'Língua azul' é pretexto para comprar barato

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A crise provocada pela doença da "língua azul" nas explorações pecuárias da margem esquerda do Guadiana está a ser aproveitada pelos negociantes de gado que procuram comprar ovinos e caprinos a baixo preço entre Barrancos, Serpa e Moura. A denúncia é feita ao DN por Manuel Machado, da Associação de Agricultores de Serpa, numa altura em que a chamada "zona suja" já abrange 43 explorações sob suspeita, contabilizando um total de 4283 cabeças.

Mas, segundo o DN apurou, os produtores ainda não cederam às propostas de compra dos negociantes. Pagam 35 euros por um borrego de 22 quilos, quando o preço normal pode ascender aos 50 euros.

"Veja o que é isto num rebanho de 80 cabeças", refere Manuel Machado, enquanto Carlos Silva, um produtor de Barrancos - o concelho mais crítico com um total de 36 explorações sob sequestro - garante que vai "aguentar ao máximo" o seu efectivo. Este agricultor lamenta que na Extremadura espanhola - região com problemas idênticos - os produtores já tenham recebido a garantia do governo regional de que serão compensados com 90 euros por cada ovelha morta devido à doença . E desabafa: "Por cá, nada se sabe."

Carlos Silva vislumbra um cenário "desastroso" para o sector nos próximos tempos, justificando ter 50 borregos que já atingiram o "tamanho comercial para serem transaccionados", mas que devido à doença da "língua azul" terá de os manter na propriedade até que o mercado dite novas regras.

"Vou gastar mais dinheiro para alimentar os animais, mas não vendo a baixo preço. Espero que os meus colegas façam o mesmo", insiste aquele criador, lamentando ainda que apesar das explorações terem sido sequestradas "a doença se tenha propagado e ninguém saiba onde isto vai parar."

As associações agrícolas lamentam a existência de negociantes a tentarem tirar partido da crise provocada pela doença, mas recusam dar conselhos empresariais. Manuel Machado diz não saber o que vai reservar o mercado e justifica: "suponha que aconselho a aguentar e o mercado baixa, ou que aconselho a vender e o mercado sobe?"

Perante as dúvidas e a ausência de vacina para serotipo 1, a prevenção tem sido a palavra de ordem, com os produtores a pulverizarem os seus animais, de oito em oito dias, de forma a desinfestarem as cabeças de gado e a repelirem o mosquito que transmite o vírus.|

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