa é uma opinião geral pois há pouca menção de livros e pouco acompanhamento. Até parece que há a preocupação em dar a conhecer autores estrangeiros em vez dos portugueses. O meu Cronovelemas vendeu bastante bem e não teve praticamente um registo nos jornais. Senti-me ocultado. Nem se percebe quais são os critérios de escolha deste ou daquele autor nas resenhas. O que acontece agora é que há expressão dos livros nas redes sociais e as pessoas trocam impressões sobre eles. Aquele antigo hábito de falar sobre literatura e conversar sobre livros está a transferir-se para as redes sociais.

É um grande utilizador?

De vez em quando faço grandes intervalos e não toco no Facebook, a não ser uma ou outra espreitadela. Ultimamente, uso-o porque é uma forma interessante de contactar leitores e receber as suas opiniões.

Considera que as redes sociais substituem-se aos jornais?

Há uma tendência para isso e os jornais começam a perder relevância, até recorrem às redes sociais com todos os inconvenientes que traz na deficiência de informação. Considero que os livros são mais mencionados e comentados nas redes sociais do que nos jornais.

Será preciso pertencer a um lóbi para ter críticas?

Creio que não, é muito fácil inventar razões e dizer que é o grupinho. Isso é demasiado conspiratório e não justifica o fracasso.

Voltemos a este livro de contos. Enquanto escritor revê-se nele?

Sem dúvida, porque escrevi o que queria. Felizmente, e já passei por várias editoras, nunca houve por parte de qualquer uma a menor intervenção e sempre senti liberdade no que escrevo. Este livro é o que me ocorreu e correspondeu a um período de um ano e meio na vida.

Neste livro ninguém deixa de perguntar o que é autobiográfico?

Já o Jorge Luis Borges dizia que todos os livros são autobiográficos, só que uns começam com "eu nasci em tal sítio e em tal data" e outros "era uma vez um rei que tinha três filhas". Provavelmente, alguma da minha vivência e de amigos e conhecidos aparece refletida nas páginas mas há que fazer a separação de águas entre o autor e o texto.

Tem praticado diversos géneros. Como é o confronto com cada novo registo?

Sinto sempre a curiosidade a exercer-se. Como é que funciona? Às vezes há desilusões ou o romance encalha e fica-se por cinco páginas.

Algum destes contos foi um romance falhado?

Talvez no conto do cemitério tivesse havido um impulso inicial para o romance que se ficou pelo caminho. Pode ser que ainda aconteça...

Burgueses Somos Nós Todos ou Ainda Menos
Mário de Carvalho
Porto Editora
113 páginas
PVP: 16,60 euros

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