É "inevitável" falar de cavaquismo quando se fala de rap em Portugal

É preciso recuar ao cavaquismo, às mortes de José Carvalho e Alcindo Monteiro e ao nascimento de organizações antirracismo para encontrar a génese do rap português

"Considero uma inevitabilidade descrever e inscrever o rap na história do designado cavaquismo." As palavras são de Soraia Simões, investigadora do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Socais e Humanas, em resposta ao DN, a propósito do nascimento deste género em Portugal, matéria sobre a qual escreveu no livro RAPublicar - A Micro-História Que Fez História numa Lisboa Adiada 1986-1996, lançado em junho do ano passado.

Os tempos de Cavaco Silva como primeiro ministro coincidem com a amplificação do rap junto da sociedade civil. Soraia Simões pormenoriza: "Há vários acontecimentos impactantes, a assinatura do tratado de Portugal à então CEE, a política de crescimento económico implementado durante o cavaquismo, a ainda hoje denominada "política do cimento", o período profícuo vivido pelas etiquetas discográficas multinacionais, a ideia de abertura a um mercado global que deu a ideia de que se vivia muitíssimo bem no país, desde a classe média-alta à média-baixa, a oficialização de associações antirracistas como o SOS Racismo após dois episódios de assassinato desembocados em confrontos com elementos afetos a pequenos grupos próximos das direitas radicais [assassinatos de José Carvalho e de Alcindo Monteiro], a criação de espaços noturnos como o Trópico Disco, o J. Guitar, o B.Leza e mesmo as festas promovidas por ONG [organizações não governamentais] ou associações como as Olho Vivo, Abraço, associações com objetivos diferenciados, é certo, mas assentes numa retórica de defesa do "outro", "marginalizado" e "estigmatizado" pela sociedade dominante", descreve a investigadora. "Não é por acaso que os rappers, MC, breakers e DJ deste período e "cultura urbana" aqui deram espetáculos, sempre com bastante público, das mais variadas esferas socioculturais", nota.

"O crescimento demográfico, em especial o aumento de uma população imigrante na cidade, a experiência transatlântica, e as relações de poder e dominação que daí advieram, expressas nos discursos falados e nas letras, especificamente no racismo e na xenofobia, as assimetrias sob os pontos de vista social e económico, foram alguns dos principais temas de inspiração destes jovens do sexo masculino. Temas também retratados por jovens do sexo feminino, que aqui se iniciaram com eles, e aos quais juntaram outros como a violência e a desigualdade com base no género", descreve Soraia Simões, que recolheu várias dezenas de depoimentos orais para o livro, também audiolivro, e continua a fazê--lo na plataforma Mural Sonoro, um arquivo que procura dar "uma leitura precisa sobre a música popular realizada em Portugal e o seu impacto durante a segunda metade do século XX", como se lê online.

A investigação de Soraia Simões, 41 anos, levou-a geografias como Cacilhas, Massamá, Amadora, Carcavelos, Oeiras, Miratejo, Monte de Caparica, Pedreira dos Húngaros, Cova da Moura, Pinhal Novo, Maia, Gaia. Os coletivos norte-americanos sobressaem como referência. Nomes como "Afrika Bambaata, fundador do grupo The Zulu Nation, e fonogramas particulares como Rapper"s Delight (1979), de Sugarhill Gang, a apelar à festa e à diversão, que contrastava com How We Gonna Make the Black Nation Rise?, anunciado por Brother D três anos depois (1982), ou The Message (1982) de Grandmaster Flash and The Furious Five, Captain Rapp com o disco Bad Times I Can"t Stand It (Saturn, 1983), Six in The Morning (1986) do rapper Ice-T, Planet Rock de Afrika Bambaataa (1982), Public Enemy (ItTakes a Nation of Millions to Hold Us Back. 1988, Fight the Power...Live!, 1989.), N.W.A ou Niggers With Attitude (Straight Outta Compton, 1989), KRS-One (Criminal Minded, 1987. By all Means Necessary, 1988)."

O brasileiro Gabriel, o Pensador foi outra influência. "Porque ele, à época, lhes mostrou que era possível rappar em português. Não só em português, como em línguas originárias como o crioulo, como sucedeu os casos de Boss AC e Cupid, Family, Djoek Varela, TWA, Nigga Poison, Chullage, entre outros."

Em 1994 foi lançado o álbum Rapublica, que compilava o trabalho de vários coletivos. As bandas podem ter desaparecido, mas "alguns ainda hoje se encontram ligados ao mundo cultural e musical, como os casos de Boss AC, D-Mars (dos então Zona Dread), Ace (dos então Mind da Gap), Lince (dos então New Tribe), NBC (dos então Filhos de 1 Deus Menor), Karlon (dos então Nigga Poison), TWA, Chullage. O que explica que não tenham resistido à passagem dos anos? Explica Soraia Simões que o rap, nos primeiros anos, se tornou "um produto daquilo que censurou: o modus operandi das indústrias musicais e de publicação e do contexto social e económico em questão". Eram tempos em que o estúdio ainda não tinha chegado ao computador. "A dependência de toda a cadeia - gravação, promoção, difusão, aceitação - era mais notória que hoje."

O rap em português está "cada vez mais no YouTube e em novos dispositivos de armazenamento, que criam dinâmicas distintas de produção e de receção, como o iTunes, o bandcamp, etc. E enche cada vez mais salas e festivais". O que explica o Meo Arena cheio para ouvir Kendrick Lamar, em 2016.

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