Depois de Marquesa de Alorna, Padeira de Aljubarrota e Até Que o Amor me Mate - As mulheres de Camões, Maria João Lopo de Carvalho mergulhou no universo da Severa, do fado ainda dançado, e da Lisboa popular do século XIX, com epicentro na Mouraria, povoada por personagens secundárias de um mundo de música e prostituição como Marta Mamalhuda, Jesuína Ranhosa ou Carlota Escarniche..Neste seu último romance histórico, O Fado da Severa, a escritora conta a história tão trágica quanto romântica da fadista, Maria Severa Onofriana de nascença, que morreu jovem, aos 26 anos, e da história que esta viveu com o conde de Vimioso, vindo de um mundo oposto ao da Mouraria, o dos palácios do Campo Grande..Maria João Lopo de Carvalho apresenta O Fado da Severa neste sábado às 18.00 na FNAC de Cascais. A sessão conta ainda com a participação da fadista Margarida Soeiro, acompanhada por Diogo Quadros na guitarra portuguesa e Jaime Santos na viola..Não conhecemos a voz nem a imagem da verdadeira Severa. Que mais gostava de saber acerca dela?.Gostava de lhe ter ouvido a voz. A forma como batia e dançava o fado, visto que o fado começou por ser uma dança nos bairros populares. Todavia, o que Júlio de Sousa Costa nos deixou como testemunhos reais recolhidos por contemporâneos da Severa, pintaram-me a Mouraria do século XIX de forma bem real. Talvez tenha chegado a uma aproximação à Severa..Falou há tempos de uma "onda puritana" que se revoltou contra a linguagem que usa nas personagens da Mouraria que retrata. Que sinais do nosso tempo isso lhe revela? Estava à espera que houvesse esta reação a um discurso que ainda por cima é ficcional?.O discurso é menos ficcional do que parece, recolhi dezenas de testemunhos sobre a prostituição no século XIX e de facto as reações puritanas deixaram-me surpreendida. Há duas formas de escrever romances históricos: a da facilidade evitando ir "atrás dos tempos" ou a do rigor indo precisamente atrás da linguagem do tempo e correndo maiores riscos de compreensão e de interpretação. A linguagem é matéria..Esta Lisboa popular do século XIX surpreendeu-a quando a estudou aprofundadamente?.É menos conhecida do que a Lisboa "dos titulares", mas também mais próxima de nós, por estranho que pareça. Sem querer, voltava sempre à minha infância e ao impacto que A Vendedora de Fósforos, de Hans Christian Andersen, teve em mim..Escreve nos agradecimentos que "se pudesse ser outra coisa na vida seria fadista". O que é que a fascina no fado?.Ser o fado o maior - para mim - condutor de emoções e sobretudo o fabuloso tributo que o fado sempre prestou aos poetas portugueses..Foi também uma procura pelos primórdios do fado, quando ele era bem diferente do que é hoje, que a levou até à Severa?.Curiosidade. É sempre a curiosidade e a admiração por histórias passadas. Gente que estando na sombra se fez luz. É essa procura que me vai fazendo correr atrás do tempo. Gosto de aprender e conhecer em profundidade uma história que me entusiasme para a poder contar..Compara a tarefa de pesquisa que faz para um romance histórico ao trabalho de um detetive. Vai procurando a partir de pontas soltas e questões que tem ou recolhe primeiro todo o material que encontra e só depois o vai trabalhando?.É um trabalho de costura, uma caça ao tesouro. Vou descobrindo, aventurando-me a escrever, riscando, voltando atrás até que haja coerência e rigor. É como se o meu presente do indicativo fosse a Mouraria do século XIX e só estando lá, inteiramente lá, consigo ser genuína e autêntica. O leitor não vai em batotas..Que tipo de perguntas tinha para fazer à Aldina Duarte ou ao Camané sobre a Severa e o fado? Frequentou a comunidade Fado para Todos da Aldina Duarte?.Frequentei, aprendi e foi determinante para a escrita deste romance. "Só sei que nada sei" A voz da Severa? E a Maria Severa, como a imaginam? Penso que cada um tenha a sua leitura da Severa..Quão importante foi para si A Severa, de Júlio Dantas?.Um livro de cabeceira que li e fechei muito tempo antes de começar este trabalho. Não quis voltar a ele, evitei ser contaminada pela visão forte e precisa do Júlio Dantas e do seu tempo..O que têm em comum Marquesa de Alorna, a Padeira de Aljubarrota e as mulheres de Camões que terá despertado em si interesse para escrever sobre e a partir destas figuras femininas?.Boas histórias muitas vezes esquecidas na esquina dos tempos. Modelos, exemplos, inspirações. Obrigam-me a investigar - um dos meus grandes prazeres - e a contar uma história com o meu entusiasmo habitual, como se a contasse a mim mesma..E porquê mulheres? Para a Maria João é a grande história que ainda está por contar?.E porque não? Se eu tivesse biografado ou romanceado um homem, alguém me perguntaria, porquê homens? O meu próximo livro não é sobre mulher alguma..Sai-se de um período destes com a Severa diferente do que era quando começou?.Comecei com uma bruma, uma melodia distante e imprecisa e cheguei a uma Severa de corpo, alma, nervos, sangue. Foi esta Severa que contei.