O que é certo.O assalto.No dia 28 de junho foram roubados dos paióis de Tancos diverso material militar, entre os qual granadas, explosivos e munições. A investigação começou com a Polícia Judiciária Militar (PJM) mas, por determinação da Procuradoria-Geral da República (PGR) passou para a Polícia Judiciária (PJ)..O "achamento".A 18 de Outubro a PJM anunciou que "na prossecução das suas diligências de investigação no âmbito do combate ao tráfico e comércio ilícito de material de guerra, recuperou (...) na região da Chamusca, com a colaboração do núcleo de investigação criminal da Guarda Nacional Republicana de Loulé, o material de guerra furtado dos Paióis Nacionais de Tancos"..Este comunicado deixou suspeitas no MP, primeiro pelas "diligências de investigação" da PJ Militar quando o inquérito estava sob coordenação do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) e da PJ, que as desconhecia; depois pelo envolvimento da GNR de Loulé, bem longe do local em causa. Aliás, ninguém percebeu, na altura, a ligação da GNR do Algarve ao caso..A investigação que se seguiu, através das vigilâncias e escutas realizadas, terá conseguido estabelecer as ligações entre os militares de Loulé e da PJM com o suspeito do roubo - de nacionalidade portuguesa - e fazer o "filme" da alegada recuperação do material..As detenções.A 25 de setembro foi desencadeada a "Operação Húbris" e a PJ deteve o diretor, Luís Vieira, e outros três responsáveis da PJM, um civil, que estão em prisão preventiva, e três elementos do Núcleo de Investigação Criminal da GNR de Loulé. Seria depois também detido o ex-porta-voz da PJM, que estava em missão na República Centro Africana, major Vasco Brazão, que era o responsável pela investigação ao roubo..Segundo o MP, em causa estão "factos suscetíveis de integrarem crimes de associação criminosa, denegação de justiça, prevaricação, falsificação de documentos, tráfico de influência, favorecimento pessoal praticado por funcionário, abuso de poder, recetação, detenção de arma proibida e tráfico de armas"..Autores do roubo à solta.Entre os detidos na "Operação Húbris" está um dos presumíveis autores do roubo. Aquele que quis devolver o material e que negociou um acordo com a PJM e com a GNR que o deixava em liberdade. No entanto, este arguido não foi o único a entrar nos paióis para roubar o material. Há mais envolvidos que ainda não foram apanhados..Processos disciplinares.O Exército abriu processos disciplinares a quatro militares que prestavam serviço em Tancos. A pena mais gravosa foi aplicada a um sargento do regimento de Engenharia 1, a proibição de saída durante 15 dias, por ter sido provado que "não mandou fazer as rondas como estava previsto na norma de execução permanente"..Os mistérios.O ministro soube ou não do "encobrimento"?.Esta questão só pode ser diretamente respondida pelo ex-chefe de gabinete, general Martins Pereira, quando for ouvido no Ministério Público. O major Vasco Brazão garante que sim. Alega que foi ao ministério da Defesa com o diretor da PJM, em novembro de 2017, e entregou um documento ao chefe de gabinete do ministro - no qual é assumida parte da encenação da recuperação do material de guerra da Chamusca e o acordo com um "informador" (que era um dos suspeitos do assalto) para afastar a PJ - e que o general Martins Pereira telefonou para o Ministro a dar-lhe conta da situação..Contradições.Mas o ex-diretor não confirmou ainda. De acordo com o Expresso nega mesmo essa reunião e desconhecer o dito documento. O coronel alega que apenas esteve com Martins Pereira dia 19 de outubro, no dia a seguir ao "achamento" para lhe entregar a versão oficial da recuperação do material..O problema é que Martins Pereira já veio assumir que houve também um encontro em novembro, conforme diz Brazão. "Cumpre-me informar, em abono da minha honra e da verdade dos factos, que efetivamente recebi o Sr. coronel Luís Vieira [diretor da Polícia Judiciária Militar] e o Sr. Major Brazão [porta-voz da Política Judiciária Militar], no meu gabinete, em novembro de 2017", refere o tenente-general António Martins Pereira, numa declaração escrita, enviada por e-mail à Agência Lusa..A questão está em saber o que estava realmente escrito no documento, pois a ser verdade o que alega Brazão, tal denuncia que foram cometidos crimes. Se assim foi, ninguém nos meios militares, acredita que Martins Pereira não tivesse informado o ministro..O que sabe o ex-diretor da PJM.No interrogatório judicial a que foi sujeito depois da detenção, o coronel Luís Vieira alegou desconhecer o que a equipa liderada por Vasco Brazão tinha arquitetado com o suspeito do roubo. Fontes da defesa sustentam que o coronel dava "total autonomia" às equipas de investigação e que não sabia a sua estratégia de atuação. Como se sabe, o juiz não acreditou que um diretor-geral não acompanhasse de perto um caso desta sensibilidade e subscreveu os argumentos do MP para decretar a sua prisão preventiva..De acordo com fontes judiciais, são várias as provas - testemunhais, de vigilâncias e escutas - a fundamentar os indícios de envolvimento de Luís Vieira - desde ordens para não dar informação à PJ; a ter dado aval ao acordo com o suspeito; ter subscrito o comunicado do "achamento", com informações falsas; e ter impedido a entrada da PJ no quartel onde estava o material de guerra que tinha sido "encontrado" na Chamusca..Caixa a mais.Um dos grandes mistérios que ainda não foi decifrado é saber, realmente, que material estava guardado nos paióis assaltados em Tancos. Quando o material foi recuperado a 18 de outubro, apareceu uma caixa a mais. Segundo o Chefe de Estado-Maior-General do Exército, Rovisco Duarte, era uma caixa de "petardos", mas a designação é simplista - tratava-se, isso sim, de uma embalagem com 100 velas de explosivos plástico. A explicação era que a dita caixa não tinha sido registada e que, por isso, no auto de apreensão que a Polícia Judiciária Militar (PJM) elaborou, não constou como roubada..Mas o Ministério Público veio também notar discrepâncias entre a lista do material desaparecido e o recuperado. O Exército só tinha assumido que faltavam as munições de 9mm, mas afinal faltavam também granadas e explosivos. "Continuo sem ter a certeza se falta material ou se é uma falha de inventário. Não digo nem que sim nem que não", admitiu Azeredo Lopes na altura..Perante gritantes falhas na segurança de uma instalação militar deste nível de risco - assumidas mesmo pelo ministério da Defesa Nacional no relatório "Tancos - Factos e Documentos" - é uma incógnita saber se não houve, noutras ocasiões, mais material "desaparecido"..Segurança Interna.É outro dos mistérios: perceber porque tanto a secretária-geral do Sistema de Segurança Interna (SSI) como o secretário-geral das secretas souberam do roubo "pelos jornais", conforme afirmaram no parlamento. Outra coisa difícil de entender é porque, perante a dimensão do roubo - que levou até a alertas em Espanha e França e à embaixada dos EUA em Lisboa quase a cancelar a festa do 4 de julho - o SIS não alterou o nível de alerta em Portugal. Além do facto, claro, de a Unidade de Coordenação Antiterrorista do SSI só se ter reunido mais de 48 horas depois de ter sido conhecido o assalto..O que falta saber.O aviso que não se investigou.Ainda não foi explicado porque é que em março de 2017 a PJ do Porto recebeu uma informação - que passou à PJM do Porto - sobre a possibilidade de haver um assalto a instalações militares na zona centro (onde está Tancos) e ninguém alertou as Forças Armadas. A informação era vaga? Não foi investigada a fundo por falta de meios ou desorganização? Porque é que os juízes de instrução não autorizaram escutas aos suspeitos?.Explosivos ainda à solta?.Uma das dúvidas que estará prestes a ser esclarecida é se, além das munições de 9mm, se ainda há mais material de guerra que, afinal, não foi deixado na Chamusca. A pedido do CDS, a PGR enviou esta semana a lista do material que a PJM disse ter sido recuperado e, desta forma, será possível comparar com a lista daquele que tinha sido dado como roubado..Sobre o roubo.Quem foram os autores do roubo, que cumplicidades internas - e a que nível - tiveram; porque decidiram avançar naquele dia - numa altura em que estava para autorizar no Ministério da Defesa a verba de 316 mil euros para reparar as vedações e que foi publicada em Diário da República dois dias depois do assalto - ; qual era realmente o alvo - se aqueles paióis ou os dos paraquedistas, mais ao lado, onde estavam as munições que têm saída fácil no mercado negro; foi a primeira vez que houve material de guerra ou armas a ser dali desviado? - são algumas dúvidas que subsistem..Sobre o "achamento".Não deixa de ser difícil acreditar que militares, com carreira feita, se tenham envolvido numa farsa como a que descreve o MP, por uma questão de "Húbris" - orgulho, vaidade, arrogância. Mas pelo que assumiu o major Vasco Brazão, num memorando escrito ao coronel Luís Vieira, este terá sido um dos motivos. "Ao contrário de outras investigações, desta vez a PJ não nos passou a perna", afirmou. Que investigações serão estas em que a Judiciária "passou a perna" à PJM, está por saber.