A ressurreição de Richard Zimler através de 'Lázaro'

O novo romance de Richard Zimler intitula-se "O Evangelho segundo Lázaro" e completa uma biografia desconhecida

O leitor, seja ele qual for, quando ultrapassa as cinquenta páginas do novo romance de Richard Zimler, O Evangelho segundo Lázaro, deveria ter a possibilidade de se sentar com o escritor e poder-lhe fazer algumas das inúmeras perguntas que a leitura deste livro lhe coloca. Aliás, o aviso está feito na contracapa, ao inscrever-se o seguinte: "Irá certamente perturbar alguns leitores e tocar profundamente outros." Podia pensar-se que era mera propaganda. Não, não é, e com o avançar da leitura isso irá confirmar-se.

A história da segunda vida concedida a Lázaro por Jesus Cristo é um episódio bíblico do Evangelho legado por São João por demais conhecido. Zimler resume-o assim no cenário da nova vida em tom familiar: "Enquanto vou mastigando a matzá quente que Mia me deu, os visitantes falam em tom reverente sobre a prova da omnipotência de Deus que viram hoje - prova que toda a gente naquele quarto testemunhou, exceto eu." Ainda se vai na página 42 e faltam mais quatrocentas para relatar estas maravilhas miraculosas que ao fim de tantos séculos de evolução o ser humano ainda aprecia tanto.

Até porque Zimler mexe com as crenças do [alguns] leitor logo duas páginas à frente, ao colocar em Lázaro uma das maiores preocupações dos humanos, o estar de frente para a morte, mesmo que sem grandes respostas: "Não tenho qualquer história espantosa para partilhar sobre o domínio de Yeshua face à morte. Nem sequer sei como é a vida depois da morte. Porque não vi nenhuma. Não regressei ao meu corpo com qualquer mensagem profética cifrada na mente ou gravada nas mãos. Ou à minha alma foi negada a autorização para entrar no Paraíso, ou nada do que lá transpirou ficou retido na minha mente."

A narrativa sobre Lázaro começa em definitivo com a partida de Jesus e dos seus discípulos de casa de Lázaro, quando a fome lhe abre "um sulco no ventre" e deseja ficar só. Ele está perante a idolatria em torno do milagre de que foi vítima e pretende questionar as razões de quem está morto e não sabe; de como a alma se desprende do corpo e o coração para de bater para tudo regressar ao estado anterior; de como um fio do seu sudário tem valor comercial para quem quer ser possuidor de uma relíquia, ou seja, confessa-se ignorante do que lhe aconteceu e o vai colocar na História do Cristianismo.

É a esse imbróglio que o autor o vai buscar para protagonizar este romance. Um texto que se torna surpreendente a cada página lida e que coloca o leitor perante uma avidez indesejada de saber sempre mais. Onde entra o poder narrativo de Zimler e um cenário que resulta de uma investigação sobre a matéria, bem de uma enorme capacidade de regressar ao passado, tudo respaldado pela dificuldade que esse transporte temporal acarreta para a construção sucessiva de parágrafos e capítulos exigentes.

Esse fator de sedução da escrita é um dos grandes mistérios deste novo Evangelho, agora escrito por alguém a quem esta temática interessa e que talvez nunca tenha ido tão longe na (re)construção de um tempo. A que acresce a invenção da intriga sobre uma parte da vida de Lázaro que nunca foi contada por ser desconhecida, a que tem origem três décadas após a crucificação de Jesus.

Neste âmbito, a surpresa que Zimler oferece é o preenchimento desse vazio histórico com a criação de uma "aventura" religiosa que pretende confirmar a grande ligação entre Lázaro e Jesus, amigos de infância, e a sua utilização para concretizar os desígnios de uma Terra Prometida. Quase que se poderia dizer que este renascer de Lázaro equivale a uma situação semelhante no escritor Richard Zimler, que, talvez, se encontre perante uma ressurreição dentro de uma obra bastante interessante no seu todo desde que se o descobriu n'O último cabalista de Lisboa.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Rosália Amorim

"Sem emoção não há uma boa relação"

A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.