Todos cabem no sótão da Tia Mira

Os diálogos imaginados entre uma tia e uma sobrinha pela editora Fernanda Mira Barros e ilustrados pela artista plástica Joana Villaverde inauguram uma nova chancela da Cotovia, a Libelinha.

"Tia Miiiiira!" É sempre assim que começam, com mais ou menos "is", os diálogos entre a Tia Mira e a sua sobrinha de oito anos, que sobe (ou galga) os degraus de sua casa para chegar até ao apartamento-sótão onde vive a primeira. Antes de mais, um exemplo dos diálogos, para lhe se lhes perceba o tom: " - Se eu a ouvir dizer outra vez "gajas", nunca mais lhe falo. - Nunca mais durante quanto tempo?" Escritos por Fernanda Mira Barros, editora da Cotovia, sozinha à frente daquela casa desde a morte de André Jorge, em 2016, e ilustrados pela artista plástica Joana Villaverde, os diálogos compõem Tia Mira, o livro que inaugurou a chancela Libelinha, da Cotovia.

"Comecei a escrever nem lhe sei dizer como. Sei que o primeiro diálogo da Tia Mira com uma criança era na verdade uma história qualquer que me tinha surgido num café. Ouvi uma miúda dizer qualquer coisa à mãe e aquilo remeteu para coisas da minha relação com as minhas sobrinhas, mas depois ganhou autonomia." Fernanda Mira Barros começou por pôr a Tia Mira e a sobrinha cujo nome nunca conhecemos na sua página do Facebook. "Escrevia quando tinha uma ideia, às vezes quando tinha de fazer coisas muito, muito chatas, ia para o Facebook e em vez de escrever outra parvoíce qualquer começava com: "Tia Mira", porque aquilo começa sempre da mesma maneira, e isso é o tiro, o motor.

Embora a sobrinha mais nova já tenha hoje 18 anos, e não seja por isso preciso corrigir-lhe as palavras como a Tia Mira faz à sobrinha, Fernanda guarda memórias dos tempos em que ficava com elas e, como detesta brincar - "Não queria ficar a fazer joguinhos, ou a fazer de mãe ou de médica, não tinha paciência" -, inventava jogos que as faziam falar. "Mantenho essa atenção às crianças, e acho que sempre aprendi muito com elas, aquela visão do mundo ao lado da dos adultos, acho muita graça àquilo. Há uma coisa que já usei numa história, e que não me esqueço (como esta há outras), tem que ver com a visão das crianças sobre o mundo onde vivem, e no meu caso é um mundo muito burguês. Estavam duas das minhas sobrinhas a brincar às mães, tinham carteiras, colares, e eu estava a observar aquilo, tinham para aí 4 e 7 anos. E uma disse: "Você quer vir comigo às compras?" E a outra: "Não, eu não vou consigo às compras porque eu tenho imensas enxaquecas em mim." Nunca me esqueci:" imensas enxaquecas em mim" é genial", conta numa gargalhada.

Fernanda e Joana não se conheciam, mas eram amigas no Facebook, e Joana era leitora das histórias da Tia Mira. Um dia, Fernanda convidou-a fazer as ilustrações. "Só telefonámos uma à outra já a coisa ia avançada. Foi tudo por chat", explica Fernanda. "Eu nem queria ouvir a voz da Fernanda. Estava a adorar essa história. Tratava-a por tia Mira", continua Joana, que nunca tinha feito um trabalho do género, embora veja nele algumas semelhanças com o que faz em cenografia, sobretudo para o Teatro do Bairro.

Quando as ilustrações começaram a chegar, conta a editora, "era como se eu tivesse um vislumbre deste universo que para mim é mais de palavras, e subitamente há alguém que vem das artes plásticas e ilumina como um clarão; e eu vejo aquilo e é tal e qual." "Que exagero!", lança, ao lado, Joana. Há quem já empreste o seu nome à sobrinha e, de facto, ela admite algumas parecenças. "Acho que a menina é muito curiosa mas não tem paciência nenhuma para ouvir, ou é muito rápida a perceber e então já não tem paciência para ouvir o resto da conversa. "Pronto, despache-se, então já está, já está." E eu sou muito assim.

O modelo para a sobrinha foi "uma bonequinha que dança" e de que Joana gosta muito. Depois, resolveu recortar a x-ato o desenho, assim como elementos que vão de uma vaca a batatas fritas ou sapatos e, digitalizando-os, "pecinha a pecinha", multiplicá-los, dando-lhes no caso da sobrinha movimento num mesmo cenário. "No fundo é como uma maquetezinha só que bidimensional", explica.

"Eu posso zangar-me com a Joana para o resto da vida, e posso continuar a escrever a Tia Mira, mas acho que não vou querer mais ninguém nunca a ilustrar", afirma Fernanda. Joana haveria de lhe responder logo de seguida, e, por momentos, as duas quase perfaziam um desses diálogos em que o mundo se abre com as respostas de uma e perguntas da outra. "Mas porque é que se vai zangar comigo?" "Posso." "Ah pode? Não pode não." "Eu posso zangar-me com toda a gente", remata a Tia Mira, isto é, Fernanda Mira Barros, que faz questão de distinguir uma da outra, embora, quando se lhe pergunte o que as diferencia responda apenas: "Eu não vivo num sótão". "Espertinha", ri-se Joana.

As conversas entre a sobrinha e a Tia Mira hão de continuar. Já há, aliás, material para pelo menos mais um livro. Entretanto, da Libelinha já saiu outro livro: Resumo de 2017 Para Todos, de Miguel Somsen e Hugo Van Der Ding. É, segundo Fernanda, uma chancela que "existe para permitir o luxo que é a Cotovia, ou seja, ter uma coleção que não é viável economicamente. O objetivo é chegar a um público maior. Vai ser uma coleção para gente mais nova, irreverente, e que procura uma coisa diferente dos milhares de livros que saem por ano em Portugal, mas com qualidade."

Tia Mira
Fernanda Mira Barros (texto) e Joana Villaverde (ilustração)
Libelinha
PVP: 16 euros

Ler mais

Exclusivos