Festival aumenta venda de livros no Funchal

Mia Couto abriu 6.ª edição do Festival Literário da Madeira. Sábado, Lídia Jorge faz a conferência de encerramento do evento.

"Tem a aplicação WhatsApp para lhe enviar uma fotografia do mocho?" Quem repete esta pergunta é o escritor Mia Couto perante a sala repleta de espectadores no Teatro Baltazar Dias, no Funchal, onde decorre a 6.ª edição do Festival Literário da Madeira (FLM). A pergunta vinha num encadeamento de histórias que estava a contar, provocadas pelo moderador Fernando Alves, e o auditório não estranhou pois o diálogo já voava na estratosfera há minutos.

Falava-se de sonhos: "Ninguém conta aquilo que foi a verdade com que sonhou." De como é o seu trabalho enquanto biólogo: "Sou completamente caótico e não procuro respostas, antes quero que me ensine a fazer perguntas." Da criação literária: "Tenho uma relação de verdade com aquilo que faço. As grandes verdades assentam sobre as histórias que se contavam, como a dos animais que falavam. O que as crianças querem é ser encantadas." De como se dá com a natureza: "Acho que as árvores falam e têm uma relação com tudo o que a envolve. No lugar onde trabalho, uma árvore não é apenas uma entidade mas também uma casa de espíritos porque em Moçambique as árvores são igrejas." De como se previne dos enganos: "Há um espírito santo de orelha que tenta contrariar certas ilusões."

Quanto ao mocho que tanto fez sorrir a audiência, deve-se ao desentendimento entre o escritor e um funcionário sobre ter-se encontrado a ave na sua propriedade e, como Mia Couto não percebia o que ele dizia, o outro perguntou--lhe se tinha WhatsApp para lhe enviar a foto e ultrapassar a falta de compreensão na linguagem. Um exemplo de como a comunicação é complexa e de como África está a destruir certas tradições, disse.

Antes de dar início à intervenção do escritor moçambicano Mia Couto, o editor da Nova Delphi e responsável pelo FLM, Francesco Valentini, explicou ao DN que se todos os anos as expectativas em relação ao Festival são altas, nesta edição ainda são maiores: "Devido ao tema, Falsidade e verdade na ficção literária, e à presença de muitos autores internacionais." Considera que o importante "é cativar cada vez mais espectadores e encher a sala do teatro." Dá como exemplo do sucesso a exigência de um segundo espetáculo de Jorge Palma, que prova que "se o evento só seduzia uma elite no início, agora está a alargar o seu âmbito e as pessoas aproximam-se."

Quanto aos custos do evento, Valentini refere que "nas primeiras cinco edições foi a Nova Delphi que suportou tudo. Desta vez, há o patrocínio da Câmara do Funchal, bem como de outras entidades, que ajudam a cobrir um orçamento que rondará os 75 a 100 mil euros". E aponta benefícios: "Temos estatísticas que dizem que nos 15 dias antes e mos 15 dias depois as vendas de livros aumentam."

Entre os vários convidados estrangeiros está Cynan Jones. Só tinha estado um dia e meio em Portugal anteriormente e esta é a primeira vez que vem só por causa do seu trabalho literário: "É muito especial que me tenham convidado para poder falar de um livro, A Cova, que trata de pessoas humildes de uma zona rural do País de Gales." Para o escritor galês, o festival serve, principalmente, para saber o que é a literatura portuguesa: "Quero conhecer os escritores portugueses e saber o que é mesmo importante na vossa literatura. É importante vir falar do meu livro, mas também saber o que escrevem em Portugal".

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