"Gosto muito da minha vida. Podia ter-me poupado um bocadinho"

O músico Zé Pedro, em declarações ao DN, recordou momentos bons e menos agradáveis da sua vida

Zé Pedro morreu esta quinta-feira ao 61 anos. Recuperamos esta conversa com Ana Sousa Dias em 2015

Atravessa a Praça de Londres com o sorriso rasgado que é uma marca de família e vai ao quiosque buscar um café. Desta vez o "almoço com" é uma bica ao fim da manhã, sentados ao sol no jardim. Entre ensaios, gravações e programas, Zé Pedro, 58 anos, está em Lisboa a pensar no Coliseu do Porto do próximo sábado. Falamos de álcool e drogas, de doenças e cirurgias, mas sempre à maneira dele: as dificuldades são para resolver e ultrapassar. Como quando entrou no hospital para o transplante de fígado e anunciou que daí a um mês ia tocar no Optimus Alive. E foi. Ou quando dizia que ia ficar bom aos médicos que o davam como morto. "Não sou o único", diz ele a rir.

O tema do dia é o acordo sobre o medicamento da hepatite C e ele está entusiasmado com as notícias. O tratamento com interferon, agora ultrapassado por químicos inovadores, resultou bem nele mas não se esquece dos efeitos secundários brutais que aguentou até à exaustão nem dos muitos casos em que não funcionou. "Houve quem fizesse dois e até três tratamentos, com efeitos insuportáveis." Mas sim, ele e o medicamento deram cabo do vírus e quando fez o transplante estava curado.

Incomoda-o saber que nos meandros do poder há muita coisa obscura. "Os nossos impostos deviam servir primeiro do que tudo para a saúde e para a educação, pelo menos estes dois setores deviam ser sempre preservados por quem governa, mas infelizmente temos visto que não é essa a política." E recorda que o ministro Paulo Macedo tinha tido "uma ideia genial" quando propôs que os países da Comunidade Europeia encomendassem em conjunto os tratamentos para a hepatite C, conseguindo assim reduzir o preço. Também Zé Pedro fez parte da associação SOS Hepatite, mas nessa altura num apelo para que as pessoas fizessem rastreio desta doença silenciosa e estigmatizada por ser associada cegamente à toxicodependência. "Muita gente não revela que está doente por medo de perder o emprego ou de ser afastado pelos amigos e a família."

Nem a profissão nem os amigos, muito menos a família foram um problema para ele ao longo destes anos. Tem amigos por todo o lado, uma família
que parece uma fortaleza e um casamento de que poderia falar o dia todo, de tão feliz que está - "ela é uma força enorme na minha vida". Estamos nisto e aparece Cristina para uma breve conversa e para deixar connosco a cadela Fiby, uma labrador castanha de três anos e meio que vai acompanhar o resto da conversa, deitada ao lado ou passeando vagamente pelo relvado.

Começam a aparecer umas nuvens a anunciar a chuva que daí a uma hora há de cair, mas agora estamos a falar sobre música. Os Xutos & Pontapés
fazem no sábado um concerto acústico único no Coliseu do Porto, o primeiro ao fim de seis anos, e estão a trabalhar na adaptação de temas que nunca apresentaram neste formato. Nos intervalos, Zé Pedro junta-se com a outra banda que formou - os Ladrões do Tempo - e pensa que no fim de fevereiro estarão concluídas as gravações do primeiro disco, para lançar antes do verão. É complicado roubar tempo para este grupo, em que todos têm atividades próprias: Tó Trips nos Dead Combo - "com uma carreira super e agora com montes de possibilidades nos Estados Unidos, lançados por Anthony Bourdain e até com uma música na banda sonora do filme Focus, com Will Smith"; Samuel Palitos , ex-Censurados, Naifa e
agora baterista dos GNR; Dony Bettencourt, baixista dos Dead Cats Dead Rats, "uma banda muito gira que eu aconselho, um tributo aos Doors"; e Paulo Franco, vocalista dos Dapunksportif, de Peniche. Sempre em coletivo. "Não sou nada solitário, procuro grupos de amigos, ajudam-me
muito. Ser artista a solo tem dificuldades, é preciso ter um carisma muito grande, uma noção forte do que se quer. Admiro muito pessoas como o
Frankie Chavez ou o Paulo Furtado, o Legendary Tigerman, a confiança dentro das incertezas que certamente têm nas suas composições. Eu não era capaz de fazer um trabalho solitário e de qualidade superior como eles."

As chávenas estão frias, o sol voltou, Fiby adormeceu. Falamos agora de fazer planos: "Vou vivendo o presente. Claro que no presente há sempre
uma projeção para o futuro, mas sempre no curto prazo. Se calhar essa maneira de estar levou-me aos limites que levou, sem pensar nas consequências que alguns exageros que fiz me pudessem trazer." Esses excessos acabaram e sem saudades, diz ele. "Não me faz confusão estar ao pé de pessoas que fumam ou bebem, na noite, nos concertos. E se tomarem drogas tenho limites, não consigo estar no meio, tudo a drogar-se e eu ali de plantão." Tornou-se um resmungão que ralha com os outros? "Não, eu espero que as pessoas tenham noção de que o que se faz hoje tem consequências no futuro. É o único recado que posso dar. É preciso haver informação, é bom que oiçam as histórias e as experiências. Mas as escolhas têm de vir de dentro. No meu tempo não havia informação, a heroína era comparada a um charro, não se falava dos malefícios que daí vinham."

Drogas leves são o primeiro passo para drogas duras? "Uma pessoa naturalmente começa com as mais leves e, querendo situações mais fortes, avançará à procura de coisas mais estimulantes. Mas no caso das drogas pesadas, a estimulação é inicial e depois acaba por ser
um rodopio de situações que não levam a nada. No meu caso concreto, do que eu gostava mais, na altura áurea das minhas loucuras, era beber, ficar eufórico com a bebida. E depois a cocaína entrou aí, até para suportar essa euforia. Cheguei a um extremo e sempre achei que controlaria tanto uma coisa como outra. Perdi a noção. Aquilo leva a um desespero forte e uma rotina que não traz prazer, traz só uma tentativa de chegar a um estado normal. Uma pessoa drogar-se para tentar chegar a um estado normal é ridículo." E ecstasy? "Tomei uma vez mas não cheguei a entrar nesse mercado. Existirá sempre droga, de uma maneira ou de outra, porque temos uma indústria farmacêutica muito forte que tem umas drogas muito potentes. Mas as pessoas podem precaver-se perante as drogas que vão surgindo no mercado - as metanfetaminas, por exemplo, que também nunca experimentei, e também passei ao de leve pelo crack, mas são coisas muito fortes que atuam no cérebro de uma maneira muito viciante. Os cérebros dos adolescentes, que ainda estão em formação, facilmente são agarrados. Mas não tenho dúvidas: haverá sempre novas drogas, o mercado é muito forte." Alguma vez quando era miúdo e fingia tocar guitarra com uma régua em T de madeira, o Zé Pedro pensou que seria uma estrela de rock? "Nunca pensei nisso. Seria sempre alguma coisa ligada à música, a minha paixão. Enquanto os Xutos não tiveram sucesso fiz muita coisa, e sabia que alguma haveria de dar. Tinha noção de que haveria de me safar, fosse no que fosse. Como é que num mercado tão pequenino como o português seria possível imaginar que teria uma banda de amigos estável como os Xutos & Pontapés são há 36 anos?" E no entanto cá estão eles. Cá está ele. "Gosto muito da minha vida. Podia ter-me poupado um bocadinho, porque depois tive de passar por muito."

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