"Há pessoas que demoram mais tempo a ser artistas"

Sandra Rocha nasceu na ilha Terceira no ano da Revolução, foi jornalista, estudou fotografia e História da Arte para se aproximar da arte. Vive e trabalha a partir de Paris, sempre com os Açores por perto

Sandra Rocha, 43 anos, tem uma gargalhada franca que talvez ninguém imaginasse olhando para o autorretrato que enviou para o DN e que ilustra esta página. Sandra, fotógrafa, que descobriu cedo que queria trabalhar nas artes visuais, estava de regresso a França, na quinta-feira. Desde 2012 que vive e trabalha em Paris. Regressa amiúde a Portugal, e aos Açores. Esculturas suas, a partir de lixo devolvido à terra pelo mar, estão, douradas, na Baía de Angra. As suas fotografias também podem ser visitas na galeria Fonseca Macedo, em S. Miguel, e em Vichy.

"Há pessoas que demoram mais tempo a ser artistas, que fazem outros caminhos", conta Sandra ao telefone. O dela passou pelo jornalismo. Trabalhou no diário A Capital, depois como freelancer. O caminho de reconhecimento artístico é longo. "O jornalismo foi uma grande escola, para a pesquisa que faço hoje em dia, para saber convencer as pessoas do que quero fazer, ajudou", explica. Tal como a participação no coletivo Kameraphoto e o trabalho ao lado de fotógrafos que não estavam apenas no jornalismo como António Júlio Duarte, Pedro Letria, Rui Xavier... "Foram fundamentais para mim. Abriram-me muitas janelas". Mas ser fotojornalista deixou uma marca, que, por algum tempo, parecia impossível apagar. "É como escritor. Não é porque sempre fizeste reportagem que não podes fazer ficção", compara. E foi ainda como jornalista que começou a desenvolver os projetos pessoais. Olhando para trás, observa: "Sempre fui demasiado artista para os jornais e demasiado jornalista para as galerias".

Olhando ainda mais para trás, Sandra Rocha conta que descobriu que queria trabalhar artes visuais dois anos depois de se ter mudado da Terceira, a sua ilha, para S. Miguel, para estudar Biologia. "Conheci um pintor que foi muito importante e me falou na AR.CO". De regresso a casa, disse que queria ir estudar para esta escola em Lisboa. Dois anos depois, coincidindo com a Expo 98, começou a trabalhar para jornais e revistas.

"Em 2004, percebi: não é por aqui". Refez exames do 12.º ano e fez seis anos de História da Arte na Universidade Nova de Lisboa. Chama-lhe "ponto de viragem" e acrescenta outro momento que foi decisivo para o currículo: o curso de criatividade e criação artística da Fundação Calouste Gulbenkian. "Percebi que havia outra forma de viver a fotografia", afirma. E bastava olhar para o seu percurso o perceber. "Tudo o que fiz para a Egoísta não é jornalismo. Fotografar todos os sítios que se chamam Lisbon é jornalismo?". Depois deste curso na Gulbenkian passou a ser representada pela galeria de arte contemporânea Fonseca Macedo, em S. Miguel.

E em 2013, Paris. "Aquela cidade em que todos os meses posso candidatar-me a uma bolsa de fotografia para fazer uma residência". A mudança coincidiu com "o fim da Kameraphoto, o Passos Coelhos, o ambiente superpesado, e Paris é aquela cidade em que todos os dias posso lavar os olhinhos". "Queria poder ter a experiência de ter mais oportunidades", afirma. E têm aparecido. Uma residência no Arquipélago, o centro de artes contemporâneas, no festival Walk & Talk (ambos em São Miguel), exposições em Portugal, Espanha, França. Projetos já aprazados para 2018 e 2019, alguns envolvendo os Açores, "porque os Açores me inspiram estupidamente". "Tenho uma certa nostalgia nas minhas fotografias, mas não fotografo jovens, uso os jovens para para falar sobre as tensões entre a natureza e o ser humano. Tudo está em ebulição".

O que mais gostou de fazer
Viajar: Foi o que Sandra Rocha mais gostou de fazer, especialmente África. "Teve uma repercussão na minha maneira de perceber o mundo e os outros. Na verdade, o que gostei muito foi de crescer. Foi tão bom aprender coisas."
O que mais gostaria de fazer

Saber desenhar: "Gostava de saber desenhar super bem. E já me inscrevi num curso de desenho. Paris é fantástica por isso. Candidatas-te na mairie a cursos de um ano com professores de Belas Artes para cursos de desenho anuais. Fui aceite e vou começar em setembro."

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