Bob Dylan. Um homem para todas as artes

Quando Bob Dylan se prepara para (não) receber o Nobel da Literatura, talvez tenha chegado o momento de lembrar as suas diferentes formas de expressão. Como a pintura e a literatura

Excluamos a escultura. Aguardemos o que possa passar-se no teatro e na fotografia. Se tiver tempo e paciência, é provável que Bob Dylan - com 38 discos de estúdio publicados, mais um número infinito de álbuns ao vivo, compilações e coleções de raridades - ainda "faça uma perninha". O cantor, autor e poeta (que, ao contrário de alguma matéria publicada por desdém, não chega ao Nobel da Literatura sem publicar nenhum livro, bastando referir Tarantula, de 1971, e o primeiro volume das suas Chronicles, de 2004 e ainda sem sequência) dá cartas noutros domínios artísticos. A começar por um surpreendente percurso em desenho e pintura.

Esses sinais começam, de resto, sem abandonar o domínio dos discos: as capas de Self Portrait (1970), como o título pressagia, e de Planet Waves (1974), são desenhos do próprio. Mas essa acaba por ser apenas a ponta do icebergue, uma espécie de pré-história da ligação de Dylan às artes plásticas. Em 1994, a insuspeita editora Random House publicou Drawn Blank, o primeiro de uma série, assinalável, de livros dedicados aos desenhos do cantor. Em 2007, uma galeria de arte de Chemnitz, Alemanha, estreou as exposições públicas das obras plásticas do autor de Like A Rolling Stone - a mostra chamava-se The Drawn Blank Series, reunia mais de 220 trabalhos, em aguarela e guache. O livro homónimo, lançado no ano seguinte, reduzia o "catálogo" para 170 criações.

Estava lançada esta via de acesso alternativo aos talentos de Dylan, prosseguidos com duas séries temáticas: The Brazil Series e The Asia Series. A primeira começou por ser vista, em 2010, na Dinamarca e constava de 40 pinturas sobre acrílico; a segunda, de 2011, estreou-se numa das mais modernistas galerias norte-americanas, a Gagosian, com sede em Nova Iorque e "filiais" espalhadas pelos Estados Unidos, pela Europa (Paris, Londres, Roma, Atenas e Genebra) e pela Ásia (Honk Kong). Esta mostra levantou, de resto, alguma polémica quando alguns visitantes mais atentos se aperceberam de que Dylan não se limitava a aproveitar as suas viagens como fonte de inspiração - também pintava sobre fotografias alheias. Como já aconteceu na música, em que foi acusado de "pedir emprestados" frases e versos alheios, Dylan nem se deu ao trabalho de contestar a "denúncia": limitou-se a fazer divulgar os direitos de reprodução, que conseguira junto da agência Magnum, de fotos de Dmitri Kessel e de Henri Cartier--Bresson...

Em 2012, ainda na Gagosian, chegou a vez de Revisionist Art. Desta vez, em 30 "capítulos", Dylan transformava e/ou satirizava revistas de grande consumo, da Playboy à Babytalk. Milão acolheu, em 2013, um novo alvo geográfico, The New Orleans Series.

No mesmo ano, a londrina National Portrait Gallery estreou Face Value, que incorporava 12 retratos em pastel. No mês passado, coube à também londrina Haclyon Gallery apresentar The Beaten Path, trabalhos em desenho, aguarela e acrílico que abordam as paisagens que Dylan foi retendo nas suas constantes viagens pelos Estados Unidos. Esta mostra já deu direito a livro homónimo, elevando para um total de sete o número de art books dedicados às incursões pictóricas do artista. Não se pode dizer que seja pouco, para uma atividade claramente paralela ou subsidiária.

A teimosia nos filmes

Menos constante, mas porventura mais teimosia, é a ligação de Dylan ao cinema. Aí, o seu "momento de glória" é um dos mais antigos, vem de 1973, quando o seu amigo Kris Kristofferson (um dos poucos "contemporâneos" a cujo património Dylan foi buscar uma canção para gravar, tal como aconteceu com Gordon Lightfoot, Paul Simon e Joni Mitchell, além dos seus colaboradores diretos, Robbie Robertson, Richard Manuel e Rick Danko, todos dos The Band) fez uma enorme campanha junto do realizador Sam Peckin-pah para que fosse o responsável pelas canções de Duelo na Poeira, que contava, mais uma vez, a história de Pat Garrett e Billy the Kid. Peckinpah gostou tanto de Dylan que lhe atribuiu um papel, devidamente creditado.

Seguiu-se, em 1978, o "manifesto" de Dylan, realizador e "ator principal" de Renaldo and Clara, com longas sequências de palco e de concerto. Dylan era Renaldo, a sua primeira mulher, Sara, era Clara. Do lado da música, apareciam nomes como os de Joan Baez, T-Bone Burnett e Ronnie Hawkins (o cantor que ajudou a juntar um grupo chamado The Band), que, nos momentos extramusicais, desempenhava o papel de... Bob Dylan. Harry Dean Stanton "representava" os atores, e o escritor Allen Ginsberg e o pugilista Rubin "Hurricane" Carter os convocados da vida real. Confuso? Assim o julgaram os distribuidores, que não se deixaram impressionar pelo nome do autor. Rapidamente, as quatro horas de duração foram cortadas pela metade e cingiram--se aos espetáculos. Dylan não voltou a realizar...

Em 1987, voltou a ser protagonista, num papel sabiamente declinado por Mick Jagger, o de um velho músico que a namorada (Fiona) troca por um "concorrente" mais novo (Rupert Everett). Realizado por Richard Marquand (O Regresso de Jedi) e com argumento de Joe Esterzhas (Instinto Fatal), Hearts of Fire foi um rotundo fracasso. Tal como Testemunha Involuntária (1990), de Dennis Hopper e com Jodie Foster, em que Dylan tem direito a um cameo. Em 1999, coube-lhe em sorte um motorista, Alfred, na trama de Paradise Cove, de Robert Clapsdale e com Ben Gazzara. Por fim, em 2003, sob o pseudónimo de Sergei Petrov, dividiu com o realizador Larry Charles a autoria do guião de Masked and Anonymous, outra história à volta da música, em que defende a personagem de Jack Fate (ele que assinou tantas produções de discos como Jack Frost). Atores como Jeff Bridges, Penélope Cruz, John Goodman, Jessica Lange, Luke Wilson, Angela Bassett, Bruce Dern, Val Kilmer e Ed Harris aceitaram pagamentos simbólicos para poderem participar ao lado de Dylan. Mas nada aconteceu.

Apetece dizer que mais vale a Dylan, no que toca ao cinema, esperar que tratem dele, como aconteceu - e de forma genial - com Todd Haynes em I"m not There - Não Estou Aí, em que Cate Blanchett, Christian Bale, Richard Gere e Heath Ledger, entre outros, eram chamados, em diferentes segmentos, à pele de Big Bob. Com isto tudo, Bob Dylan até já ganhou um Óscar - pela canção Things Have Changed, parte integrante de Wonder Boys - Prodígios, o filme de Curtis Hanson. E há outro número que impressiona e que parece crescer à mesma velocidade do que os défices de alguns países: em nome próprio ou por interposta voz, a música de Dylan está presente em 624 (às contas de hoje) trabalhos visuais, entre filmes, de longa e curta-metragem, telefilmes, séries de TV e documentários. Ou seja, está mesmo em toda a parte.

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