Gritaram a alegada corrupção de Vladimir Putin por ter um amigo músico que meteu incontáveis milhões numa offshore financeira. Condenaram à demissão o presidente de um país, Islândia, com uma população pouco maior do que a da cidade do Porto. No mesmo dia, quando lançaram a investigação Panama Papers, menorizaram o envolvimento de David Cameron num esquema de fuga ao fisco da empresa do pai. Se o primeiro-ministro britânico não confessasse ter beneficiado financeiramente disso, passava a verdade lapidar a frase ideológica do euro-deputado Francisco Assis sobre a lista de clientes da Mossack Fonseca: "Está lá Putin, estão lá dirigentes chineses, estão lá autocratas de todo o estilo e natureza, não estão líderes europeus. E não estão por uma razão simples: pela qualidade das instituições que estruturam os regimes democrático-liberais"... Falou antes de tempo..Vieram os nomes portugueses. Às pinguinhas por ser preciso, apesar de já ter passado um ano desde o início da investigação jornalística, procurar muito mais, confrontar novos dados, dar direito ao contraditório, separar o que é legal do ilegal, não caluniar ninguém, não misturar coisas diferentes..Afinal, está muita coisa misturada. Até aparece o saco azul do GES, num texto em que não se percebe a ligação aos Panama Papers (mete offshores, vá lá), mas que serve para acusar, genericamente, políticos e jornalistas, sem nome, sem rosto, de estarem a soldo de Ricardo Salgado, o ogre fácil do regime..Depois saiu o primeiro pedido de desculpas do Expresso e da TVI: a Filipe de Botton, Alexandre Relvas e Carlos Monteiro por um texto confuso poder dar a ideia, falsa, de eles terem usado uma offshore..Micael Pereira, Rui Araújo, Pedro Santos Guerreiro e Sérgio Figueiredo e todos os outros autores são ótimos jornalistas. Do melhor que há. Mas um trabalho deste género, muito difícil, não pode fugir ao erro. É inevitável. Devemos relativizar os incidentes. O balanço só pode ser feito no final, daqui a muitos meses, e será sempre positivo para a profissão se se demonstrar que o filtro jornalístico é melhor para a sociedade do que as fugas de informação descontroladas, ao estilo de Julian Assange..É por isso que, com tal contexto, não revelar os nomes de jornalistas que receberiam avenças de Ricardo Salgado é aplicar um filtro que deixa o critério jornalístico a perder para o WikiLeaks. Quando, ainda por cima, se tem de pedir desculpa a dois acionistas de um órgão de comunicação social (o Observador) fica indiciada esta suspeita nos leitores e nos telespectadores: os jornais, afinal, são corporativos e protegem sempre os seus, são tão corruptos como a corrupção que denunciam. Isto mata o jornalismo.