O engenheiro de som que nos quer dar música

Deu os primeiros passos na música a solo como Walter Benjamin. Redescobriu a língua portuguesa e, desde 2015, o lisboeta Luís Nunes é Benjamim para o mundo

Ao acaso pegou numa cassete, porque gostava de brincar com os botões da aparelhagem de som. Benjamim ressalva que já contou a história várias vezes, mas não há como a ignorar. O pequeno e curioso Luís, então com uns 5 anos, ouviu então um best-of de Beach Boys. Foi um momento revelador: "Acho que fiquei obcecado com aquela magia de fazer música. Tentava reproduzir aquelas harmonias na escola e não conseguia, era transcendente." Recorda-se também de quando os pais compraram o leitor de CD, que substituiu o vinil. "Chegava a casa e punha uma música em repeat 30 vezes, sem exagero."

Vendo a mãe tanto interesse do infante na música, inscreveu-o no violino quando tinha 6 anos. Conta que ao princípio ainda se entusiasmou, mas foi sol de pouca dura. "Violentei o violino, aquilo não era para mim, claramente." A música do cantor, compositor e multi-instrumentista hoje conhecido como Benjamim era outra. Exemplifica: "Quando tinha uns 8 anos liguei uma guitarra manhosa à aparelhagem através de uns auscultadores que colava na guitarra. Fazia guitarra com distorção e gravava cassetes. A minha obsessão com a música esteve sempre a par e passo com uma obsessão tecnológica. Se calhar porque o meu pai é engenheiro e também tenho o fascínio das máquinas." Esse fascínio materializou-se quando foi para Londres estudar engenharia de som e por ali ficou a viver e trabalhar como técnico de som. Foi assim que conheceu Barnaby Keen, com quem viria a gravar o disco 1986: a música de Chico Buarque, escolhida pelo lisboeta numa noite de concerto, aproximou-os (o músico inglês, que tem um grupo chamado Flying Ibex, viveu meio ano no Rio de Janeiro).

O título 1986 é uma alusão ao ano de nascimento de ambos. Uma dúzia de anos depois, o adolescente Luís tocava bateria num grupo formado com os "miúdos mais rebeldes". Da bateria (que começou por ser feita com caixas de bolachas e de mealheiros) o interesse passou para o piano, que descobriu na escola. Mais tarde, teria 14 anos, quando se deu a coincidência de estar a aprender piano e a tocar numa banda que evoluiu do rock para o heavy metal (sob o nome de Requiem gravou uma maqueta). "Nunca fui fã de metal, só ouvia umas coisas foleiras de hard rock", recorda. Um primo mais velho de um dos colegas do grupo mostrou-lhe outras sonoridades (Tortoise, grupos de pós-rock...) e fez que conhecesse o seu atual baterista, Joca. Estavam lançadas as bases para se lançar num caminho seu. Lançou o EP The crooners are dead, com o nome Jesus, the Misunderstood, acompanhado por outros dois músicos.

"A dada altura fiquei farto do formato de banda porque queria estar sempre a tocar e o pessoal tinha de estudar. Decidi fazer uma coisa sozinho e aí nasce Walter Benjamin", estava já a estudar Antropologia. "Cena saloia, queria um nome em inglês", comenta, e foi com esse nome que gravou The Imaginary Life of Rosemary and Me.

Quando deixou Londres (e Walter Benjamin) para trás, já Benjamim radicou-se no Alvito, onde montou um estúdio e gravou Auto Rádio e discos de outros grupos. "Foi uma forma de relançar a minha vida em Portugal. Vinha também com a ideia de gravar canções em português." O Alentejo foi entretanto trocado pela capital. "Gosto de fases, sou naturalmente avesso à mudança e comecei a combater isso. Nesta fase estou bem em Lisboa."

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