"O autismo é uma forma de o mundo nos dizer que temos muito pouco sob controlo"

Valério Romão, escritor, é o convidado desta semana de Ana Sousa Dias na rubrica semanal Começo de Conversa, para ler aqui e ouvir na TSF

Nasceu em 1974 em Clermont Ferrand, na França, e aos dez anos veio para Portugal, para Tavira, onde desatou a ler na biblioteca da Gulbenkian. Hoje já poderia ir para a Biblioteca Municipal Álvaro de Campos, com que a cidade homenageia o seu heterónimo de Pessoa. Publicou há cinco anos o primeiro romance, Autismo, rapidamente esgotado, que no ano passado foi finalista do Prémio Femina em França. Chega agora às livrarias a segunda edição, enquanto ultima o romance que envolve a doença de Alzheimer, com o qual fechará a trilogia Paternidades Falhadas. Contista e dramaturgo, Valério Romão é licenciado em Filosofia e é informático, um tech geek.

É informático mas li que já perdeu muitos textos.

É como os médicos, também adoecem. Costuma dizer-se: em casa de ferreiro, espeto de pau e realmente acontece. Ultimamente fiquei tão paranóico que tenho vários back ups e versões dos textos espalhados pela internet, em sítios onde já nem me lembro.

Por que é que uma pen não é segura?

Porque embora seja uma memória fixa, ou seja, não é volátil como a memória RAM, facilmente pode ser desmagnetizada, pode perder os conteúdos.

Publicou em 2012 o romance Autismo e foi chocante em vários sentidos. Num sentido bom, pelo facto de o projetar imediatamente para os grandes escritores, e porque é um livro-choque. O tema é o autismo, como o título indica. É uma escrita dura, uma história dura. Não está com paninhos quentes.

A dureza tem mais a ver com a história do que com a forma. Espero ter conseguido que a forma seja justa, que não haja qualquer dispositivo destinado a fazer o leitor prender-se por uma via emocional. É um relato. Claro que é um romance, não é um diário, não é um ensaio, não é um livro de ajuda. Tem a sua quota-parte de realidade.

De autobiografia?

Autobiografia, sim, embora mascarada por tudo quanto é ficção e pelo facto cómodo de que só quem me conhece bem sabe qual é a parte ficcionada e a parte real. Esse escudo é confortável.

Este romance de 2012 está agora em segunda edição, estava esgotado. Foi traduzido em França em 2016 e ficou logo finalista do Prémio Femina. É esquisito ver o primeiro romance chegar lá acima? É inibidor das futuras escritas?

Quando o editor da Abysmo, João Paulo Cotrim, decidiu publicar o Autismo, perguntou-me logo se eu estava a escrever outra coisa porque às vezes o segundo romance tem um parto mais difícil, mais complicado, por via de o primeiro ter feito algum sucesso, como ele imaginava que ia fazer. É como o segundo disco: ninguém diz que uma banda é boa até ao segundo disco, que normalmente não é tão bom. Na altura em que lho passei, já estava praticamente acabado o segundo romance. Não tive esse condicionalismo. Ver o primeiro romance chegar, de forma absolutamente inesperada - porque eu sou um ilustre desconhecido em Portugal, quanto mais em França, numa editora de pequena ou média dimensão como é a Chandeigne - à última short list do Prémio Femina foi motivo de grande orgulho, ainda por cima porque estava lá também o Gonçalo M. Tavares. Ter pela primeira vez dois portugueses no final de um prémio desta dimensão é reconfortante e faz pensar que a literatura portuguesa está a passar por uma boa fase, pelo menos. Embora isso só seja válido de se dizer daqui a 20, 30 ou 50 anos, só então teremos joeirado esta época. Mas parece ter alguma vitalidade e saúde. E com características diferentes, pois por exemplo eu e o Gonçalo somos radicalmente distintos na forma como abordamos as coisas.

Este livro tem ilustrações de Alex Gozblau. A segunda edição será idêntica?

Sim, embora o papel seja um nadinha mais espesso e o livro tenha engordado.

O livro engordou mas não alterou o texto?

Fizemos uma revisão tendo em conta aquela gralhas que se vão apanhando por via dos leitores. No primeiro capítulo há uma parte em que um homem lê um jornal e no mesmo formato ficava um bocado estranho. Escolhemos um formato alternativo para que fosse mais fácil a leitura. Tirando isso, está igual.

O segundo livro que escreveu, O da Joana, também tem um tema pesado. Faz parte de uma trilogia que designou de Paternidades Falhadas. O terceiro será?

Será sobre o tema do Alzheimer embora não tenha ainda título definido. Dar-lhe o nome Alzheimer, depois de Autismo, parece um compêndio de Medicina e não uma obra literária.

O da Joana conta a história de uma gravidez que chega mal ao fim. Este não tinha nada de autobiográfico?

Não, nem conhecia ninguém pessoalmente. Ouvi uma história de um amigo de um amigo, aquelas histórias que se contam no café, e fiquei tão impressionado que procurei na literatura se havia já um relato, um romance, um conto que me fizesse pensar "não vale a pena porque alguém já fez isto". Como não encontrei, pensei "por que não?" É um livro arriscado, sobretudo porque não sou uma mulher e é uma viagem íntima de uma mulher durante muito poucas horas. Mas se não é arriscado, para quê?

Os seus livros, os seus contos, são arriscados. Por que vai às situações-limite?

Porque são mais interessantes. A palavra está muito bem empregue, as situações-limite. Porque no limite reconhecemos, por contraste, uma fronteira que para nós sempre se apresentou difusa na normalidade. Se nos perguntarmos se somos finitos, a primeira resposta que vamos dar é "sim", mas se nos perguntarmos "em que sentido?" teremos mais dificuldades em delimitar esta confusão e esclarecer: "o seu ponto de vista é finito, mas como?" Porque eu não consigo ver através das paredes, porque tenho um ângulo de visão... Elencando tudo isto vamos ter uma noção mais perfeita do que somos, porque definindo as nossas fronteiras definimos também uma identidade. Gosto dos temas-limite porque, são mais interessantes. Fazer um romance a partir do nada ou de uma história banal pode ser um exercício mais desafiador mas numa história deste tipo também é difícil conseguir que não se torne excessivo. Conter aquela força e não cair na tentação do over acting literário, se é permitida essa expressão.

Mas não entra em over acting literário nos dois livros. Tive algum constrangimento em O da Joana, impressionou-me muito e penso que impressionará qualquer pessoa que tenha passado por uma situação mais ou menos idêntica. Mas não é a forma de contar, é a história.

A forma de contar uma história dá-lhe uma tonalidade diferente de cada vez que se conta. A história é a mesma e é uma história tão antiga como as que foram passando oralmente na tragédia grega ou na própria tradição oral helénica. Acontece com todas as histórias que nos impressionam e temos vontade de contar aos outros para partilhar esse bocado do mundo que estava encoberto ou escondido.

No caso do Autismo, pode funcionar como uma catarse em relação à sua vida?

Não. Isso tem mais a ver com terapia ou psicoterapia ou o que quer que seja, ou procurar ajuda de uma forma mais especializada, do que com escrever. Talvez se tivesse um cunho de diário pudesse ter tido esse efeito terapêutico. Mas como pensei sempre em termos de romance, e embora o material do romance fosse em grande parte meu, esse filtro faz com que não tenha nem o efeito de me deprimir nem o efeito catártico. Nem o efeito de me alegrar, que seria muito estranho.

No dia 3 de abril publicou uma crónica no Hoje Macau [jornal online]. Começa assim: "O dia de ontem, 2 de abril, é o Dia Mundial da Consciencialização do Autismo. O meu filho tem treze anos e com apenas dois anos e meio foi diagnosticado com uma perturbação do espectro do autismo." Aqui é realmente a sua experiência e do seu filho. Ao escrever esta crónica dirigia-se às pessoas que não compreendem, que têm dificuldade em compreender? Porque foi difícil também para si?

Sim. No fundo, ou temos contacto com autistas ou, não o tendo, estamos condicionados pelo que vimos na cultura popular sobre a figura do autista. Normalmente aparece ligada, nos filmes, a figuras mais ou menos geniais mas com uma vida muito disfuncional porque são socialmente limitados, seguem rotinas muito estritas, têm problemas em ter empatia pelos outros e em receber empatia. E isso é muito pouco, relativamente ao espetro enormíssimo de sintomas e de problemas que o autismo abarca. Na revisão 4 do DSM, o manual de perturbações e de condições psiquiátricas - saiu a 5 há algum tempo - o autismo tinha cinco manifestações distintas, ou seja, tinha ainda cinco subclasses separadas, entre as quais o autismo e o Asperger que é a forma altamente funcional do autismo, com desenvolvimento de linguagem e uma vida a priori menos condicionada. Nesta versão 5, simplesmente tiraram essas fronteiras todas e passou a chamar-se perturbações do espetro do autismo, o que me parece mais lógico porque, dando-lhe esta unidade, permite que se abarque de uma forma mais consistente uma série de manifestações que às vezes têm pontos em comum e às vezes têm distâncias quilométricas em relação umas às outras. Eu estava preocupado precisamente...

... com o estereótipo Dustin Hoffman?

Sim, porque o meu contacto com o autismo foi o Rain Man. Eu achava que os autistas, não sendo todos geniais, todos eles eram aquela figura, em doses mais ou menos diferentes. A minha grande surpresa nos anos em que tenho vivido o autismo de perto é descobrir que existem tantos autismos como autistas, quase. Todos eles são muito diferentes, é um síndrome que, ainda que muito estudado, não está de modo algum compreendido. O diagnóstico é comportamental, não há nenhuma análise, de medição de laboratório que permita saber se uma pessoa é autista ou não.

E difícil de diagnosticar, uma vez que tem tanta variedade de manifestações?

Sim, a não ser que seja absolutamente evidente, que seja textbook. Além de o diagnóstico ser difícil, e ainda assim poderíamos partir do princípio de que poderia ser evidente, o prognóstico, esse sim, é muito complicado e é sempre muito condicionado. Os bons médicos que encontrei nesta área são muito reservados relativamente ao futuro da criança que está à frente deles, daqui a dez ou 15 anos. Não sabem, de facto, porque pode progredir espetacularmente, inclusivamente sair do espetro, como pode ficar igual ou mesmo regredir.

Portanto, à situação acresce a imprevisibilidade?

E conseguir aceitar que a imprevisibilidade faz parte da vida... nós gostamos de rotinas, de coisas certas, quando abrimos a porta gostamos de entrar em casa e não numa casa que não conhecemos. Há pessoas mais ou menos organizadas mas todas têm um roupeiro, gavetas para pôr a roupa, sítios onde guardam as coisas. Isso é uma espécie de domar a natural rebeldia do mundo que nos rodeia. Foi a primeira coisa que fizemos, tentar evitar as catástrofes naturais, as doenças, tentar domar esta coisa e torná-la habitável. O autismo e o prognóstico do autismo, sendo tão reservado, é a forma de o mundo nos dizer que não temos nada sob controlo, ou muito pouca coisa.

À imprevisibilidade que é ter um filho, acrescenta-se a imprevisibilidade do autismo?

No autismo tem-se dois filhos, há dois momentos: quando ele nasce e quando é diagnosticado. São dois momentos distintos.

Falou na qualidade dos médicos, encontrou médicos muito bons e também médicos que não compreenderam?

Encontrei médicos bons, médicos maus, médicos estúpidos, charlatães, encontrei de tudo um pouco. Como é comportamental e não pode ser testado e verificado em laboratório, é uma zona cinzenta onde muitas coisas se cruzam, da nutrição aos hábitos desportivos. Toda a gente tem uma palavra a dizer sobre isto e concorre para a salvação. Alguns muito bem-intencionados mas com muito poucos conhecimentos e uma grande dose de fezada, e outros com muitos conhecimentos mas pouca empatia. Apanha-se de tudo um pouco.

É preciso estar-se preparado para isso tudo?

Ninguém está. Vai-se preparando.

Ao fim de dez anos do diagnóstico feito, essa imprevisibilidade mantém-se?

Não tanto. A partir daqui há apenas mais um grande momento de definição, a adolescência. A partir da idade adulta, mais ou menos as coisas estão definidas. A infância é a parte mais difícil e ao mesmo tempo a que dá mais esperança, porque é quando tudo pode mudar. A partir da idade adulta, as coisas de certa forma cristalizam, porque o que adquiriu provavelmente já não irá perder, e aquilo que não adquiriu provavelmente já não irá adquirir. Há sempre a esperança de que até lá surja qualquer coisa de tão milagroso como a vacina da tuberculose foi. E mesmo que não seja para o meu filho, que seja para todos aqueles que hão de vir. Tornar-me-ia muito mais feliz saber que as pessoas não têm que passar por isto.

Foi um grande sofrimento? Ainda é?

Sim, estaria a mentir se dissesse que não.

Está a escrever sobre Alzheimer. Aí está outra doença que encaramos com muita estranheza.

E que tem muitas semelhanças com o autismo, porque a perda das faculdades mentais e do controlo neurológico, de muitas coisas que estão definidas e ligadas ao cérebro, faz com que alguns comportamentos que se veem em autistas também se vejam em alguns pacientes com Alzheimer.

Tem feito uma investigação? É que anunciou este livro há muito tempo. Estava na cabeça, agora está a escrever?

A maior parte dele, ou seja, dois terços, foram escritos no ano passado. Falta-me cerca de 40 a 50 páginas que vou retomar para conseguir concluir ainda este ano. Embora o Alzheimer seja uma figura central no livro, é também ele um pretexto para explorar uma situação-limite que acontece a uma filha que é muito controlada pela mãe e que nunca tem espaço para desenvolver a sua personalidade, porque a mãe tem a vida dela dirigida, planeada, meticulosamente estruturada. A mãe fica impedida de prestar essa orientação e ela tem de tomar conta da mãe, como se a mãe passasse a ser filha. Podia ser qualquer demência, do foro neurológico ou psiquiátrico. O Alzheimer foi um pretexto para pôr estas duas personalidades muito distintas em conflito.

Documentou-se muito?

Não. Preferi ver documentários e entrevistar algumas pessoas que tinham experiências com familiares ou pessoas chegadas do que ter um conhecimento da doença. Interessava-me mais o aspeto vivencial.

Depois de terminadas as Paternidades Falhadas vai entrar num novo ciclo?

Sim, ainda não sei qual.

Enquanto não fechar este não consegue abrir outro?

Quero deixar de escrever durante algum tempo e fazer outras coisas, nomeadamente ler e estudar. Já há muito tempo que não tenho tempo para ler. Quando estou a escrever um romance não consigo ler prosa, só poesia. Já estou a escrever este há tanto tempo que já não me lembro qual foi o último romance que li. Mas tenho lido muita poesia.

A vida de escritor tem o lado social, os encontros de escritores. Entrou de repente nesse mundo. O que lhe parece?

Um sítio mal frequentado... A única coisa que posso dizer de mau sobre esta coisa da escrita são as muitas - vou dizer uma banalidade, mas é a minha banalidade - querelas e invejas, sobretudo clubes de interesses distintos sobre quem é o dono da verdade sobre a prosa ou a poesia, quem é que capta os melhores talentos. Tem um aspeto muito mais de clube de futebol - os seus adeptos, os seus dirigentes, os seus preceitos e o seu símbolo.

Tudo informal?

Sim, é tudo inconspícuo, nada que seja declarado, mas é óbvio.

Por aquilo que tenho observado, não houve turbulências à volta do seu nome, respeitaram-no desde o primeiro instante.

Gosto de pensar que sou um tipo relativamente simpático. O meio literário... a própria expressão parece algo ridícula, porque no fundo são um conjunto de pessoas que têm um ofício e que se dedicam a ele com propósitos distintos uns dos outros e que se encontram. E que estão disponíveis, tipo zoológico itinerante, para ir daqui para ali apresentar e dizer qualquer coisa. Vamos repetir-nos imensas vezes, com a fortuna de serem sítios diferentes para pessoas diferentes. Algumas coisas que vamos dizer não são assim tão interessantes, muitas vezes somos muito mais desinteressantes do que os nossos livros. Não somos estrelas de rock - quer dizer, alguns são.

Além dos romances de que temos estado a falar, tem muitos contos publicados. Tem um conto publicado não só na Granta portuguesa como na original.

E na sueca.

No meio de um romance pode escrever um conto, vários contos?

Não consigo. É outro tipo de estrutura mental e de disposição. Um conto tem a vantagem de poder ser uma história semelhante à de um romance mas que poderia ser escrita num dia ou de um só fôlego. O [Edgar Allan] Poe dizia que o conto se pode ler de uma assentada. E também se pode escrever de uma assentada, ou não, pode-se levar vários dias ou ter a sorte de escrevê-lo num dia. Nesse sentido, é uma espécie de romance económico. Mas depois tem um estilo que o põe completamente à parte do romance. Eu gosto imenso do conto porque me permite fazer experiências que no romance não são possíveis.

Em que sentido?

O conto À medida que se foi recuperando a mãe, publicado na Granta, em romance não funcionava. Funcionava como um capítulo, mas por ser tão forte perturbava o equilíbrio do romance. Ele funciona somente enquanto conto. Tem uma estrutura que não dá para alongar mais.

Como é que sabe que é um romance, um conto ou uma peça de teatro?

O Autismo era para ser um conto, um exercício de desentorpecimento. Escrevi aquele primeiro capítulo como uma espécie de ginástica porque já não escrevia há algum tempo. Ao fim do primeiro capítulo, percebi: não só isto não é um conto, como é o primeiro capítulo de um romance que é sobre o autismo e que vai ter à volta de 200 páginas. Foi estranhíssimo.

E como aparece o teatro? Começa a imaginar as personagens? Imagina-as a elas, ao local, sabe como se movem?

Eu gosto de imaginar o menos possível e de caracterizar o menos possível as personagens.

Percebo isso nos romances, não está ali a dizer como a pessoa se veste, como anda, é uma coisa mental.

Sim, faço poucas descrições.

Mas no teatro parecia-me que seria mais necessário caracterizar as personagens.

Não tenho didascálias, não tenho caracterização, não digo que é uma mulher de 30 anos. Pode ser uma mulher, pode ser um homem.

O encenador fará essa interpretação?

Tem liberdade total para escavacar e redimir o texto.

O que faz no dia-a-dia?

Trabalho noutras coisas para ganhar dinheiro.

Mantém o trabalho de informático?

Neste momento estou numa situação ligeiramente diferente mas tenho de trabalhar. Escrevo quando consigo reunir tempo e aproveitá-lo, normalmente numa semana de férias que se arranja fora das obrigações familiares para ir para um sítio qualquer ou para ficar em casa a escrever. E há as noites, os fins de semana.

É roubar tempo, sempre?

Sim.

Quando percebeu que o Autismo era um romance, tinha ideia do que ia acontecer?

Só sabia que era um romance. Se eu souber o que vai acontecer não consigo escrever. Há escritores que têm de ter um plano e só a partir daí começam a escrever. Eu tenho de ter uma ideia e tem que ser moderadamente vaga. Se for muito definida, perco o interesse.

Corrige muito? Rescreve?

Rescrevo menos do que gostaria porque não tenho assim tanto tempo mas conto que, na possibilidade de arranjar mais tempo, seja muito desse tempo utilizado a rescrever.

Está marcada a data da publicação do próximo livro?

Gostava que saísse no dia 12 de outubro, que é quando eu faço anos. Já lancei alguns livros no dia do aniversário e é sempre uma festa. É um motivo para eu me sentir feliz sem me sentir culpado.

Porque publicar um livro não é bom?

Não, ao fazer anos é que uma pessoa sente "agora têm de vir os amigos, não tenho nada a ver com isso embora tenha", é uma relação ambivalente.

Portanto, no dia em que vai fazer 43 anos, publica um novo livro e depois começa um novo ciclo?

Sim.

O ciclo começa quando termina o livro ou quando chega às mãos das pessoas?

Em princípio, quando termino o livro. Há vários ciclos: quando termino o livro, quando é lançado e quando termino de falar sobre o livro.

Muitas vezes um escritor está a dar entrevistas sobre um livro quando já está a escrever outro e tem outro universo.

Ou quando é publicado em França e já passaram quatro anos, com as mesmas formulações e as mesmas perguntas...

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