FOTOGRAFIA Charme dos anos 60 na linha da frente do digital

No mesmo ano em que se celebram 170 anos do início da fotografia (ligada à invenção do daguerreótipo em 1839) e meio século da criação da famosa Pen – revolucionária nas pequenas dimensões e na democratização do acesso às fotos –, a nova câmara E-P1 faz renascer a lenda. É o adeus aos limites da fotografia convencional
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Em 1959, pondo todo o seu engenho na ideia de conceber uma câmara tão fácil de utilizar e transportar como uma caneta (pen), o designer japonês Yoshihisa Maitani criava de uma assentada a famosa Olympus Pen e mudava o universo da fotografia ao torná-lo acessível a um maior número de aspirantes a fotógrafos. Desde então, os anos correram silenciosos, cristalizados em fotos sucessivas e exigências cada vez mais apuradas. Até que 50 anos se passaram e o mundo pôde assistir agora, em Berlim, ao renascer da lenda: o lançamento internacional da nova E-P1 em formato digital, a lembrar o charme da antiga Pen ao mesmo tempo que veio para revolucionar o futuro da fotografia.


“É tão compacta e leve!”, comentavam os utilizadores profissionais e amadores da altura, maravilhados com aquela máquina recém-desenhada, pequena e de poucos botões, que utilizava metade do filme por cada foto e, como tal, tirava o dobro das fotografias a partir da mesma quantidade de filme usada noutras câmaras de 35 milímetros. Hoje, a “filha” da ousada Pen, meio século mais nova que a progenitora mas igualmente apologista de um visual retro (e muito chique), inspirou-se nos mesmos conceitos para crescer em tecnologia de ponta sem aumentar de tamanho.


A E-P1 já não faz 72 fotos de um filme de 36 (até porque o analógico passou à história, de um modo geral), mas é o primeiro modelo Micro Quatro Terços da Olympus – um novo standard que reduz ainda mais a dimensão e a espessura das câmaras com objectivas amovíveis e intermutáveis, enquanto assegura uma elevada qualidade da imagem e tem em conta aperfeiçoamentos como o manuseamento integrado de vídeos e imagens. A máquina é elegante, fina, muito leve, mas não fica atrás de nenhuma câmara compacta convencional. Intuitiva e portátil, com um design topo de gama, a Pen Digital (como também é conhecida) volta a ficar na linha da frente ao fim de 50 anos para libertar a fotografia dos constrangimentos da tecnologia convencional.

A história da fotografia remonta à invenção da câmara obscura, um compartimento hermeticamente vedado à entrada da luz onde as imagens se formam e ficam registadas no material fotossensível que se encontra no interior. O princípio era já conhecido no tempo de Aristóteles mas foi a partir do século XVI, quando se colocou uma lente convexa no buraco das tradicionais câmaras obscuras, que o aparelho passou a ser usado para o registo permanente de imagens. Em 1826, baseando-se nos conhecimentos e tentativas herdadas da Física e da Química desde o início do século XVIII, o francês Joseph Nicéphore Niépce fixava pela primeira vez a paisagem da cidade francesa de Gras – ele que era perito em gravuras na pedra e alimentava uma enorme curiosidade pela fotografia – numa placa de estanho coberta de betume branco e exposta à luz solar durante oito horas.

Em Agosto de 1839, não obstante ter sido Nicéphore o primeiro a conseguir a primeira foto permanente do mundo – e de o inglês William Fox Talbot pesquisar há anos a fixação da câmara escura, reclamando a prioridade do invento à Royal Society –, foi Louis-Jacques Daguerre quem apresentou aquela que é hoje considerada a primeira máquina fotográfica e arrecadou o título oficial de inventor da fotografia com o seu daguerreótipo: uma caixa preta onde era colocada uma chapa de cobre prateada e polida que, uma vez submetida a vapores de iodo, formava uma camada de iodeto de prata. A placa era depois exposta uns minutos à luz numa câmara escura e revelada em vapor de mercúrio aquecido, que aderia nas zonas previamente tocadas pela luz formando a imagem.


Da sua invenção, Daguerre escreveu o seguinte: “A descoberta que eu anuncio ao público é, pelos seus princípios, os seus resultados e a feliz influência que possa vir a ter nas artes, naturalmente uma das invenções mais úteis e extraordinárias.” Dizia ele que o fenómeno “consiste tão somente na reprodução espontânea de imagens da natureza recebidas numa câmara escura, não com as suas cores, mas com um grande detalhe e beleza na distribuição dos objectos, iluminados ou não”.


Também agora em 2009 faz 170 anos que Daguerre brilhou aos olhos de todos e escreveu um capítulo importantíssimo da história da fotografia, ao assinalar o seu início. A técnica foi-se tornando menos onerosa e demorada com o tempo, convencendo legiões de fotógrafos a registar, com precisão, imagens de lugares exóticos e do corpo humano para estudos anatómicos. Um pouco mais tarde, quando William Talbot criou o calótipo (o primeiro processo fotográfico a utilizar o sistema positivo/negativo, muito semelhante à revelação fotográfica comum), a fotografia documental arqueológica ganhou expressão e milhares de fotógrafos embarcaram em expedições científicas, sobretudo ao Egipto, carregados de tendas escuras, placas, químicos e equipamento que pesava facilmente 200 quilos.

Nenhum daqueles homens imaginava então que o digital seria o futuro, ou teria recusado carregar o laboratório às costas em viagem. O próprio Maitani, quando anos depois concebeu a primeira de várias câmaras Pen – uma das séries mais populares e bem sucedidas de sempre –, não suspeitava que iria revolucionar o modo de se fazer fotografia, casando simplicidade, estilo e performance numa só máquina.


Cinco décadas mais tarde, a E-P1 vem anunciar o começo da próxima geração da era digital, reinventando a fotografia topo de gama para o milénio: o novo equipamento híbrido ultracompacto elimina o bloco do espelho; pode gravar filmes em alta definição com som e efeitos criativos surpreendentes; permite aplicar os filtros artísticos nos filmes e nas fotos e alterar a profundidade de campo, o ângulo de visão e a focagem automática durante a gravação; é compatível com todas as objectivas Micro Quatro Terços (e com as objectivas do sistema Quatro Terços disponíveis na actualidade, usando um adaptador); tem incorporado um sistema de estabilização da imagem e um motor que garante velocidades de processamento muito rápidas e de qualidade profissional. Os únicos limites à criatividade de cada um são mesmo só a imaginação e a energia do dedo que controla os disparos.

Há 20 anos, o Muro caiu em Berlim

O lançamento da nova Pen Digital é internacional, a inovação tecnológica dirigida a todos e a máquina comercializada em simultâneo em todos os países. Mas apesar de tanta globalização, num ano de efemérides como é 2009 a apresentação só podia ter acontecido em Berlim: a própria cidade festeja este ano, em Novembro, duas décadas da queda do famoso Muro de Berlim, que durante 28 anos a dividiu nas partes ocidental e oriental (dominadas respectivamente pelos Aliados e os soviéticos e chamadas de República Federal da Alemanha – RFA – e República Democrática Alemã – RDA), separadas por uma cortina de pedra com arame farpado e ideologias irreconciliáveis.

Hoje, pulsante e radiosa na sua incomparável oferta cultural, nas ambiciosas propostas arquitectónicas e urbanísticas e no turismo que se alimenta dos parques naturais, dos palácios, do comércio da Kurfürstendamm e da riqueza histórica, Berlim cresce juntamente com os seus estudantes, artistas, curiosos e investidores que fazem da cidade uma das mais cosmopolitas e heterogéneas do mundo.

Do muro original restam hoje de pé cerca de 1300 metros de concreto, considerados monumento histórico e a ser novamente pintados por Thierry Noir, o artista francês que se fixou em Berlim ocidental no início dos anos 80 (atraído pela presença dos músicos David Bowie e Iggy Pop) e que primeiro cobriu o muro de apontamentos de melancolia em cores vivas. E mesmo agora Noir faz questão que ninguém esqueça o que se passou: “O muro nunca será belo, muitas pessoas morreram por causa dele. Está lá para lembrar às gerações futuras o que aconteceu”, diz.

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