"Há uma série de intelectuais de direita que saíram do armário"

António Araújo pode ser identificado como historiador, crítico literário, responsável pela escolha dos autores da coleção Retratos da Fundação Francisco Manuel dos Santos ou ainda como autor do blogue Malomil

O incêndio de Pedrógão acabou por ser uma intrusão no viver português?

Sim, há um antes e depois de Pedrógão. O país vivia um clima de euforia e Pedrógão, como as cheias de 1967, mostrou um país real. No caso das cheias, os estudantes das Avenidas Novas, católicos progressistas ou do Técnico, mobilizados por Mariano Gago, entre outros, foram para os arrabaldes de Lisboa e conheceram situações de miséria que para eles eram absolutamente inacreditáveis no seu pequeno país da Avenida de Roma. O que levou a uma forte politização e mobilização dos estudantes. Foi aí que, Pacheco Pereira também o diz, o PCP perdeu um pouco da hegemonia do mundo estudantil e começaram a aparecer as pulsões do maoísmo e outras.

Qual o intuito do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa ao trazer para a ribalta a questão das cheias de 1967?

Como colaborador do Presidente preferia não me pronunciar sobre as suas intenções. O que se pode dizer é que houve uma súbita descoberta de um país que em alturas de crise tem grandes problemas de funcionamento. No caso de Pedrógão, percebeu-se não só a divisão social mas socioterritorial e geracional. Que já sabíamos existir, mas não passava de um discurso até acontecer esta tragédia.

Aponta Miguel Esteves Cardoso como um dos protagonistas da evolução da direita e arauto de uma nova época. Não acha que é exagerado para alguém que já quase se desvaneceu?

O facto de se ter desvanecido não é bem assim, pois alguém que foi uma grande estrela de rock se estiver vinte anos sem produzir também desaparece. Até acho que o Miguel Esteves Cardoso se reinventou, sob uma forma mais hedonista e reconciliada com a vida e com os outros - não tão cáustico e mais próximo da alimentação. No entanto, o Miguel Esteves Cardoso foi o rosto de uma mudança, mais talvez do que o seu companheiro em O Independente, Paulo Portas. O que no meu livro, Da Direita à Esquerda, me interessava era sublinhar uma mudança encarnada numa pessoa. Claro que houve muitos como ele ou que o acompanharam naquela redação bastante heterogénea.

Portanto, havia um "gangue"...

Sim, mas era um gangue muito flutuante e que não era caracterizável do ponto de vista político. Era absolutamente ecuménico do ponto de vista de esquerda e de direita, enquanto o jornal se assumia editorialmente com um perfil nacionalista e conservador. A marginalidade do Miguel Esteves Cardoso existia dentro de alguns limites do conformismo, mas acabou por trazer a O Independente um potencial de sedução sobre novas gerações que eram de direita ou de esquerda mas queriam mesmo era alterar um país - ainda não havia internet - e que vivia muito baseado na imprensa escrita. Um jornal onde havia uma cor e uma sedução que interessava aos jovens que o compravam, talvez por causa do Caderno 3 e não tanto pelas manchetes que, na maior parte, vieram a revelar-se falsas.

Curiosamente, era um jornal de direita mas que apontava contra o principal governante desse espectro político após o 25 de Abril, Cavaco Silva!

Por isso é que eu digo que os blocos "de esquerda" e "de direita" não se podem ver do ponto de vista homogéneo. Cavaco Silva representava uma direita que não era a de O Independente e, pelo contrário, veio esmagar esse projeto político do jornal, que era próximo de Paulo Portas. Não foi por acaso que o jornal acabou após servir os intuitos políticos do seu diretor e também por ficar aprisionado na sua própria lógica sensacionalista.

A direita portuguesa continua a existir apenas em função da esquerda?

Acho que não, há sempre um equilíbrio de vitimização. A direita queixa-se que a esquerda tem a maioria nos meios culturais, que não pode ter protagonistas culturais. Porquê? Porque há uma quase conspiração dos media que impedem a emergência de valores culturais da direita. Por outro lado, a esquerda queixa-se sempre que a direita tem a hegemonia dos meios económicos e, portanto, os meios de comunicação têm dificuldade em sobreviver. Basicamente, a direita vive em função da esquerda só no sentido em que esta é um pretexto de vitimização para as suas debilidades. Mas a esquerda também o faz, e aquilo que é mais curioso notar é que quer um quer outro polo ideológico existe por si, mas são incapazes de fazer aquilo a que se chama uma autocrítica das suas debilidades. Não é um fenómeno de agora e é transversal a vários países esse progressivo esvaziamento do centro político. Porque é cinzento e pouco apelativo, mas foi o centro que permitiu à França e à Alemanha ter milagres económicos.

Temos uma direita que está identificada mas em que a sucessiva mudança de líderes faz perder a identidade...

A direita em Portugal passou uma fase inicial que vivia sob a sombra clara de Salazar. Há um livro do Riccardo Marchi muito interessante sobre a extrema-direita entre 1976 e 1980, quando o seu discurso não podia proclamar-se nostálgico do Estado Novo no contexto pós-revolucionário: a presença em África, o modelo presidencialista, etc. Depois, a direita percebeu que tinha de se afastar dessa matriz para se afirmar numa sociedade democrática e por isso aparece a direita de O Independente, seguindo-se a direita dos blogues, a de jovens como Pedro Mexia, Pedro Lomba ou João Pereira Coutinho, que vive uma certa contradição porque é liberal nos costumes e, por outro lado, é conservadora. Aliás, também o socialismo do Tony Blair começou a conviver com a economia de mercado, mas viveu sempre um problema: o desenvolvimento de um sistema capitalista corrói muito os valores conservadores.

Ou seja, continua a haver vazio ideológico à direita tal como existiu durante todo o consulado do Salazar?

Não se pode dizer que havia um vazio ideológico, existiam ideias que, de certa forma, a cultura de esquerda caricaturava - porque era caricaturável. Hoje em dia não existe um vazio ideológico da direita, antes um fenómeno interessante: há uma série de intelectuais de direita que saíram do armário. Isto é, não têm problemas em proclamar-se como próximos da direita. Portanto, não proclamo a tese do fim das ideologias, o que digo é que a ideologia em si não serve já um fenómeno ou um propósito de conservar o mundo como acontecia para os conservadores, nem de transformar o mundo, como acontecia para os revolucionários.

Para que servem as ideologias hoje?

Servem para outros fins, como sinais de identificação tribais - eu que sou de esquerda, eu que sou de direita, e ambas têm uma tribo a proteger -, imitando um pronto-a-vestir agora como pronto-a-pensar para todos os assuntos. Hoje, somos convocados a ter opinião sobre tudo, desde o casamento sexual às alterações climáticas, porque é o que o sistema exige. Mesmo que não se tenham opiniões sobre tudo, nem capacidade de se informar, daí que o dispositivo mais fácil seja assumir que se é de esquerda ou de direita e a partir daí existem respostas.

E perde-se a liberdade de opinião?

Quando vemos intelectuais de esquerda a fugir da pauta ficam sinalizados, como o facto de Daniel Oliveira gostar de touradas. É tão anómalo que estou a citá-lo. O que é que quero dizer? Quando a pessoa pensa em esquerda nunca pensa em touradas, mas favorável ao casamento homossexual ou a todas as causas fraturantes. Se sou de direita, é ao contrário.

Criou o blogue Malomil. Serve para desabafar ou para formar opinião?

Nenhuma delas. Era para ser feito em conjunto com outras pessoas que depois não se associaram. O blogue não tem propósito nenhum, repara-se que tem muito pouca política.

Ao colocar num mesmo blogue recortes sobre médiuns, a terra do Obama ou a China não baralha?

Não, o propósito não é formar opinião, antes pretende ser uma espécie de suplemento cultural. O objetivo é de as pessoas não adivinharem o que lá vão encontrar e ter coisas que não apareçam muito por aí. A concorrência é grande porque a própria imprensa tradicional mimetiza aquilo que aparece na blogosfera, que se caracteriza por ser mais ligeiro e mais simples.

Aliás, vemos um historiador como Rui Ramos a escrever verdadeiros panfletos. É correta a sua atitude?

Atenção, aí o Rui Ramos está como intelectual público e não historiador.

Não se consegue diferenciar...

É um grande historiador e, tal como Vasco Pulido Valente, trazem o seu conhecimento histórico para as crónicas, mesmo que pareçam de intervenção.

Referiu uma citação de Pessoa sobre a nossa sociedade: que sem uma capacidade de refletir e ter ideias próprias, critica com ideias de outrem. Nada mudou desde 1930?

A questão é que o nosso pensamento próprio, apesar dos esforços de alguns historiadores, raramente existiu. Até devido à condição periférica em termos geográficos, que não só trouxe atrasos económicos como culturais. Só a partir da geração de meados do século XX, sobretudo da última parte, é que deixámos de ter uma presença hegemónica da importação de referenciais. Sempre foi muito difícil para os nossos intelectuais oscilarem entre o extremo provincianismo ou, quando queriam abandoná-lo, não serem seguidistas em relação a modelos de importação. Ou vestiam fato de campino ou iam comprá-lo a um alfaiate estrangeiro.

António Ferro é que o sabia fazer bem!

Exatamente, por isso mesmo é que fez aquelas recriações e invenções. Há um livro muito interessante, A Invenção das Tradições, de Terence Ranger e Eric Hobsbawm, em que estudam coisas como cortejos em Inglaterra, cerimónias como a coroação das rainhas, etc., que julgamos remontarem à Idade Média mas muitas vezes foram criadas, inventadas mesmo, no século XIX. Só que os ingleses vendem aquilo até aos turistas dizendo que são de tempos imemoriais. Portanto, a tradição é muito inventada e o que António Ferro fez foi montar para Salazar um dispositivo de invenção da tradição com o propósitos de alimentar um imaginário nacionalista.

Vamos à questão. Há uma cultura de direita estabelecida atualmente em Portugal?

No sentido que refiro não é uma cultura, há sim uma cultura tribal de direita em Portugal, no sentido antropológico. Não falo da direita cultural no sentido de intelecto ou de produção na área da cultura, da ficção, do cinema, etc. Tal como é possível falar da cultura aborígene ou da asteca, do ponto de vista de traços identitários de uma família cultural existem traços - sempre os houve - que identificam a direita.

Mas não tem dificuldade em dizer que há uma cultura de esquerda?

Há uma cultura de esquerda e há uma cultura de direita neste sentido que disse e não do ponto de vista de direita cultural. Mesmo assim considero que há uma direita cultural, como houve no passado, o Couto Viana, a Agustina, pessoas que se identificavam com a direita e eram muito minoritários. Hoje, do ponto de vista estritamente cultural, há um maior equilíbrio entre uma cultura de direita e de esquerda.

Em tempos deu como exemplo a revista Olá [do Semanário] para exemplificar o renascimento da direita. É um bom exemplo?

Não era propriamente uma revista cultural, pelo contrário, era uma revista social. Era um bom exemplo do que era impensável no imediato do 25 de Abril, quando as elites tinham fugido para o Brasil e para Espanha, que retratava as festas na discoteca Bananas. Era uma revista que mimetizava a Hola espanhola.

Assim como uma espécie de jornais digitais atuais mais conotados com a direita...

Não, o que se passa hoje em dia é que ao vermos os jornais, todos eles têm secções de lifestyle, que de certa forma representa o sucedâneo do ponto de vista de objeto de sedução hedonística e erótica. Digamos que é o substituto das revistas de celebridades, que tiveram um downgrading e são mais de consumo para o povo. Para as classes médias e médias altas, até porque o lifestyle propõe, normalmente são objetos ou fugas e evasões, coisas que não estão ao alcance de um cidadão de classe média baixa por norma.

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