Em 2004, José Manuel Osório seleccionou e coordenou a colecção Todos os Fados, editada no ano seguinte pela revista Visão. "Foi o meu primeiro contacto com o catálogo da Alvorada", declarou o músico e investigador na área do fado, a propósito da colecção Os Fados da Alvorada, que será lançada na segunda-feira pela Movieplay, detentora do espólio da etiqueta discográfica da portuense Rádio Triunfo. "De facto, fiquei abismado quando contactei com aquele riquíssimo espólio. Resolvi que [os discos] não podiam continuar ali "a dormir", era preciso alguém para acordar aqueles discos todos. Acordei alguns para fazer a colecção Todos os Fados e depois voltei lá e acordei mais alguns para fazer uma colecção sobre a Fernanda Maria, que ficou publicada em dois volumes", continuou, acerca do processo de elaboração da colectânea, que reúne 60 temas escolhidos de entre os mais de 7200 discos que compõem o catálogo da editora.A selecção dos temas foi feita segundo o critério pessoal do seu curador, que escolheu os artistas e os temas a serem incluídos, numa colecção dominada pelo fado tradicional. A predominância do fado tradicional não partiu, porém, da vontade de José Manuel Osório. "Impus o meu gosto pessoal quanto às interpretações e aos nomes que aqui estão", garante, embora tenha respeitado a prevalência do fado tradicional no repertório artístico nos anos de actividade da Alvorada."Acontece que 90% das gravações que encontrei eram de fado tradicional, era assim que se can-tava naquela época. Claro que há muito bom fado musicado, e a prova disso é que tenho algumas coi-sas incluídas nesta colecção. Mas era o que se gravava à época, e se eu queria fazer uma colecção sobre a Alvorada, tinha de respeitar isso", admitiu o fadista e compositor. Tendo em conta a abrangência da colecção e o perfil dos intérpretes que nela figuram, que eram, por vezes, pouco dados a ponderações acerca de um eventual legado artístico, uma das principais dificuldades na realização do projecto foi a exactidão histórica quanto à biografia dos intérpretes e à legitimidade dos temas seleccionados."As pessoas do fado, de forma geral, vivem num mundo muito fechado, não transmitem muito das suas vidas, às vezes porque acham que o que fizeram é menor e não tem muito interesse. Não se guardam papéis, não se guardam recortes de jornais, não se guardam fotografias, não se guardam programas de espectáculos. Então, quando é preciso reunir informação, a pesquisa torna-se muito complicada", confessou.É facto assente que os intérpretes, frequentemente, modificavam os temas do fado para mais facilmente os acomodarem ao seu estilo particular, ou porque discordavam de uma opção lírica do escritor. O autor da colecção tentou repor a "verdade" dos fados: "Fiz esse trabalho faixa por faixa, sem as modificações dos intérpretes, tal como o autor tinha declarado aquela obra, porque aquela que está declarada na Sociedade Portuguesa de Autores é que para mim é válida, mesmo sabendo eu que alguns autores escreveram coisas que depois alteraram porque os intérpretes pediram."Para além da exactidão histórica, o coordenador de Os Fados da Alvorada, em conjunto com José António Regada, dos estúdios da Movieplay, optou por preservar a qualidade sonora original dos registos discográficos, procurando conservar a ambiência do disco em vinil. "Antes de mais nada, [tentámos] não plastificar o som; o vinil tem cambiantes que o CD não tem e que, de facto, são próprios do seu material". Esta colecção, que inclui temas de Amália Rodrigues, Ada de Castro, Carlos Carvalho, Manuel de Almeida, entre outros, está dividida em três volumes, organizados por ordem alfabética, e será apresentada ao público no dia 3 de Março, no auditório do Museu do Fado. A apresentação será conduzida pelo próprio José Manuel Osório, e conta com a participação de António Chainho, Chico Madureira, Maria de Fátima e Maria Amélia Proença.