Antes de ser lenda, Eusébio foi Ruth. Esta é a sua história

Numa casa benfiquista, com argumento de Leonor Pinhão e realização do seu filho António Pinhão Botelho, nasceu Ruth: a recordação da chegada de Eusébio ao clube da Luz.

Se o fim do filme é o início da lenda de Eusébio (o futebolista prestes a subir ao relvado do Estádio da Luz), Ruth é a pré-história dessa lenda: o insólito folhetim da transferência do jogador do Sporting de Lourenço Marques para o Benfica, no agitado Portugal de 1960-61, pelo prisma dos "heróis anónimos" que a tornaram possível. "Livremente inspirada em factos reais", a fita - que chega hoje às salas - nasceu numa casa de benfiquistas, com argumento da jornalista Leonor Pinhão e realização do seu filho (e do cineasta João Botelho), António Pinhão Botelho.

Da carreira desportiva de Eusébio da Silva Ferreira (1942-2014) já tudo se sabe: "qualquer filme sobre ela ficaria sempre aquém da realidade", aponta, ao DN, Leonor Pinhão. Por isso, quando o produtor Paulo Branco lhe propôs que escrevesse um argumento sobre o maior ícone do futebol português no século XX, a jornalista apontou ao preâmbulo da história lendária do Pantera Negra: como ele se tornou "objeto de desejo" (e de conflito) para os responsáveis do Benfica e do Sporting, mesmo "sem que alguém na Metrópole o tivesse visto jogar".

Ruth parte daí - do estratagema benfiquista para desviar de Alvalade o promissor futebolista, de 18 anos, que despontava em Moçambique - para falar do Portugal do início dos anos 60, quando o regime salazarista foi abalado pelo desvio do paquete Santa Maria e pelo início da Guerra Colonial. "O argumento é muito suportado em notícias de jornais da época e entrevistas dadas pelos protagonistas", explica Leonor Pinhão - que lhes juntou personagens femininas "para fazer o contraponto da ação".

O guião ganhou vida na voz e corpo de Igor Regalla (Eusébio), Fernando Luís (Maurício Vieira de Brito, então presidente do Benfica), Lídia Franco e Vítor Norte (D. Otília e Domingos Claudino, funcionários do clube), entre outros, sob realização de António Pinhão Botelho - que, aos 31 anos, assina a sua primeira longa-metragem. "Quando Paulo Branco me disse que estava a pensar entregar o filme ao António fiquei muito agradada. Nunca pensei que este filme fosse feito, por isso, fiquei contente por sê-lo e ainda mais por ser pelo António", assume a mãe e argumentista.

A obra nasceu, pois, num contexto especial: em casa de benfiquistas e cineastas. João Botelho tentou guardar a distância possível ("não dei conselhos, só vi na estreia"), mas não esconde o orgulho no trabalho do filho. "É um filme honesto: ingénuo, mas muito bem feito", aponta, ao DN, vendo na tela um retrato "um bocado antisportinguista, mas sobretudo antifascista".

Ainda assim, o filme - passado entre o bairro de Mafalala onde Eusébio nasceu e a efervescente Lisboa onde aterrou em finais de 1960 - "não é um manifesto clubista", garante Leonor Pinhão. "É uma história de heróis anónimos, como os talhantes de Lourenço Marques [que criaram a falsa identidade, de Ruth, sob a qual Eusébio viajou para Lisboa]. E pode ser apreciada por qualquer pessoa que goste de cinema", explica a argumentista.

No limite, este "é um filme com 30 ou 40 protagonistas", como diz Leonor Pinhão - do elenco também fazem parte nomes como Anabela Moreira, Ana Bustorff, Bruno Cabrerizo, José Raposo, Marco Delgado ou os músicos JP Simões e Paulo Furtado/The Legendary Tigerman (que, além de interpretar o pai do Pantera Negra, é o autor da banda sonora). Contudo, o olhar acaba por se fixar em Eusébio da Silva Ferreira, a lenda que está prestes a nascer, ao subir pela primeira vez ao relvado do Estádio da Luz.

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