"Em Lisboa imprimiu-se uma das primeiras edições piratas do Quixote"

Javier Rioyo explica que antes de publicar Dom Quixote, Miguel de Cervantes (1547-1616) foi militar. E que veio a Portugal em 1581 ter com Filipe II para pedir um cargo mas falhou. Acabou por viver dois anos em Lisboa, onde pode ter iniciado A Galateia, a sua obra de estreia. Um congresso cervantista debate esse período.

O Instituto Cervantes de Lisboa organiza a partir de amanhã nas Biblioteca Nacional um grande congresso de cervantistas. Miguel de Cervantes e Lisboa, Miguel de Cervantes e Portugal. Conte-nos essa relação ainda desconhecida de muitos portugueses como também de muitos espanhóis.

A relação vem de quando Cervantes deixa o cativeiro, ele estava preso em Argel, e chega à sua cidade, a Madrid, e descobre que a corte já não estava ali. E ele precisava de um trabalho. Uma ocupação na corte ou um destino na América. Cervantes tinha amigos em muitos sítios, incluindo em Portugal. E foram estes amigos que lhe disseram que Filipe II estava em Portugal e que fosse para lá. E assim chegou a Portugal, não como uma aventura, um passeio ou uma visita, mas para pedir um trabalho ao rei.

A corte estava em Tomar porque havia peste em Lisboa, certo?

Sim, havia peste. Estamos a falar de 1580-1581. Filipe entrou em Portugal reivindicando os seus direitos dinásticos. Encontrou muito pouca resistência e contava mesmo com o apoio de muitos nobres portugueses, mas não se pôde instalar logo em Lisboa por causa da peste e a corte decidiu fixar-se em Tomar, onde passou alguns meses. E foi aí que chegou Cervantes. Viajou ao longo das margens do Tejo, certamente já pensando na sua primeira obra, que é A Galateia, e quando chega a Portugal tudo lhe parece estupendo. Vê um país que, depois dos conflitos que teve, está em festa, em celebração, e vê uma corte onde há agora muitos portugueses e que adota novas modas. O rei Filipe já não lhe parece severo, já não se veste de negro mas com muitas cores. Cervantes não consegue, porém, o posto que quer. Dão-lhe uma missão pontual. Mandam-no de volta à Argélia, como espião. Leva cartas a aliados perto de Orão e tem de trazer informações sobre como está essa costa da barbária onde há muitas praças espanholas e também algumas portuguesas.

O Filipe que está em Tomar, e que acaba de assumir o trono, é neto de D. Manuel. Falava português?

Claro. A sua mãe, Isabel, falava-lhe em português.

Dos três Filipes que reinaram em Portugal é também aquele que foi melhor governante, não só do ponto de vista português como do espanhol, como se costuma afirmar? E também aquele que se sentia mais português?

Sim, absolutamente. Ele sentia-se também português. Tinha uma mãe portuguesa, a quem adorava. Conhecia o idioma e sentia-se aqui muito na sua terra também.

Diz-se até que o pai, Carlos V, lhe aconselhara décadas antes para ter Lisboa um dia como capital.

Deu-lhe um conselho: "Se um dia quiseres conservar e ampliar o teu reino, pensa que a capital ideal seria Lisboa." Afinal, aqueles que tinham descoberto o mundo, e que mandavam de um lado e de outro, no Ocidente e no Oriente, eram espanhóis e portugueses. E Lisboa era então a capital do mundo.

E é a essa Lisboa capital do mundo que Cervantes chega depois da missão à Argélia.

Sim. Ele tinha estado em Tomar. Depois parte para a Argélia. Regressa porque metade do pagamento só lhe seria dado no fim da missão. Creio que recebeu o dinheiro à chegada a Espanha, mas veio até aqui porque, tendo cumprido bem a missão no Norte de África, insistia em querer um posto, um trabalho. Acha que merece mais do que nunca ser premiado. E vem a Lisboa. E em Lisboa encontra o esplendor. Lisboa recebe dinheiro de todos os lados. Chegam barcos carregados de fortunas, de ouro, de telas e de especiarias.

Este Cervantes, que combateu em Lepanto e foi prisioneiro em Argel, é um soldado mas não é ainda um escritor?

Era um soldado amante das letras e, dizem, um grande narrador oral. Tinha escrito alguns poemas. E um deles dedicado ao secretário do rei Filipe e por isso veio aqui procurar recompensa. Também tinha conhecido no cativeiro muitos portugueses. Alguns deles ficaram seus amigos e por isso se supõe que foi muito bem acolhido. Não arranja trabalho, mas vai ficando por Lisboa. Pensa-se que a vida lhe corria muito bem por cá, porque fez muitas crónicas em que elogia Lisboa.

Cervantes chegou a Portugal não como uma aventura, um passeio ou uma vista, mas para pedir um trabalho ao rei

Estamos a falar de amores?

Sim, de amores, de mulheres, de festas, de diversão e de não ter muito trabalho. É preciso ver que era já um soldado experiente, que tinha a mão esquerda paralisada, que era um homem com trinta e muitos anos. Tinha uma saúde frágil, depois de cinco anos como cativo, e aqui rejuvenesceu.

Os cervantistas sabem onde viveu o autor do Quixote em Lisboa?

Alguns acreditam que seria no Campo das Cebolas, pelo menos nessa zona da cidade. Estava muito perto do palácio. Era bom sítio para quem queria estar próximo da corte. Uma corte que era muito portuguesa e pouco espanhola.

Fala-se de Cervantes ter tido uma filha portuguesa. É possível?

É possível, mas muitos historiadores cervantistas sérios rejeitam a tese. Fala-se dos amores com uma portuguesa que depois o segue para Madrid. E que essa mulher, casada com outro homem, tem uma filha que é de Cervantes. Uma filha portuguesa. Mas há contradições, muitas contradições. Há muito território por explorar da época de Cervantes em Portugal.

Mas daquilo que se sabe é que, não obtendo o tal cargo nas cortes ou nas Américas, o soldado Cervantes vai começar a carreira de escritor que o tornará imortal.

Sim e isso é importantíssimo. Porque se ele aqui em Portugal tivesse conseguido um lugar na corte ou um trabalho nas Américas, seguramente não teria escrito. Ou teria escrito como um simples amador, algum poema. Mas foi depois de aqui ter estado que surge a primeira obra. E há quem diga que A Galateia foi começada em Lisboa. Porque fala das margens de um rio tranquilo que lhe recordam as margens do rio da infância. E o Tejo marca-o muito.

Mas se há dúvidas sobre se A Galateia foi iniciada em Portugal, já da última obra de Cervantes, Persiles, é certo dizer que fala muito de Portugal?

A última obra é a mais portuguesa. Porque a escreve quando, como se diz, está já com um pé no estribo. Já a ponto de morrer. E evoca memórias, contos, histórias. É uma obra muito estranha, onde há muitas referências portuguesas. Mas referências portuguesas há em quase todas as obras de Cervantes. Há uma homenagem a Camões, que tem uma vida semelhante à de Cervantes, no Quixote. E há muitas referências n" O colóquio dos cães. É claro que conhecia bem Portugal e a cultura portuguesa.

Essa referência a Camões tem que ver com ambos terem sido homens de armas antes de serem homens de letras?

Certamente. As vidas de ambos são semelhantes, paralelas, por muitas razões. Ambos são fidalgos. Com pouca fortuna mas oriundos de famílias que tiveram fidalguia. Os dois fazem-se soldados como solução para saírem da sua precariedade económica. E são soldados aventureiros.

O espanhol, uma vintena de anos mais novo, era admirador do português?

Cervantes lia Camões. Sabemos das leituras porque, precisamente no Quixote, cita Camões. Cita também Jorge de Montemayor e outros. E essas leituras ou as fez durante o cativeiro em Argel ou durante a sua estada em Portugal.

Para si, que é diretor do Instituto Cervantes em Lisboa, porque é tão especial Quixote, essa obra-prima de Miguel de Cervantes?

Ah!. O Quixote [Suspiro]. Primeiro que tudo porque inaugura a novela contemporânea. Antes havia histórias de cavalaria e a poesia e o teatro estavam muito desenvolvidos. Mas este era outro género, uma novela, uma invenção moderna, porque as personagens que escolhe são anti-heróis, porque quer apagar as novelas de cavalaria, e cria duas figuras humanas perfeitamente admiráveis: um sonhador que voa livre, que tem capacidade de imaginação e loucura e paixão pelos livros; e um pés na terra, que diz "não senhor, vamos fazer isto de forma mais sensata".

Alguns acreditam que seria no Campo das Cebolas que viveu Cervantes

Está, claro, a falar de D. Quixote e de Sancho, que se tornaram figuras universais?

Figuras universais. E que se tornam universais quase de imediato. Aqui em Lisboa imprimiu-se uma das primeiras edições piratas do Quixote, no mesmo ano da publicação. Em 1605 já se fazia uma edição portuguesa, mesmo que só se traduza para português muito mais tarde porque os portugueses sempre leram com muita facilidade o espanhol. E depois viajam à América e apenas uns meses depois de o Quixote ter sido publicado há no Carnaval de Lima, no Peru, uma figura de D. Quixote e uma de Sancho Pança. Ou seja, as figuras icónicas foram muito bem criadas e falo também do tipo físico. Não são só as personalidades, uma mais elevada e outra de aspeto mais terra a terra, é também a iconografia.

Para este congresso, no ano em que se assinalam 400 anos da morte de Cervantes, vêm muitos especialistas espanhóis. Que podemos apreender sobre a vida deste homem em Portugal?

Creio que primeiro que tudo vamos descobrir como era o ambiente à sua volta, como era a cultura e a sociedade. E que influências recebeu Cervantes na sua passagem por Portugal. Ele chega a um país que conhece só de ouvido, das narrativas dos amigos, um país que o deslumbra e no qual vive de uma forma muito intensa. Vamos ver que leituras fez em Portugal, que amigos teve, que influências recebeu e que influências deixou também na vida portuguesa, porque esta é uma história em dois sentidos. Muitos portugueses vão também participar neste congresso e estamos a organizar outro, no próximo ano, sobre Persiles, que será ainda mais português.

E esta anunciada exposição da obra de Júlio Pomar associada ao Quixote. Onde pode ser visitada?

Vai ser visitada aqui no Instituto Cervantes em Lisboa, a partir de terça, com a presença de Júlio Pomar na inauguração. É um nome maior da pintura portuguesa e uma grande orgulho para nós tê-lo connosco. Ele tem paixão pelo Quixote, foi um dos grandes ilustradores do Quixote. Ilustrou Quixote em português e antes foi visitante do Prado e conta como alguns pintores da cultura espanhola, como Velázquez e Goya, marcam a sua obra.

Sei que nasceu em Alcala de Henares, que é a terra de Cervantes. Isso marca-o como espanhol sobretudo como homem de cultura espanhol?

Absolutamente. Quando era pequeno brincava numa igreja que estava meio destruída e passando por um buraco se chegava a uma pia batismal. E, sem saber, era onde batizaram Cervantes. Mais tarde descobri que tudo à volta era Cervantes. A escola, o teatro, o cinema. Até as amêndoas doces eram Cervantes. Cervantes era uma mitologia. Depois, para mim, passa a ser uma leitura e por fim alguém cuja obra me fascina.

É provável que cada espanhol tenha uma edição do Quixote?

Deveria ter [risos]. Como cada português deveria ter Os Lusíadas. São Cervantes e Camões que fixam o idioma, que lhe dão uma qualidade literária que até então não tinha.

Consegue dizer-me uma expressão do Quixote que exista atualmente na língua espanhola?

Claro. Várias: "Dónde una puerta se cierra, otra se abre" ou "Bien predica quien bien vive".

O congresso sobre Cervantes coincide com a visita a Portugal de Filipe VI...

Sim, o bom Filipe para vocês portugueses [risos].

Está previsto o rei assistir?

Estava prevista uma possível visita que não acontecerá por razões de agenda mas sei que fará referências. E que a Filipe Cervantes interessa muito, até porque fala da relação entre os dois países, que é muito boa, mesmo que na época dos Filipes II, III e IV fosse difícil para os portugueses. Mas os tempos mudaram e é preciso olhar com distância a História. E Cervantes era um soldado do rei espanhol que se apaixonou por Portugal.

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