Morreu Zé Pedro, guitarrista dos Xutos e Pontapés

O músico tinha 61 anos e estava doente há vários meses. Luís Montez e Luís Represas dão o seu testemunho sobre o músico.

Zé Pedro, o popular guitarrista dos Xutos e Pontapés, morreu esta quinta-feira aos 61 anos, disse à agência Lusa fonte próxima da família. As cerimónias fúnebres terão início amanhã, sexta-feira, no Mosteiro dos Jerónimos, sendo o funeral sábado.

O músico estava doente há vários meses, mas a situação foi sempre gerida de forma discreta pelo grupo, tendo só sido assumida publicamente em novembro, a propósito do concerto de fim de digressão dos Xutos & Pontapés, no Coliseu de Lisboa.

"Contámos com a coragem e a vontade do Zé Pedro, cujo estado de saúde nos inspirava cuidados e nos levou a montar um concerto que, de alguma forma, o protegesse. De resto, ele acabou - felizmente - por estar sempre presente e muito ativo, com exceção do show de Toronto (Canadá), em que nós o convencemos a poupar-se ao desgaste das viagens", dizia Tim ao DN, na véspera do espetáculo.

O último concerto de Zé Pedro, guitarrista dos Xutos e Pontapés, aconteceu no passado dia 4, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. O músico ouviu uma plateia de apoio e depois agradeceu: "Obrigado também a todos os que ontem gritaram o meu nome e fizeram com que tivesse força para continuar naquele palco até ao fim".

O estado de saúde frágil do músico não passou despercebido a ninguém. Zé Pedro lutava contra a hepatite C, já tinha feito um transplante de fígado em 2011, e prometia continuar a lutar: "Amanhã começo um novo tratamento e garanto que é para GANHAR. EU SEI LUTAR E ACREDITO", escreveu, assim mesmo em maiúsculas, um dia depois do concerto com que os Xutos e Pontapés encerraram a digressão.

Não ganhou, soube-se hoje. José Pedro Amaro dos Santos Reis morreu em casa, aos 61 anos. Nasceu em Lisboa a 14 de setembro de 1956, numa família de sete irmãos, "com um pai militar, não autoritário, e uma mãe militante-dos-valores-familiares", como recordou num dos capítulos da biografia Não sou o único (2007), escrita pela irmã, Helena Reis. Passou parte da infância (até aos seis anos) em Timor, onde o pai esteve destacado.

Em 1977 faz um interrail e, em França, assistiu a um festival punk, em Mont-de-Marsan. Foi aí que começaram a germinar os Xutos & Pontapés, admite a irmã. Chegariam um ano depois. A banda que hoje não precisa de apresentações, fez um longo caminho na afirmação do rock em Portugal e marcou várias gerações. Estreou-se em palco em 1979, nos Alunos de Apolo, em Lisboa, lançou o primeiro álbum em 1982 - 1978-1982. Na altura Zé Pedro morava em Almada, estudava em Agronomia e estudava contrabaixo no Conservatório.

Para Zé Pedro, o rock'n'roll é "um estado de espírito". Isso mesmo disse em entrevista ao DN em janeiro de 2016. "Não é preciso ser músico para sentir, tem que ver com aventura. Pode ter que ver com uns certos limites na vida, mas tem, acima de tudo, que ver com a realização pessoal de uma vida mexida", dizia. De atitude perante a vida.

Por isso não havia o Zé Pedro e o Zé Pedro guitarrista dos Xutos: "No meu caso, como músico, acima de tudo há uma honestidade total em relação à vida que levo. Assumo o que faço e isso é transportado comigo. A andar na rua, a ir às compras, seja o que for, eu também sou o Zé Pedro dos Xutos & Pontapés. Tenho esse carimbo na testa".

Em 2015, o músico dizia em entrevista ao DN: "Gosto muito da minha vida. Podia ter-me poupado um bocadinho". Era pública a luta que travara contra a hepatite C.

O músico esteve ligado a outros projetos, como os Maduros, Ladrões do Tempo e Palma's Gang. Foi DJ, e abriu em Lisboa "o melhor clube do mundo", o Johnny Guitar, em Santos. Fez incursões no cinema e nas passereles de moda mas regressaria sempre aos Xutos & Pontapés. A banda que voltou a encher o Coliseu no dia 4 para o derradeiro adeus do seu público.

A alma e a atitude da banda

Ao DN, Luís Represas fala sobre o guitarrista dos Xutos: "O legado do Zé Pedro são décadas de vida entregues à música e não só nos Xutos & Pontapés. O Zé Pedro é um exemplo de que a música se constrói com pontes, é uma linguagem una e universal. Embora, claro, tivesse a sua identificação e impressão digital. E fez isso tudo com a sua enorme ternura e sorriso fantástico."

Luís Montez, da promotora Música no Coração, lembra ao DN a forma insólita como conheceu Zé Pedro: "Eu trabalhava na Rádio Comercial, fazia madrugas, e àquela hora tinha a ousadia de passar punk-rock português porque partia do princípio que não havia muita gente a ouvir. E o Zé Pedro ouviu e quis conhecer quem era o maluco que andava a passar o álbum Cerco [lançado em 1985]. Apareceu-me lá na rádio para a agradecer. Ele tinha um coração do tamanho do mundo e a gratidão era também um valor que tinha muito alto."

Esse foi o início de uma longa relação de amizade. "Depois nunca mais os larguei. Levámo-los à Polygram para gravar o Circo de Feras [1987] e organizei logo a tournée do Circo de Feras e deu logo para ver que ela era a atitude da banda. Ele era tão, tão boa pessoa. Era um prazer, porque havia momentos de tensão, o que é normal entre as bandas, ele é que apaziguava, sempre com uma graçola. Era um coração de oiro. Ele não era especialmente um exímio guitarrista, mas era a alma e a atitude da banda. Era uma pessoa extraordinária. Aprendi muito com ele do valor da vida, top mesmo. Para mim, está no coração, para sempre." Luís Montez não esteve no último concerto, no Coliseu de Lisboa, a 4 de novembro, mas estava a acompanhar o que se estava a passar. "Ele quis ir até ao fim. Mais do que um ato de coragem foi um ato de solidariedade à banda e ao público". Com Lusa

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