Guida Maria. Terminou o monólogo da atriz e mulher desassombrada

Morte. Era um furacão, por onde passava nada ficava igual. A casa era um lugar reservado, cheio de memórias de uma vida intensa

Guida Maria morreu ontem, a poucos dias de cumprir 68 anos, com 60 de carreira no teatro e no cinema. Estava internada no Hospital de São Francisco Xavier há quase um mês, na sequência de um cancro no pâncreas. Campo de Ourique perdeu uma das suas moradoras fiéis.

Filha do ator Luís Cerqueira (1926-1984), estreou-se nos palcos aos sete anos, na peça Fogo de Vista de Ramada Curto, no mesmo ano em que fez um pequeno papel no filme Dois Dias no Paraíso, de Arthur Duarte, protagonizado por Milú, Vergílio Teixeira, António Silva e outros destacados atores da época, além da equipa de hóquei em patins em que brilhava Jesus Correia. Deslumbrou o público aos 12 anos, quando fez o papel de Helen Keller em O Milagre de Anne Sullivan, encenada por Luís Sttau Monteiro.

Teve o primeiro filho, Pedro Daniel, aos 17 anos, num tempo em que ser mãe solteira e com esta idade lhe conferia o estatuto de "desavergonhada". Dois dias depois de a atriz fazer 20 anos, nasceu em Londres a segunda filha, a atriz Julie Sergeant. As duas netas, Catarina e Maria Rita, mobilizaram a sua energia calorosa nos últimos anos, quando se tornou presença habitual em telenovelas.

Perfeccionista, expressiva e desinibida sem nunca roçar a vulgaridade, Guida Maria surgiu em nu integral no filme A Promessa, de António de Macedo, em 1973, adaptação de uma peça de Bernardo Santareno. O nu não lhe metia medo mas tinha de ser defendido e respeitado, tinha de fazer sentido no contexto da peça ou do filme. Voltou a fazê-lo na série Cobardias, de Miguel Rovisco, em 1988.

Estudou na Escola de Teatro do Conservatório Nacional e, quando já tinha uma carreira recheada no cinema e no teatro, e era atriz da companhia do Teatro Nacional D. Maria II, decidiu que era o momento certo para estudar os Estados Unidos. Ficou dois anos intensos na American Academy of Dramatic Art, em Nova Iorque, e fez workshops no Actors Studio.

Participou em episódios da série O Bem Amado, de Dias Gomes (de quem tinha representado O Santo Inquérito na Companhia de Teatro de Campolide. Regressou ao Teatro Nacional, de onde veio a sair em 1998.

Confrontada com a falta de trabalho, atirou-se às produções próprias, com custos reduzidos, sem subsídios. Assim criou a versão portuguesa de Os Monólogos da Vagina, a premiadíssima peça da norte-americana Eve Ensler que foi interpretada em 140 países, por Jane Fonda, Whoopi Goldberg, Glenn Close, Susan Sarandon, Sandra Oh e até Oprah Winfrey, entre muitas outras. Teve o apoio do Casino Estoril, que lhe confiou o auditório, e do encenador Celso Cleto, usando dinheiro do próprio bolso. A peça deu-lhe uma nova notoriedade, vista no Estoril por milhares de espectadores em 2000/2001, depois no Teatro Villaret em Lisboa e com uma reposição anos mais tarde. Era, afinal de contas, a peça certa para Guida Maria, com a sua honestidade desassombrada sem espaço para hipocrisia. Ela estava lá inteira, capaz de representar o sofrimento limite numa múltipla violação coletiva na guerra da Bósnia ou de fazer rir até às lágrimas com a sequência de um exame ginecológico.

A mesma entrega total levou-a a Cabo Verde, onde fez no Centro Cultural Português do Mindelo (S. Vicente) A Casa de Bernarda Alba, de García Lorca. Loira e de grandes olhos azuis, era a própria Bernarda, mãe de cinco meninas cabo-verdianas falando crioulo, e ela própria usando essa língua que aprendeu propositadamente. Anos antes, tinha sido Adela, a filha mais nova de Bernarda, interpretada por Eunice Muñoz, no TNDMII.

Morava no bairro lisboeta de Campo de Ourique, numa casa que ia adaptando às circunstâncias. O entusiasmo da conversa, sempre pragmática, vivíssima e com opiniões fortes, era idêntica ao espírito desta casa muito vivida.

Fez mais de 40 peças de teatro, vários filmes e inúmeros episódios de novelas e séries.

Em 2009, a atriz publicou uma autobiografia feita com Rui Costa Pinto [Guida Maria Uma Vida, Exclusivo Edições], na qual conta com pormenor um percurso muito preenchido de paixões e desamores, de trabalho e de pesquisa, de amor pelo teatro.

O funeral de Guida Maria sai da Basílica da Estrela hoje às 15:00 para o Cemitério dos Prazeres.

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