Cuca Roseta: "O fado é uma forma de procurarmos a nossa verdade"

Com o seu novo álbum, Luz, Cuca Roseta propõe diversos registos, incluindo algumas variações pop - em qualquer caso, é o fado que continua a definir a sua verdade artística.

O seu novo álbum, Luz, apresenta contrastes que vão de um velho fado de Amália, Triste Sina (de Nóbrega e Sousa/Jerónimo Bragança) à ligeireza de Balelas (com assinatura sua e de Pedro Silva Martins). Esses extremos refletem as escolhas artísticas deste trabalho?

Sim, são mesmo as duas músicas mais distantes entre si. Gosto do Balelas, mas é como se fosse a música que está mais "fora" do disco - a editora gostou muito, como se costuma dizer é muito "orelhudo", e acabou por ficar. Apesar de me sentir fadista - é o fado que me toca de forma mais profunda -, também preciso deste tipo de composições, sobretudo em concerto: há uma seriedade e uma entrega num fado como Triste Sina que necessita do contraste de Balelas. No fundo, creio que é um disco muito eclético. É verdade que depois do Riû (2015) pensei fazer um disco só de fado e estabeleci mesmo um alinhamento. O certo é que começaram a aparecer temas de compositores que admiro muito, como o Pedro da Silva Martins, que fez, por exemplo, o Luzinha (que abre o disco) ligados a este conceito de "luz" que atravessa todo o álbum - é uma luz espiritual, interior.

Há mesmo três temas com os títulos Luzinha, Luz Materna e Luz do Mundo. Aceita que se diga que há uma dimensão religiosa no álbum?

Sim, sou religiosa, sou católica. Há em mim, desde criança, uma dimensão espiritual: gosto da solidão, do contacto com o divino, de rezar, meditar. Este Luz é o meu disco em que a expressão de tudo isso é mais forte. Aliás, tal como acontece agora com Luz do Mundo, todos os meus discos terminam com um tema católico.

No mundo em que vivemos, nomeadamente no consumo da música, as atitudes dominantes serão mais ligeiras, pouco ou nada ligadas a essa dimensão espiritual.

É verdade. Quando dei a ouvir o disco a familiares e amigos, quase todos me disseram que é demais, não faz muito sentido mostrar este lado espiritual. Não concordo, claro, até porque não é esse o tom de todo o disco. Além disso, o fado é uma forma de procurarmos a nossa verdade - vamos buscar os temas e poemas que, num certo sentido, contam a nossa história. É dessa maneira, acredito, que conseguimos chegar aos outros.

Será que pode haver uma verdade do canto, na solidão do estúdio, que não existe nas performances ao vivo?

É bem possível, pelo menos para mim. Em estúdio, sozinhos, por vezes entregamo-nos mais porque, na verdade, ninguém nos vê. No palco, não somos só a alma, somos também o corpo - há uma faceta de entertainment que não precisa de existir em estúdio.

A coexistência do fado com temas de outras origens, em particular com a música brasileira, tem suscitado interessantes debates sobre o futuro do fado e até a possibilidade de, desse modo, se apagar a sua especificidade - como encara essa situação?

Não creio que isso vá acontecer. Aliás, a carreira plural de Amália mostra-nos que não há perigo de o fado se corromper ou acabar. No meu caso, sempre gostei muito de ouvir o fado tradicional, mesmo não sendo uma fadista tradicional. Canto fado, sem dúvida, mas também canto pop. E este não é um disco inteiramente de fado - por exemplo, Quero (segundo tema do álbum) é pop, mas quando canto Triste Sina não vou deixar que se use um qualquer instrumento que contrarie a essência do tema.

As experimentações do fado, em geral, têm aberto novos espaços de divulgação, em particular no estrangeiro?

Creio que sim - e, mais uma vez, o exemplo da Amália é revelador. Nós, fadistas, vamos muito ao estrangeiro e, entre nós, há muitas vezes a ideia de que só cantamos para as comunidades. Ora, já não é bem assim: eu gosto muito de cantar para as comunidades, mas vou mais aos festivais de músicas do mundo - é bom, é positivo sermos embaixadores de Portugal.

Luz

Cuca Roseta

Sony Music

PVP: 12,99 euros

Ler mais

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.