A fama e os factos no Pica-Pau Amarelo

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Bairro do Pica-Pau:

Considerado uma "zona sensível" pela PSP do distrito de Setúbal, o Pica-Pau Amarelo não está entre os bairros em que será implantado o Programa de Policiamento Integrado - que tem como linha mestra a patrulha das áreas por polícias previamente designados de modo a criar uma relação de confiança entre os agentes e a população. Segundo o comandante Bastos Leitão, as situações mais recentes de conflitos e violência indicam que a prioridade de acção são os bairros de Setúbal, Seixal e Moita. "Os bairros de Almada, inclusive o Pica-Pau Amarelo, receberão o programa, mas não agora, porque não há um histórico recente que exija prioridade", salienta o comandante.

O morador Carlos Ferreira, 56 anos, discorda. Para ele, a vista privilegiada para o Tejo não compensa o ambiente do bairro. Uso e tráfico de drogas, violência entre os moradores e corridas de carros são alguns dos problemas rotineiros que aponta. Enquanto caminha para a horta que cultiva, lamenta não ter tido condições económicas para sair do bairro, onde paga 25 euros de renda. Enquanto espera o autocarro, a reformada Isabel dos Santos, 56 anos, queixa-se dos atrasos no transporte e dos poucos horários. "Não é fácil subir um quilómetro com chuva, compras e crianças", nota.

Paula caminha apressada pela Rua do Moinho para levar o pão fresco para os filhos, não pode dar muita conversa porque tem de ir para o trabalho. Vive há oito anos no Pica-Pau Amarelo e está satisfeita com o bairro e com a a polícia, "que passa sem necessidade de ser chamada". Acha "normal" o barulho nos fins-de-semana, quando os jovens ocupam a rua para ouvir música. Vera Lopes, 30 anos, abriu o café Rio Mira às 06.00 da manhã, o dia promete calor, o que significa vender até cinco grades de cerveja. Ela e o marido, que cresceu no bairro e trabalha na PSP, estão à procura de casa no Pica-Pau Amarelo. "Quando encontrar, venho correndo", afirma Vera.

Cheia de idosos, a carrinha da Santa Casa de Misericórdia está pronta para partir. Há cinco anos, António Pereira faz duas viagens por dia para transportar os pacientes, diz que a "tranquilidade" é a marca do bairro. O cheiro a sardinhas vem da grelha do senhor Antero de Quental, 70 anos. Orgulha- -se de ser um dos primeiros moradores e de ter criado os dois filhos no bairro sem dificuldade. "Há desemprego, mas o maior problema é a falta de estrutura familiar e de educação, as crianças a crescerem sem limites." Os matraquilhos do restaurante Mantenha di Nós Terra estão estragados e cachupa para o almoço só com reserva. O café já foi assaltado cinco vezes.

"Eu gosto do Liedson, acho porreiro ele ter-se tornado português e jogar na selecção. Mas e eu, que nasci em Almada há 24 anos e não tenho os documentos regularizados? Sem BI não há emprego, estudo ou conta no banco", indigna-se António. O jovem é um entre os muitos que ao fim do dia se juntam em frente ao supermercado para beber uma cerveja e conversar. Está de férias do curso de talhante que frequenta numa empresa em Lisboa. Baixa a cabeça, suspira, faz silêncio e põe um ponto final na conversa quando o tema são os seus sonhos e perspectivas...

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