Atriz total que representa com o corpo inteiro

Vai ser uma descoberta no cinema depois de já estar a ser notada nos palcos nacionais. Mia Tomé, atriz a começar, quer continuar a aprender.

É um sinal dos tempos: uma jovem atriz que começa a destacar-se sem precisar das telenovelas. Mia Tomé está a surgir sem ser de rompante. Os mais atentos já a descobriram, mas o grande público provavelmente ainda não. Ela própria começa por se apresentar: "nasci em Coimbra há 23 anos, no ano em que o Charles Bukowski morreu e em que chegou aos cinemas Pulp Fiction. Cresci entre Viseu e Lisboa e desde criança segui o ballet clássico, seguindo-se o violino. Aos 11 fui para um local bestial, a Companhia Paulo Ribeiro, em Viseu, entre as aulas de teatro e de técnica clássica. Sempre tive a consciência de que o movimento era importante. Aos 15 fui mesmo para uma escola de teatro, a Santo Eutónio, em Coimbra. Foi lá, nesse período, que comecei a fazer as minhas primeiras perninhas, entre as quais a participação numa curta chamada Super Vodka, de Lia Fuzeta. Logo a seguir fui para Lisboa, para o Conservatório, e comecei a trabalhar em simultâneo."

Quem já a viu no teatro percebe que é uma atriz com presença dominante. Tem uma voz cristalina, uma sensualidade de outros tempos. Mia Tomé representa com o corpo inteiro e se quisermos entrar em alusões fisionómicas, pode ser um projeto de Marilyn Monroe. Exagero? Pode então ser uma mistura do arrebatamento de Catarina Wallenstein com a delicadeza de Joana de Verona. O certo é que, para já, pode ainda ser tudo.

No teatro, tem tido sorte ou mérito por ter sido chamada pelos Artistas Unidos e também pelos Possessos, companhia de jovens criadores teatrais que tem realmente agitado o meio teatral lisboeta. Nesta primavera, a sua Miss Daisy de A Marcha dos Invencíveis foi um pequeno grande acontecimento...

Mas é no cinema que o seu rosto vai ter maior exposição. Será já na próxima rentrée em dois pequenos papéis. Primeiro em Al Berto, de Vicente Alves do Ó, em que é uma das amigas do poeta da liberdade e, mais para novembro, em Ramiro, de Manuel Mozos, filme que vai fazer o circuito dos festivais do outono (primeiro São Paulo, depois a Viennale). Serão filmes em que se perceberá se o seu rosto imprime tão bem como aconteceu na curta Sintoma de Ausência, de Carlos Melim. Mais para 2018 estará em Como Fernando Pessoa Salvou Portugal, do americano Eugène Green. Adivinha-se que Mia Tomé tem aquele encanto de câmara que faz tanta falta no cinema português... Ainda para mais, tem um "problema" - é cinéfila: "passo a vida na Cinemateca. Adoro cinema! Talvez por isso esteja agora a escrever a minha tese sobre Cinema e Educação, para a Escola de Belas-Artes. Interessa-me explorar a coisa da educação alternativa visto que a escola está demasiado formatada." Uma tese que inclui um documentário por si realizado sobre o Curtinhas, a secção educacional do Curtas Vila do Conde.

Por estes dias, está a absorver os ares de Nova Iorque, através de uma bolsa da Gulbenkian de especialização e valorização em artes. Para ela é importante esse gesto de movimento: "sinto uma necessidade de fuga. Às vezes, sou meio desprendida com as coisas. Tenho mais medo de ficar do que de ir." Ainda assim, diz que não aceita todos os projetos. Para um jovem ator, é importante não dizer sim a tudo.

Mia Tomé tem já agente, a Box, e reconhece que é importante saber gerir a carreira: "Tenho colegas que ficam espantadas de eu estar a fazer muita coisa, mas o que digo sempre é que é fundamental estarmos atentos. Isso e ir ao teatro, ao cinema e contrariar a preguiça, bem como conhecer as pessoas."

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